Galileu de Freitas, prefeito de Sumidouro e Bebeto de Duas Barras reclamam que Governo estadual interino não se comunica com municípios e desfinanciamento crônico sufoca pequenas cidades do Rio de Janeiro

Na XXVII Marcha Prefeitos do interior do Rio de Janeiro clamam: Pacto federativo está quebrado 'A vida acontece nos municípios e Brasília não está ouvindo'

Sumidouro e Duas Barras levam demandas críticas na Marcha de Prefeitos; gestores denunciam sufocamento orçamentário e falta de interlocução com governo estadual

A marcha dos municípios: quando a base grita por atenção

Brasília recebe mais uma vez a voz das cidades pequenas. Na XXVII Marcha de Prefeitos, gestores de Sumidouro e Duas Barras compartilham uma narrativa comum a centenas de municípios brasileiros: o desfinanciamento crônico. Não é discurso. É realidade orçamentária. Despesas são impostas aos municípios sem as correspondentes fontes de receita. O custeio cresce enquanto os cofres municipais encolhem. A população sofre na ponta: menos investimento, menos serviço. A marcha existe justamente para amplificar essa voz que, sozinha, não atravessa as portas de Brasília.

O sufocamento financeiro: uma crise que não tem solução aparente

Bebeto de Duas Barras coloca o dedo na ferida aberta do pacto federativo. "Várias despesas são empurradas aos municípios sem ter a nossa receita do outro lado", diz. A consequência é previsível: sufocamento progressivo. Enquanto o estado e a União criam novas obrigações — pisos de categorias profissionais, programas sociais, investimentos em infraestrutura — os municípios ficam responsáveis pela execução sem receber os recursos correspondentes. É como pedir ao município que construa uma ponte mas só fornecer os pregos. O resultado é que a população local paga o preço mais alto: serviços deficientes, saúde debilitada, educação subalternizada.

Galileu de Freitas, prefeito de Sumidouro, reforça a centralidade do município na vida brasileira. "As coisas não acontecem no estado ou na União. Acontecem no município", afirma. É ali que os serviços chegam, onde as pessoas vivem, onde a vida real se desenrola. Mas para que o município funcione adequadamente, precisa da repartição justa do bolo tributário. "É importante a marcha porque reúne todos os prefeitos do Brasil e cria força para levar nossas demandas ao governo federal, à Câmara, ao Senado", complementa Galileu.

A polarização que tranca pautas municipalistas

A polarização política é identificada pelos prefeitos como obstáculo direto à aprovação de pautas municipalistas. Hugo Motos, citado como figura que prometeu destrancá-las, representa uma esperança — ainda que frágil — de que a agenda municipal sobreviva ao embate ideológico que domina o Congresso. A questão é delicada: quantas reformas estruturais ficam suspensas porque os blocos políticos não conseguem conversar? Quantas cidades sofrem porque Brasília está trancada em disputas partidárias?

A união dos prefeitos, segundo Galileu, é justamente a ferramenta para quebrar esse impasse. "Quando os prefeitos falam juntos, falam mais alto. Criam pressão institucional que não pode ser ignorada", sintetiza o discurso. O risco, porém, é que essa pressão esvaia-se rapidamente, assim que a marcha termina e cada prefeito retorna à sua cidade.

Sumidouro: agricultura, turismo e paisagem como saída

Sumidouro aposta em suas vocações naturais. O município é conhecido por um atributo climático único: dois climas em um só território. A zona rural e o centro urbano convivem em temperaturas e condições diferentes. Essa característica torna a cidade atrativa para turismo. A Cascata Condid, com mais de 127 metros de queda livre, é cartão-postal local. A economia, porém, é construída sobre a agricultura. Sumidouro é um dos maiores produtores agrícolas do estado do Rio de Janeiro, destacando-se na produção de tomate e caqui. A Festa do Caqui, que ocorreu recentemente, atraiu enorme público — evidência de que o município está capitalizando sua vocação rural.

"Sumidouro é um município que vale a pena ser visitado, que vale a pena ser conhecido. Temos uma população trabalhadora e uma paisagem maravilhosa", resume Galileu. A aposta é clara: turismo rural como vetor de desenvolvimento, agregando valor à produção agrícola local e diversificando receita.

Duas Barras: tradição, cultura e economia rural em expansão

Vizinha de Sumidouro, Duas Barras situa-se na região serrana do Rio de Janeiro. Tem em Martinho da Vila seu ícone cultural — o compositor que eternizou a paz e a tranquilidade da cidade em música. Mas a cidade não vive apenas de memória. Duas Barras cultiva sua vocação rural e está em expansão do turismo rural. O bacalhau é especialidade — não à toa existe o Festival do Bacalhau, realizado anualmente em agosto. Em abril, o Festival do Oipigo Torresmo celebra outra tradição gastronômica. "Venham nos visitar", convida Bebeto — apelo direto para que o turismo chegue e gere economia local.

O contexto é desafiador: a região está sob risco climático. Chuvas intensas assolam Duas Barras regularmente — preocupação que afeta a rotina administrativa e o bem-estar da população. Ainda assim, o prefeito mantém otimismo calibrado, apostando que o turismo rural e a economia local se fortaleçam o suficiente para reduzir a dependência de transferências estaduais.

O governo estadual interino: distância e dificuldade de comunicação

A situação do Rio de Janeiro complica o cenário municipal. Um governador renunciou. Seu substituto, um desembargador sem trajetória política, foi empossado temporariamente. A boa intenção não substitui a expertise política. Bebeto relata o incômodo: "Ele está revendo tudo porque precisa cumprir a legislação. Não pode gerar despesa sem cobertura financeira. Isso dificulta as ações do município. A interlocução ainda não está acontecendo".

A falta de comunicação entre governo estadual e prefeitos é prejudicial. Obras estão paralisadas. O apoio do estado, já restrito, ficou ainda mais distante. Galileu pede explicitamente: "É importante que o governador marque reuniões com os prefeitos. Que a gente converse em comum acordo. Tenho certeza de que ele tem boa intenção". A mensagem é clara — não se trata de crítica pessoal ao desembargador, mas de demanda institucional urgente. Os municípios precisam ser ouvidos.

O risco é que esse vácuo de comunicação se estenda além das eleições. Se o desembargador permanecer como governador interino até após o pleito, a situação pode se agravar. Os prefeitos da região serrana estarão, efetivamente, órfãos de apoio estadual por ainda mais tempo.

Uma população que clama por desenvolvimento

Bebeto sintetiza a urgência: "A vida acontece nos municípios. Se não tiver apoio do estado e da União para que as vidas das pessoas melhorem no município, não conseguimos atingir nosso objetivo". É essa a luta que traz prefeitos a Brasília. Não é lobby sofisticado. É grito de socorro.

A população do interior do Rio de Janeiro não pede luxo. Pede serviços funcionando, estradas trafegáveis, educação de qualidade, saúde acessível. Pede que a vida tenha dignidade. Quando o pacto federativo falha, são essas pessoas que pagam a conta. Sumidouro e Duas Barras, com suas vocações rurais e turísticas, têm potencial para se desenvolver. Mas precisam de espaço fiscal e de governo que ouça.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ

Por Robson Talber @robsontalber 

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Por Ultima Hora em 24/05/2026
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