Dinheiro, Emoção e Neurodiversidade

A mentora Leandra Quintanilha propõe uma abordagem humanizada da educação financeira que acolhe histórias, respeita ritmos e promove liberdade para mentes diversas

Dinheiro, Emoção e Neurodiversidade

“Falar de dinheiro é falar de emoção.” A frase da assistente social, mentora e coach financeira Leandra Quintanilha, 42 anos, abre portas para uma conversa rara, mas urgente: a forma como lidamos com o dinheiro está profundamente entrelaçada com nossa história, nosso comportamento e nossa mente.

Formada em Serviço Social desde 2008, com pós-graduação em Políticas Públicas, Gênero e Sexualidade e Educação Financeira, Leandra transita entre o setor público e o empreendedorismo com a convicção de que finanças pessoais não se resumem a planilhas. “Organizar as finanças é um ato de autocuidado, de dignidade e amor-próprio”, afirma ela, que também estuda Psicanálise e Programação Neurolinguística (PNL) para ampliar o olhar sobre os hábitos financeiros.

Em sua atuação como mentora de mulheres, Leandra acolhe histórias de dívidas, escassez e culpa com um cuidado especial: ela entende que muitos desses comportamentos são aprendidos, reproduzidos e reforçados ao longo da vida e que, para algumas mentes, o impacto é ainda mais profundo.

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas 30% da população brasileira tem conhecimentos considerados adequados sobre finanças pessoais (OCDE, 2022). Quando falamos de pessoas neurodivergentes — como autistas, TDAHs ou pessoas com transtornos de ansiedade e depressão — o cenário é ainda mais desafiador. A impulsividade, a dificuldade com organização ou a sobrecarga emocional afetam diretamente o modo como lidam com o dinheiro.

Quintanilha toca exatamente nesse ponto: “O modelo financeiro de uma pessoa é construído a partir das mensagens que ela recebeu desde a infância — de pais, professores, cultura, mídia e contexto social. Em pessoas neurodivergentes, que frequentemente sofrem com estigmas ou barreiras de acesso, esse modelo pode se formar com distorções ainda mais profundas.”

É por isso que a abordagem dela propõe um caminho mais humano, acessível e libertador. “Educação financeira não é sobre números, é sobre comportamento, mentalidade, contexto social e histórico familiar. É sobre liberdade e escolha.”

Esse pensamento encontra eco em estudos recentes. A Fundação Getúlio Vargas (FGV) já demonstrou que educação financeira desde os anos iniciais do ensino básico pode reduzir em até 35% o risco de endividamento crônico na fase adulta (FGV, 2021). No entanto, pouco se fala sobre formatos acessíveis de ensino para pessoas neurodivergentes — um campo em que Leandra já começa a abrir caminhos com empatia e acolhimento.

Ela costuma dizer: “Educação financeira é uma linguagem de sobrevivência.” E mais que isso: é uma ferramenta de inclusão. Leandra acredita que transformar crenças, hábitos e comportamentos exige compreender o emocional, respeitar a individualidade e oferecer apoio contextualizado. “Dinheiro e emoção caminham juntos. Quando você entende o que sente ao gastar ou poupar, quando você se organiza de forma que respeite seu ritmo, você não só transforma sua conta bancária, mas também sua autoestima.”

Em um país onde 77% das famílias estão endividadas (Fonte: CNC, 2024) e 1 em cada 6 adultos apresenta sintomas de ansiedade grave (Fonte: OMS, 2023), cuidar das finanças é também cuidar da saúde mental. Para as pessoas neurodivergentes, esse cuidado precisa vir sem julgamento, sem fórmulas engessadas, com linguagem clara, acolhedora e funcional.

É fundamental compreender que o endividamento, a dificuldade em construir patrimônio ou em viver com tranquilidade financeira estão muito mais ligados a traumas e crenças limitantes do que à falta de capacidade ou disciplina.

E, como a própria Leandra Quintanilha afirma:
“A prosperidade tem a ver com valores mentais, não com valores numéricos - com consciência, não com comparação.”

Por Angélica Cunha em 16/07/2025
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