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Imóvel pertence a empresário que multiplicou contratos com governo em 177 vezes durante gestão Castro
Cláudio Castro utilizou uma residência de luxo em Petrópolis durante parte de seu mandato como governador do Rio de Janeiro, registrada em nome de uma empresa cujo proprietário acumulou R$ 355 milhões em contratos com o governo estadual. O ex-governador afirma ter alugado o imóvel, mas não apresenta documentação que comprove a transação nem revela a quem pagava a mensalidade. A situação levanta questões sobre possíveis conflitos de interesse e falta de transparência na administração pública.
O imóvel e seus proprietários
A casa em questão integra o condomínio Villa Locanda, um empreendimento de alto padrão que oferece piscina, espaço gourmet e adega de vinhos. Segundo registros cartoriais, a residência número 1 pertence ao CNPJ do condomínio, do qual Luiz Fernando Gomes é proprietário. O empresário, que atua no ramo da construção civil, possui mais de 20 empresas, entre elas a Engeprat, responsável por assinar 13 contratos com o governo fluminense.
Castro ocupou o imóvel entre outubro de 2023 e o início de 2026, período que coincide com sua gestão à frente do Palácio Guanabara. Durante esse tempo, utilizou helicópteros oficiais do governo para se deslocar até a cidade aos fins de semana, em pelo menos 24 ocasiões registradas entre janeiro de 2024 e o início deste ano. Em algumas viagens, estava acompanhado pela família.
Os contratos milionários
A Engeprat, empresa de Luiz Fernando Gomes, experimentou crescimento exponencial nos negócios com o governo do Rio durante a gestão Castro. Antes de o ex-governador assumir o Palácio Guanabara, a empresa havia recebido pouco menos de R$ 2 milhões em contratos. Após 2022, com Castro no poder, esse valor saltou para R$ 355 milhões, representando um aumento de 177 vezes. Onze dos 13 contratos foram firmados após 2022, sendo o de maior valor destinado à prestação de serviços de topografia.
O empresário justifica o aumento alegando que está relacionado às obras contratadas após as tragédias ambientais que atingiram Petrópolis no início de 2022. Segundo sua defesa, todos os contratos "passaram, sem mácula, pelo crivo dos órgãos fiscalizadores competentes" e a empresa "sempre alicerçou sua atuação nos mais rigorosos princípios éticos e profissionais".
A falta de comprovação
Quando questionado sobre o aluguel da casa, Castro afirmou possuir um "contrato de locação regular" do imóvel, com "pagamentos realizados por transferência bancária". Contudo, o ex-governador não informou a quem pagava as mensalidades nem forneceu qualquer comprovante da transação. Segundo sua assessoria, o vínculo foi rescindido nos últimos meses, após sua saída do governo.
A defesa de Castro sustenta que "não há conflito de interesse" e que "o ex-governador não mantém e nunca teve qualquer relação jurídica ou comercial com a empresa ou com o empresário citado". Essa argumentação, porém, contrasta com a documentação cartorial que vincula o imóvel ao CNPJ do condomínio controlado por Gomes.
A versão do empresário
Luiz Fernando Gomes apresenta uma narrativa diferente. Segundo sua nota, a casa teria sido vendida para uma pessoa física ainda durante a fase de construção, em fevereiro de 2023. O empresário não revelou a identidade do comprador, alegando que a situação cartorial não estaria atualizada. Gomes afirma que "é ele quem a disponibiliza para locação desde então" e que "o imóvel não pertence a Luiz Fernando Gomes, que jamais o alugou, vendeu ou emprestou para o ex-governador".
Essa versão, contudo, não encontra respaldo nos registros públicos, que continuam apontando o CNPJ do condomínio como proprietário do imóvel. A falta de documentação que comprove a venda alegada por Gomes alimenta dúvidas sobre a veracidade de sua explicação.
Uso de recursos públicos
O deslocamento de Castro até Petrópolis utilizando helicópteros oficiais do governo também levanta questões sobre o uso adequado de recursos públicos. Entre janeiro de 2024 e o início de 2026, o ex-governador utilizou a aeronave oficial ao menos 24 vezes para chegar à cidade nos fins de semana, pousando em helipontos próximos ao imóvel.
A assessoria de Castro justificou os deslocamentos argumentando que "sempre observaram critérios institucionais de segurança, agenda e logística definidos pelos órgãos responsáveis" e que "tiveram relação direta com a segurança institucional do então governador". Críticos, porém, questionam se viagens de lazer deveriam ser custeadas pelo erário público.
Investigações em andamento
O imóvel em Petrópolis não foi alvo de buscas da Polícia Federal nas duas operações que atingiram Castro em maio de 2024. As investigações focam no escândalo do Master e na influência da Refit, antiga Refinaria de Manguinhos, no governo do Rio, tendo vasculhado endereços na capital do estado.
Paralelamente, Castro enfrenta questionamentos sobre outra propriedade: uma cobertura no Rio, comprada por empresa em nome de Mauro Farias, ex-secretário de Transformação Digital. O ex-governador utilizou argumento semelhante para justificar aquela residência, alegando que a alugava, mas também sem apresentar documentação comprobatória.
Transparência em xeque
O caso evidencia lacunas significativas na transparência da administração pública estadual. A impossibilidade de Castro comprovar o pagamento de aluguel, combinada com o crescimento exponencial dos contratos da empresa de Gomes durante sua gestão, alimenta suspeitas sobre possíveis irregularidades. A falta de documentação cartorial atualizada e a recusa em revelar detalhes sobre as transações financeiras reforçam essas preocupações.
Especialistas em direito administrativo apontam que gestores públicos devem manter distância de situações que possam gerar conflitos de interesse, mesmo que não haja comprovação de ilegalidade. A utilização de imóvel vinculado a empresário com contratos milionários com o governo, sem documentação clara, viola princípios de moralidade administrativa.
Fontes:
O Globo (10 de julho de 2026) Metrópoles (9 de julho de 2026) Tribuna de Petrópolis (10 de julho de 2026) Brasil 247 (9 de julho de 2026) Folha PE (10 de julho de 2026) G1 (10 de maio de 2026) Diário do Centro do Mundo (10 de julho de 2026)
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