Cantora Ana Paula transforma trauma familiar em instrumento de mobilização 'Chega da carne mais barata ser a carne preta': o grito de resistência que ecoou em Brasília

Cantora que perdeu familiares para violência policial transforma dor em luta antirracista

Cantora Ana Paula transforma trauma familiar em instrumento de mobilização durante seminário em Brasília

A cantora Ana Paula, que perdeu familiares vítimas da violência policial, utilizou sua participação no 4º Seminário de Antirracismo da Defensoria Pública do Distrito Federal para transformar dor em resistência. Durante o evento realizado em Brasília, ela destacou que a luta antirracista representa uma questão de vida ou morte para a população negra brasileira.

"Nós só queremos existir com alegria como somos. É um traço do povo preto. A gente fez o samba, a gente fez um monte de coisa para trazer sorriso e alegria. E são muitas mães que choram a dor que eu sinto nesse momento", declarou Ana Paula, emocionada, ao relembrar o legado de líderes como Zumbi dos Palmares, Luís Gama, Benedita da Silva e Carlos Alberto Oliveira (Caó).

A artista enfatizou que a discussão sobre racismo estrutural não pode ficar restrita ao mês da Consciência Negra. "Precisamos falar todos os dias, todas as noites, incansavelmente, sem parar, para que essa sociedade pare de nos matar", afirmou, usando sua voz como instrumento de mobilização social.

Durante sua fala, Ana Paula expôs as contradições do sistema de justiça brasileiro, apontando a disparidade racial entre o judiciário e o sistema prisional. "Você vai olhar as fotos, vai olhar os juízes, são na sua maioria branco. Aí você vai numa penitenciária, o índice vira de cabeça para baixo, é preta", observou, destacando a necessidade urgente de políticas afirmativas.

A cantora também abordou a questão do tráfico de drogas sob uma perspectiva crítica, questionando quem realmente paga o preço mais alto na guerra às drogas. "Nós vivemos num país de intenso tráfico, onde a droga viaja em avião presidencial e quem morre é o moleque que tá lá no chão na favela", denunciou, fazendo referência à criminalização seletiva que atinge principalmente jovens negros das periferias.

Defensoria inova com comitê pioneiro contra racismo

O seminário destacou a criação do Comitê de Combate ao Racismo dentro da Defensoria Pública de Brasília, projeto piloto no governo do Distrito Federal. A iniciativa representa um marco institucional no enfrentamento ao racismo estrutural dentro do sistema de justiça.

Ana Paula celebrou a inovação da DPDF, reconhecendo a importância de ter um órgão do sistema de justiça assumindo protagonismo na luta antirracista. "O judiciário é um braço fortíssimo e a Defensoria Pública de Brasília vem inovando", destacou a cantora.

Dados revelam urgência da pauta antirracista

Os números apresentados durante o evento evidenciam a gravidade da situação: mais de 6 milhões de pessoas negras estão encarceradas no Brasil, em um país onde mais da metade da população se declara preta ou parda. Essa desproporcionalidade demonstra como o racismo estrutural opera no sistema de justiça criminal.

A cantora fez um apelo emocional ao questionar os estereótipos que cercam a juventude negra: "Ninguém alisa a barriga e sonha em parir um delinquente", disse, confrontando narrativas que desumanizam jovens negros e justificam a violência estatal.

Educação antirracista como ferramenta de transformação

O seminário enfatizou a educação antirracista como elemento fundamental para a mudança social. Ana Paula reforçou que essa discussão deve ser permanente, não episódica, para que a sociedade compreenda a necessidade de políticas que garantam igualdade racial efetiva.

A artista destacou o papel dos ancestrais na luta atual: "São nomes que abriram mata e que se nós estamos hoje aqui e temos a oportunidade de colocar a nossa voz, graças aos irmãos e ancestrais que vieram antes de nós", afirmou, conectando a resistência histórica com os desafios contemporâneos.

Mães negras no centro da resistência

Um dos momentos mais impactantes da participação de Ana Paula foi quando ela falou "do lugar da mãe da mulher preta", denunciando como o racismo afeta especialmente as famílias negras. Sua frase "chega da carne mais barata do mercado ser a carne preta" ecoou como um grito de resistência contra a naturalização da violência racial.

A cantora transformou sua experiência pessoal de perda em combustível para a mobilização coletiva, demonstrando como o luto pode se tornar luta quando canalizado para a transformação social.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ

Por Robson Talber

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Por Ultima Hora em 20/11/2025
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