Assine nossa newsletter e fique por dentro de tudo que rola na sua região.
O primeiro turno das eleições presidenciais na Bolívia marcou uma inflexão histórica: depois de vinte anos de hegemonia da esquerda, o país terá dois candidatos fora desse campo disputando o segundo turno, um de centro outro de direita conservadora. Mas reduzir esse resultado a uma simples “virada à direita”, como querem fazer os analistas políticos conservadores brasileiros, seria ignorar a complexidade do fenômeno que levou Rodrigo Paz, senador de Tarija, à liderança com mais de 32% dos votos, contrariando todas as pesquisas. Sua trajetória e o modo como capturou o voto de cansaço com a polarização mostram que a terceira via tem vida na América Latina e lembram, em muitos aspectos, as tentativas de Ciro Gomes e Marina Silva no Brasil.
Paz é um político com ampla experiência administrativa, tendo sido vereador, prefeito e senador, e que se projetou a partir de uma região periférica em relação ao eixo dominante da política boliviana, historicamente disputado entre o altiplano e Santa Cruz. Esse elemento o aproxima de Ciro, que construiu sua trajetória a partir do Ceará, fora do eixo Rio-São Paulo-Minas. Ambos carregam em comum uma narrativa de gestão eficiente fora do centro tradicional de poder. Além disso, a biografia de Paz revela uma origem ligada a movimentos de esquerda e uma boa relação com Evo Morales nos anos em que este esteve no poder, antes de uma transição para o centro com sua aproximação à democracia-cristã, espaço político que na Hispano-América frequentemente transita entre a centro-esquerda e a centro-direita. Essa habilidade de se mover entre polos ideológicos e oferecer uma síntese mais moderada começa a dar frutos nas urnas.
Na Bolívia, a ascensão de Paz rompe com um ciclo de instabilidade iniciado em 2019, quando a queda de Evo Morales abriu espaço para Jeanine Áñez, uma senadora conservadora sem base política consistente, assumir o poder como presidente interina. O retorno do MAS com a eleição de Luis Arce não trouxe estabilidade, mas sim um governo marcado pelo revanchismo contra os conservadores e pela incapacidade de responder à grave crise econômica. A disputa entre Arce e Morales pelo controle interno do partido agravou ainda mais a fragmentação da esquerda, levando o MAS a um resultado pífio neste pleito. O desgaste lembra, em parte, o processo vivido pelo Brasil após o impeachment de Dilma Rousseff: um governo enfraquecido pela incapacidade de enfrentar a crise econômica, seguido de uma escalada de polarização política que mina a estabilidade institucional até hoje.
Tanto na Bolívia quanto no Brasil, a narrativa dominante foi de que não existiria espaço para uma terceira via. No entanto, o desempenho de Paz — que saiu de menos de 5% nas pesquisas pré-eleitorais para liderar a disputa com mais de 32% — desmente esse dogma. A surpresa foi ainda maior porque, nas pesquisas de boca de urna, aparecia com apenas 8%. Esse salto repentino mostra que, no silêncio das urnas, uma parcela significativa do eleitorado decidiu expressar seu esgotamento diante da polarização. No Brasil, as tentativas de construir uma alternativa semelhante fracassaram até aqui, mas a lição boliviana é clara: a terceira via se torna viável quando um dos polos implodindo internamente abre espaço para uma liderança com credenciais de gestão e discurso moderado, cenário que está se desenhando no Brasil.

Pesquisa Boca de Urna realizada por Ipsos-CIESMORI
A reação imediata ao resultado também revela como o fenômeno será instrumentalizado politicamente. No Brasil, setores da direita se apressaram em proclamar que a Bolívia “varreu a esquerda” ao colocar dois candidatos de direita no segundo turno. Já na própria Bolívia, a direita radical tenta colar em Rodrigo Paz a pecha de esquerdista enrustido, numa tentativa de reproduzir a lógica da polarização mesmo quando ela foi justamente rejeitada pelos eleitores.

Trajetória Política de Perez indica um migração da Esquerda para o Centro.
Chama a atenção a semelhança de postura entre dois personagens de peso da política do Brasil e da Bolívia, ainda que de campos opostos, Evo Morales e Jair Bolsonaro, ambos impedidos de concorrer: Morales chamou a eleição sem sua presença de golpe e incentivou o voto nulo, enquanto Bolsonaro e seus aliados repetem a narrativa de que uma eleição sem seu nome na urna é fraude. Se o movimento de Evo Morales fragilizou a estratégia da esquerda, o movimento de Bolsonaro tem seguido pelo mesmo caminho em relação a direita brasileira.
Mais do que um episódio isolado, a eleição boliviana pode ter repercussões regionais. A Bolívia foi um dos primeiros países a inaugurar a onda vermelha na América do Sul no início dos anos 2000, e agora pode ser a primeira a protagonizar uma onda política pós-polarização, com potencial de ressoar principalmente nos países hispano-americanos vizinhos, onde o desgaste com as alternativas binárias também se aprofunda. O fenômeno Paz sugere que há espaço para lideranças que falem ao eleitor desiludido, que não encontra mais identidade nem na esquerda clássica nem na direita radical, que tem problemas comuns e buscam soluções objetivas.
Nesse sentido, a experiência boliviana oferece ao Brasil um espelho interessante. Se no país vizinho a implosão do MAS abriu caminho para uma candidatura de centro, no Brasil a direita radical começa a se fragmentar após a prisão de Bolsonaro, em processo semelhante ao desgaste vivido pelo MAS. Soma-se a isso o fato de que a esquerda não conseguiu projetar novas lideranças e segue dependente de uma desgastada imagem de Lula. O futuro mostrará se dessa erosão poderá surgir uma liderança capaz de romper a lógica da guerra de trincheiras e oferecer uma alternativa que dialogue com o eleitor cansado da polarização permanente. O que a Bolívia sinaliza, em última instância, é que a história nunca é definitiva: mesmo em contextos marcados por extremos, pode emergir um caminho de centro, sustentado menos pela ideologia e mais pela promessa de estabilidade e gestão eficaz.
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!