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Uma família inteira a serviço da fé — e um ato de consciência que custou o ministério
Otoni de Paula, cujo pai dedicou a vida à Igreja e ao serviço público, tem autoridade pastoral cassada por ministério evangélico após garantir quórum em votação na Câmara — episódio que levanta questões sobre fé, liberdade e perseguição política
Uma dinastia de fé e serviço público - Filho de pastor, neto da fé, punido por ser livre: o caso que expõe o controle das bancadas
Por quase um século, a família Paula construiu uma das trajetórias mais sólidas e respeitadas na interseção entre o evangelismo e a vida pública brasileira. Otoni Moura de Paulo — o pai, conhecido como Otoni de Paula Pai — nasceu em 3 de janeiro de 1953, em Magé, no Rio de Janeiro, e dedicou toda a sua vida a duas vocações inseparáveis: a fé cristã e o serviço ao próximo por meio da política. Pastor evangélico, radialista e parlamentar, Otoni Pai foi vereador de Nova Iguaçu entre 1989 e 1992 e, décadas depois, ainda com saúde fragilizada, foi eleito deputado estadual pelo Rio de Janeiro, tomando posse em fevereiro de 2023. Ele faleceu em 27 de maio de 2024, aos 71 anos, vítima de um câncer no fígado, com a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro — a Alerj — decretando luto oficial de três dias em sua homenagem.
O filho que leva seu nome e sua herança, Otoni de Paula Júnior, deputado federal eleito pelo Rio de Janeiro com 158.507 votos, sempre carregou essa história como estandarte. Em seu perfil oficial na Câmara dos Deputados, ele se apresenta como quem "luta em defesa da vida, da família, dos princípios e valores cristãos". Pastor evangélico de formação, ex-vereador do Rio de Janeiro, deputado federal desde 2019 — reeleito em 2023 —, Otoni Júnior é um dos parlamentares mais conhecidos da bancada evangélica. É essa história, construída ao longo de décadas por pai e filho, que torna o episódio da última semana ainda mais chocante.
O voto que desencadeou a perseguição
Na segunda semana de março de 2026, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados realizou a eleição para sua presidência. A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) foi eleita por 11 votos a favor e dez em branco — resultado que seguiu rigorosamente o regimento interno da Casa, onde votos em branco não invalidam candidaturas. A estratégia combinada entre membros da bancada evangélica era esvaziar o plenário para impedir o quórum mínimo necessário para a votação acontecer. Otoni de Paula, porém, estava presente. Sua assessoria, segundo ele próprio, não o informou a tempo sobre a mudança na estratégia do grupo.
O deputado saiu a público com firmeza para se defender. "Em momento nenhum eu votei a favor de Erika Hilton", declarou em vídeo nas redes sociais, chamando de "fake news" as acusações que o transformaram em protagonista de uma suposta traição à bancada. "Essa turma me odeia. E o que puderem inventar, vão inventar." O deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do partido, foi o principal responsável pela acusação pública. A deputada Chris Tonietto (PL-RJ) confirmou que a presença de Otoni foi "determinante para que o quórum fosse atingido" — independentemente de suas intenções declaradas. O julgamento sumário estava feito.

A circular que equivale a uma sentença
Em 15 de março de 2026, o Ministério de Avivamento Apostólico do Caminho (MAAC) publicou uma circular ministerial assinada pelo bispo Léo Assis com um teor que surpreendeu o Brasil: a cassação formal da autoridade pastoral de Otoni de Paula. O documento determina que o deputado está impedido de assumir púlpitos, ministrar a palavra de Deus, exercer qualquer função pastoral ou ser reconhecido como autoridade espiritual dentro da denominação. A medida foi tomada publicamente, com caráter institucional e exemplar, em resposta direta ao episódio da votação. Especialistas em direito canônico e em ciência política foram unânimes ao compará-la, em termos funcionais, a uma "carta de excomunhão".
Para um homem cujo pai morreu como pastor e parlamentar, cujos raízes no evangelismo remontam a décadas de história familiar, a medida não é apenas uma sanção administrativa. É uma tentativa de apagamento de identidade. Otoni de Paula Pai foi homenageado com luto oficial pela Alerj justamente porque era reconhecido como alguém que honrou a fé e o serviço público até o último dia de sua vida. Punir o filho por um voto em uma comissão parlamentar — especialmente quando o próprio deputado nega ter agido de forma intencional — representa uma violência simbólica de proporções que transcendem o episódio imediato.
