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Por Jorge Tardin
Professor de Direito e curador da Coalizão Veredicto do Capital
Durante uma visita oficial à Europa, a primeira-dama Janja Lula da Silva tomou a palavra fora do protocolo e falou sobre o papel das plataformas digitais na disseminação de fake news, especialmente por grupos de extrema-direita. Foi uma fala firme, verdadeira e incômoda para alguns. Não houve ofensa, não houve ruptura. Mas houve reação. E não foi pouca.
Parte da imprensa reagiu como se o Brasil tivesse cometido uma gafe internacional irreparável. Manchetes alarmistas tomaram conta do noticiário. Comentadores indignados, especialistas convocados de última hora e horas de cobertura ao vivo criaram uma narrativa de “crise diplomática” onde, de fato, não havia crise alguma.
Enquanto tudo isso acontecia, Lula firmava acordos com a Itália, o Vaticano e outros parceiros estratégicos. Tratava de temas centrais: meio ambiente, energia limpa, educação, soberania tecnológica. O Brasil se reposiciona internacionalmente. Mas isso? Isso quase não apareceu nas manchetes.
É como se um comentário da primeira-dama fosse mais relevante do que o futuro da Amazônia ou a reinserção do Brasil no cenário global. E isso diz muito — não sobre Janja, mas sobre o que parte da mídia escolhe amplificar.
Janja não se encaixa no molde clássico de primeira-dama. Não é decorativa, nem protocolar. É mulher nordestina, com opinião, presença e vontade de participar. E isso, sabemos bem, ainda incomoda. Principalmente quando vem de alguém que não deve favores à aristocracia de sobrenomes nem à elite diplomática que se ofende com sotaques.
O episódio revela algo mais profundo: a seletividade da indignação. Porque, vejamos os fatos. Nenhum país rompeu acordos com o Brasil. Nenhuma autoridade estrangeira protestou. Nenhuma embaixada pediu explicações. O que houve foi apenas uma quebra de protocolo — transformada, com certo empenho, em espetáculo nacional.
E quando se faz tanto barulho por tão pouco, a pergunta inevitável é: a quem interessa essa distração?
O Brasil tem assuntos sérios a tratar. Mas entre o que é importante e o que rende clique, parte da imprensa tem preferido o segundo. O caso Janja foi apenas mais um capítulo da novela em que gestos simbólicos viram escândalos e as ações estruturantes ficam nos bastidores.
A verdadeira manchete daquela viagem à Europa deveria ter sido simples e direta: "Brasil fecha acordos estratégicos e retoma protagonismo internacional". Mas não foi essa a escolha editorial.
Ao escolher mirar os holofotes sobre a voz da primeira-dama e não sobre as assinaturas diplomáticas que moldam o futuro do país, parte da imprensa reafirma seu papel de fabricante de cortinas de fumaça.
A crítica é bem-vinda, sempre. Mas quando ela se transforma em linchamento simbólico — seletivo, desproporcional, e carregado de preconceito de classe e de gênero — ela perde sua função democrática e passa a ser instrumento de manutenção de poder.
Como dizia Darcy Ribeiro: “O Brasil é feito por nós, apesar deles.”
E é esse “nós” que constrói, mesmo quando os holofotes estão virados para o lado errado da história.
Jorge Tardin é professor de Direito e curador da Coalizão Veredicto do Capital.
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