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O Paradoxo do Rio: Beleza e Medo

"Deixa o Pau Torar": O Debate Sobre Segurança Pública no Rio de Janeiro
Em mais um episódio contundente do programa "Deixa o Pau Torar", o jornalista e advogado Ralph Lichotti recebeu o empresário Leonardo da Vinci, conhecido como "Léo do Ferro Velho", para um debate franco sobre a crítica situação da segurança pública no Rio de Janeiro. O programa, que tem como marca registrada não fugir de temas polêmicos, trouxe à tona as múltiplas facetas de um problema que afeta profundamente a vida dos cariocas e a imagem da cidade.
A Cidade Maravilhosa Refém do Medo
O debate iniciou com Ralph Lichotti contextualizando a situação atual: "Ontem tivemos o abate de um dos maiores traficantes do Rio de Janeiro, dono de uma facção do crime organizado dos TCP. E a gente tem outras facções que também dominam o Rio. Aliás, o Rio tem, acho que tem todas as facções, né?"
Leonardo da Vinci, carioca da gema que construiu sua vida na Zona Oeste, entre Campo Grande e Bangu, concordou com a avaliação e expressou sua preocupação com o impacto da violência no turismo: "Primeiramente, agradecer ao jornal Última Hora onde impõe muita sabedoria e determina as palavras corretas. O que nós precisamos é abrir de novo a porta do Rio de Janeiro para o turismo, onde o Brasil é representado pelo Rio de Janeiro. O turismo se enfraqueceu de uma tal maneira que nós temos que reviver o nosso querido Rio."
Esta observação tocou em um ponto crucial: a contradição entre a beleza natural da cidade e a percepção de insegurança que afasta visitantes. Como enfatizou Ralph: "As pessoas vêm porque a cidade é muito linda, mas todo mundo tem medo de vir pro Rio de Janeiro."
A Gestão Atual da Segurança Pública
Leonardo reconheceu os esforços da atual gestão da segurança pública, mencionando figuras que conhece pessoalmente: "Hoje o secretário da segurança pública, o Vitor, eu conheço ele há bastante tempo, delegado da Polícia Federal, que ele é de Campo Grande, a família toda de Campo Grande, é um cara sério no seu trabalho."
No entanto, ele destacou as dificuldades herdadas: "Só pegou o sistema muito alavancado e muito violento, sem controle. É muito difícil fazer hoje uma segurança pública no Rio de Janeiro com melhor controle porque deixaram muito aberto a criminalidade para operar."
O empresário também mencionou o Coronel Menezes, atual secretário da Polícia Militar: "Um cara que eu conheço desde que veio tenente, serviu em Campo Grande, fez um trabalho muito bom. É uma parceria ele e Vitor muito importante para a segurança pública do Rio."
A Necessidade de Integração entre Poderes
Um ponto enfatizado por Leonardo foi a necessidade de cooperação entre diferentes esferas de governo: "Não é fácil hoje para conduzir a segurança pública se não tiver junto o governo federal apoiando. A parte jurídica tem que apoiar muito forte. Nós temos que formalizar com o governador, com o próprio prefeito do Rio de Janeiro, fazer uma junção."
A Evolução do Crime Organizado
Ralph Lichotti levantou uma questão fundamental sobre a transformação do crime organizado: "Antigamente essas facções, essas milícias, eles se sustentavam através do comércio de droga. Hoje eu acho que já não tem mais isso não. Hoje eles têm gatonet, têm internet a cabo, têm gás, têm segurança - eles cobram pela segurança."
O apresentador questionou se a legalização das drogas resolveria o problema: "A atividade de droga hoje, eu acho que se acabar com a droga, liberar as drogas, terminar as drogas, eles vão continuar do mesmo jeito, hein? Que que você acha?"
Leonardo respondeu com uma visão pragmática: "Eu primeiramente acho que nada se termina, se controla. Porque a primeira coisa que você tem que fazer numa cidade como o Rio de Janeiro, em outros estados, é um controle mais rígido e mais respeitado. O que falta no nosso Rio de Janeiro é respeito, porque nunca vamos terminar com nada, mas vamos ter que botar uma ordem melhor."
A Vulnerabilidade Generalizada
Um ponto crucial do debate foi a constatação de que a violência atinge todas as classes sociais: "A gente vê que não tem esse negócio de classe A, classe B, classe C, classe D. Tá todo mundo vulnerável" afirmou Ralph.
O jornalista exemplificou: "O cara trabalha como um cavalo, rouba todo mundo, faz o trabalhador de escravo, fica rico. Chega no sinal, nego mete uma escopeta, mete uma metralhadora na cara dele, e ele pia igual se fosse um qualquer um."