Perseguição política com roupagem religiosa
O que o caso Otoni de Paula revela vai além de uma disputa interna de denominação religiosa. Há um padrão claro de perseguição política orquestrada sob o manto institucional da fé. O deputado já demonstrou, ao longo de seus mandatos, independência de pensamento que desconforta setores mais radicais da direita religiosa. Em janeiro de 2026, ele havia feito duras críticas públicas ao que classificou como "fanatismo político" no meio evangélico, afirmando que parte do segmento estava "mais bolsonarista que cristão" — uma declaração que lhe custou inimigos poderosos. Em outubro de 2024, sua participação em evento de sanção do Dia Nacional da Música Gospel ao lado do presidente Lula foi suficiente para que parte da bancada o tratasse como traidor.
Um parlamentar que pensa com autonomia, que não se curva ao fanatismo, que distingue fé cristã de fidelidade político-partidária — esse parlamentar se tornou um alvo. A cassação do ministério pastoral surge, nesse contexto, como o ato final de uma perseguição que já vinha sendo construída há meses. Não é coincidência que a punição tenha sido tornada pública de forma tão ostensiva: ela serve de aviso a todos os demais parlamentares com vínculos religiosos institucionais. Obedeça ou pague o preço.
O legado do pai e a injustiça do presente
Otoni de Paula Pai não viveu para ver o filho ser tratado dessa maneira. Ele faleceu em maio de 2024, cercado da família, com a certeza — nas palavras do próprio filho — de que "Deus está no controle de todas as coisas". Em seu velório no Palácio Tiradentes, sede da Alerj, parlamentares de diferentes espectros políticos prestaram homenagens a um homem que sempre soube separar convicção religiosa de arrogância institucional. Era pastor e era político, e nunca usou um para subjugar o outro.
O filho herdou essa mesma postura — e é exatamente por isso que se tornou incômodo. Em uma bancada onde a obediência à liderança muitas vezes supera o compromisso constitucional com os eleitores, Otoni Júnior insiste em votar conforme sua consciência. A Constituição Federal, no artigo 53, garante ao parlamentar inviolabilidade por suas opiniões, palavras e votos. O artigo 5º assegura a liberdade de consciência e crença. Mas nenhum dispositivo constitucional protege um deputado da humilhação pública promovida pela própria instituição religiosa à qual dedicou décadas de sua vida — e à qual seu pai dedicou a vida inteira.
O silêncio que precisa ser quebrado
O Brasil precisa ter essa conversa de forma aberta e honesta. Quando uma organização religiosa pune publicamente um parlamentar eleito por mais de 158 mil brasileiros por causa de um voto no exercício de seu mandato constitucional, não se trata mais de autonomia religiosa. Trata-se de interferência direta no funcionamento do Poder Legislativo. A separação entre Igreja e Estado, prevista no artigo 19 da Constituição, protege as instituições — mas deixou desprotegidos os indivíduos que as movimentam.
Otoni de Paula não precisa de solidariedade por ser vítima de uma derrota política. Ele merece respeito pela coragem de não abrir mão de sua consciência, mesmo sabendo o preço que pagaria. Seu pai, o vereador, radialista, deputado estadual e pastor Otoni de Paula Pai, que dedicou sua vida inteira à fé e ao serviço público, merece que o nome da família não seja usado como instrumento de coerção política. E o Brasil democrático merece parlamentares que votem sem cabresto — religioso, partidário ou de qualquer natureza.
Fontes: Portal da Câmara dos Deputados (camara.leg.br) Wikipedia — Otoni de Paula e Otoni de Paula Pai G1 Globo — "Morre no Rio o deputado estadual Otoni de Paula Pai" (27/05/2024) CNN Brasil — "Morre deputado estadual do Rio Otoni de Paula Pai aos 71 anos" (27/05/2024) Diário 360 — "Otoni de Paula tem autoridade pastoral cassada por ministério evangélico" (15/03/2026) Folha do Estado — "Igreja destitui Otoni de Paula da função pastoral após apoio à Erika Hilton" (16/03/2026) Tempo Real RJ — "Acusado por líder do PL, Otoni de Paula desmente voto em Erika Hilton" (15/03/2026) Congresso em Foco — "Deputado pastor critica fanatismo: mais bolsonarista que cristão" (23/01/2026) Alerj — Decreto de luto oficial (28/05/2024) Constituição Federal de 1988, arts. 5º, 19 e 53
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