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Victor Travancas revela: 'Mandado de prisão já foi expedido e não foi cumprido'

Gravado nos Studios @barraworld World
Enquanto Cláudio Castro se torna inelegível e Douglas Ruas tem a eleição anulada pela Justiça, o advogado de Garotinho crava: "a prisão é questão de tempo"
O Rio de Janeiro vive um dos momentos mais dramáticos de sua história política recente. No centro da tormenta, três personagens se entrelaçam em uma trama que envolve mandados de prisão já expedidos, uma Assembleia Legislativa sob suspeita de captura pelo crime organizado e um Palácio Guanabara que, segundo denúncias formais, nunca foi efetivamente ocupado por quem deveria governar.
A profecia de Garotinho e o mandado que não se cumpre
Em entrevista exclusiva ao podcast "No Ritmo com Você", o advogado constitucionalista Victor Travancas — mestre e doutor em Direito Constitucional, presidente da Comissão de Advocacia Pro Bono da OAB/RJ — revelou que um mandado de prisão já foi expedido contra o deputado Douglas Ruas (PL), atual presidente da ALERJ e nome na linha sucessória do estado. A informação, inicialmente lançada pelo ex-governador Anthony Garotinho, ganhou contornos de certeza nas declarações de seu advogado.
"Já faz aproximadamente uma semana que tem uma prisão para sair, que ainda não saiu, apesar de já ter o mandado", afirmou Travancas. "O mandado tem 15 dias para ser cumprido. Geralmente é cumprido às terças ou às quintas."
A declaração não é isolada. Garotinho construiu uma trajetória de antecipações judiciais que se confirmaram: anunciou a prisão de Thiago Joias, de Sérgio Cabral, de Canela. Agora, aponta para Douglas Ruas — e, pelas palavras de seu advogado, o cerco se fechou.

Cláudio Castro: da renúncia à "prisão domiciliar" de fato
O TSE manteve, em 2 de junho de 2026, a inelegibilidade do ex-governador Cláudio Castro por oito anos, confirmando condenação por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. Castro renunciou em 23 de março de 2026, num movimento?? que o Tribunal reconheceu como renúncia formal — e não cassação —, transferindo ao STF a palavra final sobre o processo sucessório.
Mas Travancas vai além. "O Castro já está preso. Ele praticamente nem sai de casa mais. Ele já fica dentro de casa, só está esperando a prisão chegar", disse. A afirmação ecoa a tese de que, na prática, o ex-governador já cumpre uma espécie de prisão domiciliar voluntária, à espera do desfecho das múltiplas investigações que pesam contra ele.
As investigações tiveram início com a Operação Catarata, que apurava corrupção na Fundação Leão XIII, e se desdobraram em uma teia que inclui a Ceperj, a Sedai e um rombo estimado em R$ 23 bilhões dos cofres públicos.
Douglas Ruas e a sucessão que a Justiça barrou
Em 26 de março de 2026, a presidente em exercício do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, desembargadora Suely Lopes Magalhães, anulou a votação da ALERJ que elegeu Douglas Ruas como presidente da Casa. A decisão travou a disputa sucessória e escancarou o vácuo de poder no estado.
"Pela lógica processual, nós vamos ter o julgamento no dia 18. A lei determina que ele seja o governador. Só que, se ele não for apto a ser governador — e só tem uma maneira: preso —, o governador continua sendo o presidente do TJ", explicou Travancas.
O deputado, que foi secretário de Obras do governo Cláudio Castro e responsável pela pavimentação de toda São Gonçalo, tenta se desvencilhar da imagem de herdeiro político do ex-governador. Em entrevistas, negou ser "candidato do Cláudio". Mas Travancas não poupa críticas: "Você não existia, ninguém sabia seu nome, ninguém sabia quem você era se não fosse o Cláudio. Você é o candidato do homem que chefiou o narcotráfico e a narcomilícia no Rio de Janeiro."
A ALERJ capturada e o estado que não se governa
Um dos pontos mais graves da entrevista foi a caracterização da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Travancas não titubeou: "A ALERJ está num estado que eu chamo de estado capturado. Capturada pelo tráfico de drogas e pela narcomilícia."
A afirmação encontra respaldo em investigações em curso e na própria decisão do TSE que apontou envolvimento de parlamentares com esquemas de corrupção sistêmica. Segundo Travancas, "se houvesse algum lugar que merecesse intervenção para combate ao narcoterrorismo, era a ALERJ".