Para reforçar seu ponto, Ralph citou o caso recente do policial do CORE, marido de uma juíza, que foi fuzilado: "Você vê aí o policial treinado do CORE, marido da juíza, que foi fuzilado aqui em Vargem Grande. A juíza também não foi fuzilada, pois o carro dela era blindado."
As Falhas no Sistema, do correio ao metrô: Como as falhas de segurança transformaram o Rio em território do medo
O debate expôs diversas falhas no sistema que permitem a entrada de armas e drogas na cidade. Ralph questionou: "A conta não fecha. Da onde tá vindo tanta arma? Tem alguém investindo nisso, tem alguém ganhando muito dinheiro com isso."
Leonardo apontou várias brechas no sistema:
Correios sem fiscalização adequada: Ralph denunciou: "A arma tá vindo pelo correio. Você viu esse traficante, pegava arma, vinha pelo correio, botava mola num pacote, a outra parte no outro pacote. A arma vem pelo correio, cara!"
Transporte público sem controle: "Você pode pegar um pacote de droga aqui na Barra e for de metrô e for de trem, você leva ela até Japeri, você leva ela em qualquer lugar que não tem fiscalização nenhuma, não tem um scanner, não tem nada," explicou Ralph.
Portos com segurança privada mal remunerada: "O cara é privado. Você acha que se o cara dar um dinheirinho ele não vai deixar? Porque eu sou privado, eu não sou público, eu não perco meu cargo, eu perco meu emprego. Tu me dá um dinheiro bom, cara, o cara passando necessidade, ganhando um salário mínimo, você acha que ele não vai facilitar?"
Falta de integração entre as forças: "Às vezes acontece um assalto do lado dela [polícia] e ela não faz nada porque ela acha que não tá na sua jurisdição, ou por algum motivo não quer, pelo salário que ganha, não quer se expor."
Ralph Lichotti aponta para um problema estrutural: a fragmentação das forças de segurança e a falta de integração entre elas. São mencionadas diversas instituições que atuam de forma desarticulada:
A Luta pela Regulamentação da Guarda Portuária
Um tema específico abordado foi a situação precária da Guarda Portuária, que opera sob regime CLT e busca reconhecimento como força policial: "A guarda do Porto estava até indo direto para Brasília para poder garantir o seu poder de guarda. Eles queriam passar a ser polícia," explicou Ralph.
Leonardo mencionou seu amigo Marlon, que tem lutado por essa causa: "Um amigo meu que trabalha na guarda, chama Marlon, foi para Brasília várias vezes. Até eu ajudei ele financeiramente, fiz um empréstimo para ele. E ele brigando até com o presidente da Câmara para poder legalizar a guarda."
Ralph destacou a vulnerabilidade desses profissionais: "Guarda Portuária é CLT. Aí o cara quer ser CLT, meu irmão, ganhando salário mínimo? O cara chega para ele: 'Meu irmão, faz de bobo aí, vai no banheiro que eu vou passar aqui, toma aí trintinha aí.'"
Além dos Pequenos Criminosos
Um ponto crucial levantado no debate foi que o foco exclusivo nos pequenos criminosos não resolve o problema estrutural. Ralph questionou: "Quem realmente está ganhando dinheiro com isso e aí acha que é matando lá o TH que vai resolver? A droga não chega pelo TH não."
O jornalista continuou: "Crimes fios, que quem tá ganhando dinheiro mesmo não tá roubando o celular na rua não. Quem tá ganhando dinheiro mesmo tá viajando, bebendo whisky em Cuba, para vários lugares aí, para a Europa."
Esta observação sugere que o combate efetivo à criminalidade precisa ir além da repressão aos crimes de rua, alcançando também os financiadores e beneficiários maiores do crime organizado.
O Potencial Turístico do Rio
Leonardo apresentou propostas para revitalizar o Rio através do turismo: "Nós temos aí uma capacidade muito grande para criar uma área de turismo como é lá na Barra de Guaratiba, que são 60 km de extensão de praia, onde nós poderíamos trazer o turismo com valores altíssimos."
Ele sugeriu: "Não seria nenhuma estrada de Barra de Guaratiba para ir, seria direto do Peruá e desembarcasse lá, de lancha ou de arte. Fazia como nós temos hoje Barra da Tijuca, um espaço muito grande, Recreio. Lá seria maior do que Barra da Tijuca e Recreio, onde colocaríamos vários hotéis, shops, colocava um cassino."
