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Foto: Montagem D24am / Reprodução Twitter
Quando a palavra muda de sentido conforme o sobrenome, o cargo e o tamanho da torcida
No debate da semana, a estrela não foi a lei, nem a Constituição. Foi ela: a tal da coerência. Palavra elástica, dessas que esticam conforme a conveniência do momento e voltam ao formato original quando a câmera desliga.
Ministros defendem prisão domiciliar “por coerência”. A pergunta que ecoa fora do ar-condicionado oficial é simples: coerência com o quê? Com o histórico? Com o risco? Com o volume de seguidores? Com a agenda da semana?
Se o cenário tivesse sido outro — mais fumaça, mais caos, mais vítimas — a régua seria a mesma? Ou a coerência entraria em recesso, aguardando melhores condições climáticas? Porque, no Brasil real, a matemática costuma ser dura: quanto maior o estrago, mais pesada a conta. Em Brasília, às vezes, a conta vira abstração.
Enquanto isso, o personagem central segue falando, reunindo família, acenando para milhões e lembrando que microfone aberto nunca é detalhe. A cada frase, o país aprende uma nova acepção do verbo “responder”: responder sem sair de casa, responder com conforto, responder com wi-fi estável.
A Justiça pode ser cega — dizem. Mas a rua pede que não seja distraída. Porque quando autoridades tratam facilidades como virtude, a velha história volta a circular nos grupos: o crime compensa. Não por sentença, mas por sinalização.
E o Brasil, cansado de facções — do crime e da política — observa o espetáculo com humor ácido. Ri para não chorar. Afinal, por aqui, coerência anda usando tornozeleira sem bateria: aparece quando quer, some quando convém.
Por: Arinos Monge.
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