O diagnóstico é sombrio: deputados que não fiscalizam, não denunciam, não desafiam ordens do STF. Um parlamento que, nas palavras do constitucionalista, "tem mais deputado do que astronauta" — referindo-se à sessão da NASA em que Garotinho participou e que gerou piadas sobre a quantidade de políticos presentes.
O arquivo que virou pó: a destruição da memória do Rio
Travancas foi diretor-geral do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, nomeado e depois exonerado por Cláudio Castro. De dentro, testemunhou o que classifica como um crime contra a história.
"O acervo público do Rio de Janeiro acabou. Todo o arquivo da ditadura militar, todo o arquivo do Estado Novo se perdeu. A umidade lá dentro está batendo 80, 90%. Aquele arquivo não é mais recuperável."
A denúncia, feita há mais de um ano quando ainda estava no governo, foi ignorada. Travancas afirma que alertou o então governador: "Esse prédio vai cair." O prédio caiu — e com ele, parte da memória documental do estado.
O compliance que virou delação: a trajetória de Victor Travancas
Nomeado subsecretário de compliance do gabinete do governador, Travancas tinha a função institucional de investigar o próprio governo. E investigou. Denunciou os 48 funcionários fantasmas do Arquivo Público, os contratos superfaturados, as festas de R$ 1 a R$ 2 milhões no Palácio Laranjeiras, o esquema da Ceperj.
"Minha função dentro do gabinete do governador era investigar o governo. Eu não falava as coisas por trás do Cláudio", afirmou.
Quando pediu exoneração por não concordar com a corrupção sistêmica, o governador se recusou. Travancas entrou com mandado de segurança no Órgão Especial do TJ-RJ. A desembargadora negou, dizendo que "só poderia ser exonerado pelo governador". O governador não o exonerou — até que, depois de nova denúncia sobre funcionários fantasmas, finalmente o fez. Mas, quatro semanas depois, o reconduziu ao cargo com aumento salarial.
A história revela um padrão: a nomeação de um investigador interno que, quando cumpre seu papel, é neutralizado — primeiro pela permanência forçada, depois pela remoção, depois pelo aceno financeiro.
O Palácio Guanabara sem governador
Um fato quase simbólico ilustra o esvaziamento do poder executivo fluminense: Cláudio Castro nunca ocupou o gabinete principal do Palácio Guanabara.
"O gabinete do Cláudio Castro nunca foi ocupado pelo governador do estado do Rio de Janeiro. O gabinete onde Getúlio se sentou, o Cláudio nunca sentou ali. Ele ficava na vice-governadoria, do início ao fim", revelou Travancas, que tomava conta do salão verde e da sala do governador.
A imagem é poderosa: a cadeira vazia, o estado terceirizado, a segurança pública delegada, a assistência social repassada, os contratos entregues a aliados. "O Cláudio não governou o estado. Ele terceirizou."
O julgamento que se aproxima
Em 18 de julho de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral deve proferir decisão definitiva sobre o caso. Para Travancas, o desfecho é uma questão de lógica jurídica: "Douglas Ruas está para ser preso a qualquer momento. Não há condições de ele ficar solto."
A cadeira de governador do Rio de Janeiro, que já levou Sérgio Cabral à prisão por 450 anos e tornou Cláudio Castro inelegível, pode ganhar mais um ocupante com destino judicial selado.
O que resta saber é se, entre a sentença e o cumprimento, o Rio terá quem governe — ou se o estado continuará refém de um sistema que, como denuncia Travancas, transformou o Palácio Guanabara no "gabinete do crime organizado".
Sobre o entrevistado: Victor Rosa Travancas
Victor Rosa Travancas é advogado, mestre e doutor em Direito Constitucional pela Universidade Estácio de Sá. Presidente da Comissão de Advocacia Pro Bono da OAB/RJ e membro titular da Comissão Especial de Direito Médico e Saúde do Conselho Federal da OAB. Foi presidente da Federação Nacional dos Estudantes de Direito e subsecretário de compliance do Gabinete do Governador do Estado do Rio de Janeiro, cargo de onde denunciou esquemas de corrupção que resultaram em múltiplas investigações. Ex-diretor-geral do Arquivo Público do Estado, é autor de artigos sobre ordem sucessória constitucional e jurisdição cautelar do STF. Atualmente, é advogado do ex-governador Anthony Garotinho e assessor especial da Secretaria da Casa Civil. Sua atuação jurídica tem sido marcada pelo enfrentamento direto às estruturas de corrupção no estado, com ênfase no combate a funcionários fantasmas, desvio de verbas públicas e captura institucional pelo crime organizado.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
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Fontes:
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