A legalização dos cassinos foi defendida como forma de atrair turistas: "O cassino daria, não sei porque a pessoa não coloca. Mulher de um milico aí falou que não queria mais, tava atrapalhando a dormir, acabaram com cassino no Brasil todo. Aí fica o brasileiro pegando dinheiro, levando lá pro Uruguai, levando pros Estados Unidos, e a gente aqui não tem."
A Perda de Protagonismo do Rio
Um ponto sensível abordado por Ralph foi a perda de relevância da cidade: "O Rio deixou de ser protagonista do Brasil há anos. O Eduardo Paes fica com negócio aí de capital de honra, capital. Capital é Brasília, vai para Brasília, tá tudo acontecendo lá. Acabou o protagonismo do Rio, por causa dessa máfia que tomou conta do Rio."
O jornalista descreveu a imagem atual da cidade: "O Rio hoje é temido, as pessoas têm medo de vir pro Rio de Janeiro. A gente conversa com as pessoas dos outros estados, ele fala: 'Pô, eu adoro o Rio para viajar, porque eu não tenho coragem de morar lá não, que a violência estampou a cara do Rio de Janeiro no mundo inteiro.'"
Abordagem Gradual para a Solução
Leonardo defendeu uma abordagem realista e gradual para enfrentar os problemas de segurança: "O caminho que nós precisamos é direcionar a verdade e sair com campo mais adaptado à nossa origem de carioca."
Ele reconheceu a complexidade do desafio: "Depois que alargou o problema, se tivesse feito um trabalho anterior, não deixar a abertura que tem agora, do jeito que tá agora, a bagunça que tá agora. Para você reduzir isso, tu tem que fazer um trabalho muito forte dentro da segurança pública e do sistema todo."
Ralph complementou com uma visão pragmática: "É fácil, cara. O estado tem a força do poder da arma, é só fazer essa força valer."
Leonardo concluiu com uma analogia familiar: "Bandido sempre teve, nunca vai mudar, que nem corrupção sempre teve em qualquer área, na política, em qualquer coisa. Não acaba, mas se controlar mais, é que nem você: se tu tiver seis filhos dentro da tua casa e se os filhos fizer o que quiser fazer dentro da sua casa, quem é errado, é o pai ou os filhos?"
A Mensagem Final
Ao encerrar o programa, Leonardo expressou esperança moderada: "Eu queria nosso Rio como que voltasse a ser... não podia ser diretamente rápido, mas podia ser tipo um degrau, degrau, degrau. A gente tentar consertar o que não pode deixar de ser consertado."
Ele concluiu com um chamado à ação coletiva: "O Rio de Janeiro, nós esperamos ela ser a cidade maravilhosa onde representa o nosso querido Brasil. E lutarmos um pelo outro, e falar, botar mais consciência e informação em cada um, e falar: dependemos do governo federal, dependemos do governo estadual, dependemos da prefeitura, dependemos de todo complexo das pessoas da segurança pública."
Análise das Soluções Propostas
O debate entre Ralph Lichotti e Leonardo da Vinci trouxe à tona diversas propostas e análises sobre como enfrentar o desafio da segurança pública no Rio de Janeiro:
Abordagem Integrada: A necessidade de cooperação entre diferentes níveis de governo (federal, estadual e municipal) e entre as diversas forças de segurança.
Controle Gradual: A ideia de que melhorias incrementais, mesmo que modestas (como reduzir a violência em 20%), já representariam avanços significativos.
Valorização do Turismo: O potencial turístico do Rio como motor econômico e fonte de empregos, especialmente em áreas como Barra de Guaratiba.
Diversificação Econômica: A sugestão de legalizar cassinos e criar novas oportunidades de desenvolvimento econômico.
Combate Estrutural ao Crime: A necessidade de ir além dos pequenos criminosos e enfrentar as estruturas que financiam e lucram com o crime organizado.
Melhoria das Condições de Trabalho: A valorização e profissionalização das forças de segurança, incluindo melhores salários e reconhecimento.
Fechamento das Brechas no Sistema: A necessidade de maior controle sobre correios, transportes públicos, portos e outras vias de entrada de armas e drogas.
O programa "Deixa o Pau Torar" cumpriu seu papel ao trazer um debate franco e sem filtros sobre um dos temas mais sensíveis da realidade carioca, oferecendo não apenas críticas, mas também propostas concretas para a recuperação da segurança e da imagem do Rio de Janeiro.

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Deixa o Pau Torar - Ep. 9 - Entre o Globo de Ouro e a História: O Brasil que o Cinema Revela



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Por Robson Talber
Apresentador Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
Convidado Especial: Empresário Leonardo da Vinci
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