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* Por Jorge Tardin
Nasci em São Pedro de Lumiar, quando o nome ainda vinha com cheiro de lenha e promessas de estrada. Era a segunda metade da década de 1970 — tempo em que as nuvens desciam mais baixo e os sonhos, mesmo os pequenos, tinham sotaque mineiro.
Lumiar era um arraial de personagens improváveis. Havia descendentes de suíços e alemães esquecidos, que nunca mais voltaram e/ou foram lembrados pela Europa, hippies e surfistas vindos do Rio e da Argentina, lavradores com alma de poetas e poetas que lavravam a terra. Cada forasteiro trazia um violão a tiracolo, como se a passagem por ali exigisse um gesto musical de entrada. Para um menino, era um espetáculo de humanidade: cada rosto escondia uma história, e cada casa parecia guardar um refrão.
Poucas casas possuíam a penumbra de luz elétrica, gerada pela usina do vovô, que fazia as lâmpadas piscarem como se também respirassem junto com a serra. À noite, as sombras eram longas e as estrelas, muitas — e era nelas que a imaginação morava.
O Chico Quieto, homem de fala curta e fama de matador, passava silencioso pelas ruas de terra — e bastava sua sombra para calar uma roda de conversa.
Contavam, em voz baixa, que ele havia matado e esquartejado um homem, num tempo distante e mal lembrado.
Ninguém sabia ao certo o que era verdade, mas todos o cumprimentavam com respeito, como quem faz as pazes com o medo.
Era o maior medo das crianças — a simples ideia de cruzar com ele à noite fazia o coração disparar e os passos se apressarem no barro.
Juravam ainda que ele vira o Lobisomem na encruzilhada, e que a Mula sem Cabeça galopava nas noites de lua cheia cruzando a porteira do cemitério num clarão de fogo.
Entre um susto e outro, os contadores de causos, Paulo Frez e João Mafort, dominavam a arte de transformar medo em encanto.
João Mafort, especialmente, era uma figura lendária — diziam que era “o homem que conhecia sete mares”, embora nunca tivesse saído da serra. E quando ele começava a falar, eu viajava na imaginação sobre como seria o fim do mundo, tentando entender onde terminavam as histórias e começava o desconhecido.
Lembro-me da maravilha que era o céu estrelado quando eu saía junto com meu pai para as caçadas. A serra parecia respirar. O cheiro de mato, o estalo dos galhos, o farfalhar distante de algum bicho — tudo era vida e assombro.
Eu morria de medo de onças — e, mais ainda, dos discos voadores, que juro ter visto mais de uma vez cortando o céu, silenciosos e luminosos, como se espreitassem para nos abduzir.
Mas o que mais me aterrorizava era a lembrança da passagem bíblica que dizia que as estrelas cairiam sobre a terra como os frutos de uma figueira.
Eu, menino, olhava o firmamento maravilhado, mas, quando nos relâmpagos das tempestades, rezava para que as estrelas não caíssem e o fim do mundo esperasse um pouco mais.
Na única escola do arraial me ensinavam Moral e Cívica e o hino “Pra Frente Brasil”. Eu, sempre muito tímido, murmurava ao invés de cantar, acompanhando os colegas com o mesmo entusiasmo com que olhava o céu — sem entender direito o que havia por trás daquela alegria obrigatória.
A presença dos forasteiros, com suas roupas coloridas e seus violões, me gerava o mesmo tipo de fascínio: uma sensação de liberdade que eu ainda não sabia nomear.
A infância era feita desses paradoxos: o medo e o fascínio, a noite e a canção.
Foi nesse cenário que aprendi o que era ser “alternativo” — embora ninguém usasse essa palavra. Era apenas gente tentando viver fora do compasso do mundo, vestindo cores, falando de liberdade, misturando incenso com cheiro de mato.
A primeira minissaia que vi foi uma epifania — um relâmpago de descoberta em meio à poeira da estrada. E as mulheres de biquíni tomando banho no Poço do Benin foram meu primeiro delírio juvenil: a revolução dos hormônios chegando junto com o barulho da água.
Naquele tempo, as canções de Lô Borges e dos companheiros do Clube da Esquina já ecoavam nas rodas de violão do coreto de São Pedro de Lumiar.
Gente de toda parte se reunia — cariocas da Guanabara, mineiros e até argentinos — celebrando aquela mistura de melodia e poesia que fazia o Brasil soar como um continente inteiro.
As noites cheiravam a lenha e liberdade, e cada acorde parecia acender as estrelas sobre o telhado da praça.
Havia algo naquelas músicas — doces, trêmulas, cheias de luz e sombra — que descrevia exatamente o que eu via ao redor: um Brasil interiorano que sonhava ser infinito.
E foi também Beto Guedes, com sua voz de brisa, quem ensinou muito: que “em cada luz de um olhar, o amor se refaz”, que “é sempre bom se lembrar que um amor verdadeiro pode durar para sempre”, e que ter nascido e vivido a infância em São Pedro de Lumiar me fez, acima de tudo, um estado de alma — o de acreditar na humanidade.
Lô Borges foi, para minha geração, o som da descoberta. Enquanto o país vivia entre silêncios e censuras, ele compunha canções que ensinavam a resistir com ternura.
Quando o ouvi cantar “Trem Azul”, percebi que o tempo podia ser uma viagem sem destino certo, e que crescer talvez fosse isso: aprender a embarcar e deixar partir.
Hoje, com a notícia de sua despedida, percebo que parte de mim volta àquele Lumiar da infância, onde tudo era possível — inclusive ser feliz sem entender o porquê.
Lô se foi, mas deixou o mapa. E nesse mapa estão as esquinas de Belo Horizonte e as curvas de São Pedro de Lumiar, onde a música, a imaginação e a paisagem se confundem num mesmo feitiço.
Talvez seja essa a lição que ele nos deixa: a de que a juventude não acaba — apenas muda de trilha sonora.
O Poço do Benin já não existe, e o tempo levou meu pai, meu avô, o Chico Quieto, Paulo Frez e João Mafort — o homem que conhecia sete mares.
Mas ainda há esperança de novos ventos em Lumiar, capazes de iluminar o Brasil,
porque Lô Borges continua vivo nas lembranças de um menino que viu o mundo nascer entre um acorde e o sonho de um Brasil grande.
Embora estejamos vivendo tempos difíceis, obrigado, Lô Borges e Beto Guedes, pela música — como deve ser Lumiar.
Aprendi com vocês que “em cada luz de um olhar, o amor se refaz”,
que “é sempre bom se lembrar que um amor verdadeiro pode durar para sempre”,
e que ter nascido e vivido a infância em São Pedro de Lumiar me fez, antes de tudo,
um estado de espírito, um estado de alma — o da esperança e da crença na humanidade.
* Jorge Tardin - nasceu e viveu em São Pedro de Lumiar até os 17 anos.