De volta pra casa: Comte Bittencourt retorna ao PSB após 25 anos para presidir legenda no Rio — e reconfigura o tabuleiro político fluminense

Ex-deputado deixa presidência nacional do Cidadania em meio a crise judicial e assume comando do PSB-RJ em movimento articulado por João Campos; Alessandro Molon cede lugar e vira vice

De volta pra casa: Comte Bittencourt retorna ao PSB após 25 anos para presidir legenda no Rio — e reconfigura o tabuleiro político fluminense

Há 25 anos, Comte Bittencourt deixava o PSB, partido pelo qual havia iniciado sua trajetória política em Niterói em 1992. Nesta quarta-feira (24), ele volta. Não como um filiado qualquer, mas como o novo presidente do PSB no Rio de Janeiro — e o movimento já é tratado nos bastidores como uma das mais significativas rearticulações do campo progressista fluminense às vésperas das eleições de outubro.

A cerimônia de posse marca também a transição de Alessandro Molon, que deixa o comando da legenda no estado e passa a ocupar a vice-presidência. Amigo de longa data de Comte — os dois atuaram juntos na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) —, Molon não vê a mudança como um rebaixamento, mas como uma reorganização estratégica. Nem ele nem Comte disputarão cargos nas eleições deste ano.

A articulação de João Campos

O fio condutor de toda a operação é o presidente nacional do PSB e prefeito do Recife, João Campos. Segundo apurou O Globo (27/05/2026), a negociação vinha sendo costurada há meses — desde 2025, Campos e Comte conduziam conversas para aproximar PSB e Cidadania, inicialmente por meio de uma federação partidária.

Quando o acordo de federação naufragou — o O Tempo noticiou em abril de 2026 que "PSB deve disputar eleição sem federação após crise no Cidadania" —, o plano B de Campos foi trazer Comte e seus quadros para dentro do PSB. A operação é parte de uma estratégia nacional do prefeito-recifense, que disputa o governo de Pernambuco este ano e lidera as pesquisas: segundo levantamento da RealTime BigData divulgado em 11 de junho, Campos tem 45% das intenções de voto contra 40% da governadora Raquel Lyra (PSD).

A aposta de Campos é dupla: fortalecer o PSB em estados estratégicos enquanto se prepara para a disputa majoritária em seu estado, e ampliar a musculatura do partido para as negociações nacionais com o PT, com quem o PSB vive tensões em diversas regiões.

A crise no Cidadania como pano de fundo

A migração de Comte não acontece no vácuo. Ela é a consequência direta de uma crise judicial que paralisou o Cidadania nos últimos dois anos e meio.

Comte assumiu a presidência nacional do partido em setembro de 2023, após a saída de Roberto Freire — figura histórica que comandava a legenda desde 1991. Mas a sucessão foi contestada na Justiça. Em janeiro de 2026, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDFT) determinou o afastamento de Comte e reconduziu Freire ao cargo, acolhendo ação que apontava irregularidades no processo de destituição.

Comte recorreu ao Supremo Tribunal Federal. Argumentou que a decisão violava a autonomia partidária prevista na Constituição e pedia liminar para suspender os efeitos. O relator, ministro Gilmar Mendes, rejeitou o pedido em dezembro de 2025 e manteve Freire na presidência.

A Coluna do Gilson registrou, em janeiro de 2026, que a "maioria repudia" o afastamento de Comte — sinal de que sua base no partido era real, mas a derrota judicial foi definitiva. Sem controle sobre a legenda e sem perspectiva de reverter a decisão, a saída tornou-se questão de tempo.

O projeto eleitoral para o Rio

Comte e Molon não disputarão cargos majoritários. O foco é outro: montar chapas competitivas para a Alerj e para a Câmara dos Deputados, aproveitando duas fontes de quadros:

  1. Egressos do Cidadania — parlamentares e lideranças que acompanharam Comte na migração
  2. Base política do ex-deputado — construída ao longo de quatro mandatos na Alerj (2003-2015), com forte capilaridade em Niterói, na Região Serrana (Petrópolis, Nova Friburgo) e em municípios do interior fluminense

Comte conhece o mapa político do estado como poucos. Professor de formação, presidiu a Comissão de Educação da Alerj e, entre 2020 e 2021, foi secretário estadual de Educação no governo Wilson Witzel. Sua atuação sempre esteve ligada a pautas de transparência e educação pública — marcas que pretende imprimir na condução do partido.

"O retorno de Comte ao PSB é um movimento de reorganização. Ele não vem para ser candidato agora. Vem para construir — chapas, alianças, bases. As candidaturas majoritárias são projeto para 2028 ou 2030", avalia fonte da cúpula do PSB fluminense ouvida pela reportagem.

A transição silenciosa de Molon

Alessandro Molon — ex-líder da oposição na Câmara dos Deputados e relator da CPI da Covid — não sai enfraquecido. A leitura nos bastidores é que a troca de lugares com Comte é funcional: Molon, com projeção nacional, precisa de liberdade para articular sem o desgaste administrativo da presidência estadual; Comte, com perfil de articulador local, é o nome certo para operar o partido no dia a dia e coordenar as campanhas legislativas.

A transição foi tratada como natural entre amigos que construíram juntos suas trajetórias na Alerj.

???? O cenário nacional — PSB entre Lula e a própria expansão

A movimentação no Rio não pode ser lida isoladamente. O ano eleitoral de 2026 encontrou o PSB em uma posição delicada em relação ao PT, seu principal aliado no campo progressista.

Conforme revelou o PlatôBR em fevereiro de 2026, o "mau-humor pernambucano" de João Campos tem contaminado as discussões nos estados — o PSB reclama de "atropelo" do PT em algumas regiões, enquanto o partido de Lula pressiona por alianças que nem sempre favorecem os socialistas localmente.

Nesse cenário, fortalecer diretórios estaduais com quadros experientes como Comte Bittencourt dá ao PSB mais poder de barganha nas negociações nacionais. Cada estado onde o partido chega forte é um trunfo na mesa de João Campos.

O futuro do Cidadania

Sem Comte, o Cidadania perde seu principal quadro no Rio de Janeiro e um de seus nomes mais expressivos nacionalmente. A legenda — que já vinha fragilizada pela perda da federação com o PSDB, pela disputa judicial na presidência e pelo esvaziamento de suas lideranças — enfrenta agora uma questão de sobrevivência como força autônoma nos próximos ciclos eleitorais.

Nos bastidores, a federação PSB-Cidadania, que não vingou antes das eleições de 2026, pode ser retomada depois de outubro — mas, desta vez, com o PSB em posição de franca superioridade na negociação.

Resumindo

  • Comte Bittencourt retorna ao PSB após 25 anos para presidir o partido no Rio
  • A migração foi acelerada pela crise judicial no Cidadania, onde perdeu a presidência para Roberto Freire em decisão mantida por Gilmar Mendes no STF
  • João Campos articulou a operação por meses como parte de estratégia nacional de fortalecimento do PSB
  • Molon cede a presidência e vira vice em movimento de reorganização, não de ruptura
  • Foco imediato: eleger bancada legislativa (Alerj e Câmara); majoritárias ficam para 2028/2030
  • O movimento se insere na tensão nacional PSB-PT e na expansão planejada por João Campos

Por Ultima Hora em 24/06/2026
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