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Valdo Tavares aponta necessidade de mudança estratégica no Rio de Janeiro durante seminário no Golf Olímpico
Valdo Tavares, especialista em segurança pública e ex-secretário em oito municípios da Baixada Fluminense, criticou a eficácia das operações policiais realizadas no Rio de Janeiro durante participação no Seminário das Energias, no Golf Olímpico.
O advogado criminalista, com 30 anos de experiência, classificou as operações do governo estadual como necessárias, mas distantes de serem um sucesso real. Segundo Tavares, as ações não conseguiram atingir seu objetivo principal: colocar atrás das grades as grandes lideranças das facções criminosas. O especialista alertou que há mais de duas décadas as operações policiais retornam ao status quo anterior após seu término, funcionando mais como "vitrine política" do que como solução prática para a segurança. Sua análise aponta para a necessidade urgente de mudança na estratégia de combate ao crime organizado no estado.
Proposta de ocupação permanente substitui modelo atual de operações
Tavares defendeu uma mudança radical na estratégia de segurança pública, propondo a transferência dos batalhões de Polícia Militar do asfalto para dentro das comunidades. Segundo o especialista, não há necessidade de policiais ficarem em "prejuízo geográfico", tendo que subir favelas em risco de vida e integridade física.
A proposta prevê a ocupação permanente de todas as comunidades com batalhões da Polícia Militar, posicionados estrategicamente no centro das áreas planas e no alto das comunidades com declive. O especialista argumenta que essa ocupação geográfica estratégica permitiria uma pacificação definitiva dos territórios controlados pelo crime organizado. Esta abordagem representaria uma ruptura com o modelo atual de operações pontuais e temporárias.
Histórico de ocupação territorial remonta ao pós-guerra
O problema da ocupação territorial pelo crime organizado não é recente, conforme explicou Tavares, que situa o início do fenômeno no final da década de 1970, com alguns especialistas apontando origens nas décadas de 1940 e 1950, no período pós-guerra. Naquela época, a violência não tinha a dimensão atual, mas o especialista observa que qualquer setor urbano que entra em estado de desordem tende a desenvolver crime organizado.
Quando as facções dominam uma área específica, passam a exercer controle sobre a cidade como um todo, criando um efeito dominó de insegurança. A análise histórica demonstra que o problema atual é resultado de décadas de ausência do Estado em territórios estratégicos. Esta perspectiva temporal evidencia a necessidade de soluções estruturais de longo prazo.
Estratégia de combate deve atingir todas as facções simultaneamente
Uma das principais críticas de Tavares ao modelo atual de operações é a abordagem seletiva contra facções específicas. O especialista alertou que atacar apenas uma facção automaticamente fortalece as organizações rivais, que aproveitam o enfraquecimento para invadir territórios antes controlados pelos grupos atingidos.
Esta dinâmica cria um ciclo vicioso onde o Estado inadvertidamente contribui para o fortalecimento de outras organizações criminosas. Tavares enfatizou que as operações devem ser direcionadas simultaneamente a todas as facções identificadas para evitar esse efeito colateral. Sem essa abordagem abrangente, as ações policiais continuarão "enxugando gelo", sem deixar um legado duradouro para a segurança pública.
Remoção de barricadas evidencia mudança de comportamento das facções
O especialista observou um fenômeno interessante: em muitos locais, os próprios traficantes estão ordenando a remoção de barricadas ao perceberem a aproximação de operações estatais. Esta atitude demonstra que não há resistência significativa quando o Estado realmente se posiciona de forma assertiva.
Tavares interpretou essa reação como prova de que as facções reconhecem a força estatal quando ela é aplicada de forma consistente. A remoção voluntária de obstáculos pelos próprios criminosos indica uma mudança de estratégia diante da pressão governamental. Este comportamento sugere que uma presença estatal mais constante e organizada poderia produzir resultados mais duradouros.
Cooperação entre entes federativos é fundamental para o sucesso
Tavares reconheceu que a iniciativa do governo estadual é correta, mas ressaltou a necessidade de cooperação de outros entes federativos para o sucesso das ações. O especialista destacou que questões de urbanização são responsabilidade municipal, e as polícias não podem ser sobrecarregadas com funções que vão além de suas competências.
Segundo ele, não é razoável exigir que as forças policiais, além dos blindados, tenham todo o aparato de engenharia necessário para remover obstáculos em diversas regiões. A coordenação entre estado e municípios é essencial para abordar os aspectos estruturais do problema. Esta visão integrada reconhece que a segurança pública é uma questão multidisciplinar que requer esforços coordenados.
População local influencia decisões estratégicas das facções
O especialista identificou outro fator que influencia o comportamento das organizações criminosas: a pressão da própria população local. As barricadas impedem o acesso de ambulâncias e serviços de socorro, gerando reclamações dos moradores que chegam aos ouvidos dos traficantes. As facções precisam manter a população "de boca fechada" para evitar denúncias que possam prejudicar suas operações.
Situações emergenciais, como mulheres grávidas ou pessoas infartando, exigem acesso de ambulâncias, criando tensão entre controle territorial e necessidades humanitárias. Esta dinâmica social demonstra que o crime organizado também enfrenta pressões internas de legitimidade junto às comunidades. O reconhecimento desta realidade pode ser utilizado estrategicamente pelas forças de segurança.
Mudança geográfica é essencial para solução definitiva
Tavares propôs uma transformação radical na geografia urbana do Rio de Janeiro, argumentando que a configuração atual facilita a criação e manutenção de facções criminosas. O especialista defendeu a urbanização completa das comunidades, permitindo que o Estado entre e saia sem problemas ou riscos desnecessários.
Ele criticou os investimentos municipais em revitalização do centro da cidade, sugerindo que os recursos deveriam ser direcionados para a urbanização de comunidades carentes. Esta abordagem estrutural reconhece que o problema da segurança pública está intimamente ligado às condições urbanas e sociais. A proposta de "trocar a geografia" representa uma visão de longo prazo para solucionar definitivamente os problemas de segurança.
Lançamento de livro promete aprofundar análise da segurança fluminense
Durante sua participação no seminário, Tavares anunciou o lançamento de um livro sobre segurança pública específica do Rio de Janeiro ainda este ano. A obra promete abordar pontos cruciais além dos já mencionados, oferecendo uma análise abrangente dos desafios de segurança do estado.
O especialista enfatizou que a segurança pública não é um problema momentâneo, mas uma questão estrutural que se agravará com o crescimento populacional. A publicação representará uma contribuição acadêmica e prática para o debate sobre políticas de segurança no Rio de Janeiro. O livro deve consolidar décadas de experiência e observação do especialista sobre a evolução do crime organizado fluminense.
Disponibilidade para diálogo com autoridades governamentais
Tavares manifestou disposição para dialogar com todos os entes da federação, incluindo o município e o estado do Rio de Janeiro, oferecendo sua expertise para contribuir com políticas públicas de segurança. O especialista se colocou à disposição do governador Cláudio Castro para conversas sobre segurança pública, demonstrando abertura para colaboração institucional.
Esta postura colaborativa evidencia o reconhecimento de que soluções efetivas requerem diálogo entre especialistas e gestores públicos. A experiência de Tavares como ex-secretário em oito municípios da Baixada Fluminense oferece perspectiva prática valiosa para formulação de políticas. Sua disponibilidade para contribuir com o debate público demonstra compromisso com a melhoria da segurança no estado.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
Por Robson Talber @robsontalber
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