Mariana Aleixo apresenta na FGV projeto que já qualificou mais de 2 mil mulheres em 9 anos, combinando empregabilidade e enfrentamento à violência de gênero

Casa das Mulheres da Maré transforma vidas através da gastronomia e quebra ciclos de violência no Rio

Durante seminário sobre responsabilidade social na Fundação Getúlio Vargas (FGV), Mariana Aleixo, coordenadora da Casa das Mulheres da Maré, apresentou um dos projetos sociais mais impactantes do Rio de Janeiro. Doutora e mestre em Engenharia de Produção pela UFRJ e formada em gastronomia, Aleixo foi reconhecida na prestigiosa lista "50 Next" em 2021 pelo trabalho de empoderamento feminino através da culinária, que valoriza as raízes nordestinas dos moradores do complexo.

O projeto Maré de Sabores, que existe há 15 anos como iniciativa da Rede da Maré, representa muito mais que um curso de gastronomia. Trata-se de uma metodologia revolucionária que aborda a mulher em uma perspectiva 360 graus, combinando qualificação profissional, formação em gênero e sociedade, além de acolhimento psicossociojurídico. "A gente tem um método que pensa a mulher a partir de uma perspectiva 360. Quais são esses marcadores que dificultam as mulheres acessarem oportunidades no mercado de trabalho, e como criamos um espaço seguro para fortalecer a produção de sonhos delas", explicou Aleixo durante sua participação no evento.

A abordagem inovadora do projeto reconhece as múltiplas vulnerabilidades enfrentadas pelas mulheres da Maré. Ser mulher, de favela e racializada cria barreiras específicas que o projeto busca derrubar através de uma formação técnica sólida aliada ao desenvolvimento de consciência crítica sobre questões de gênero. A gastronomia marense, como é chamada pelos organizadores, serve como ponte entre a valorização cultural das raízes nordestinas e a criação de oportunidades concretas de geração de renda.

A Casa das Mulheres da Maré opera através de quatro frentes estratégicas de trabalho, todas voltadas ao enfrentamento da violência contra a mulher. A primeira frente concentra-se na qualificação profissional, oferecendo formações em gastronomia, estética e beleza. Esta abordagem reconhece que a independência econômica é fundamental para que mulheres possam romper ciclos de violência doméstica e construir autonomia em suas vidas.

A segunda frente estabelece atendimento psicossociojurídico com plantões especializados, mas vai além do atendimento pontual. O acolhimento integra-se à metodologia dos cursos, criando um ambiente seguro onde as mulheres podem processar traumas, desenvolver autoestima e acessar informações sobre seus direitos. Esta integração entre formação técnica e suporte emocional representa um diferencial crucial na efetividade do programa.

Os direitos sexuais e reprodutivos constituem a terceira frente de atuação, abordando questões fundamentais para a saúde e autonomia das mulheres. O projeto discute justiça reprodutiva, tema especialmente relevante em territórios onde o acesso a serviços de saúde de qualidade é limitado. Esta abordagem reconhece que o controle sobre o próprio corpo e as decisões reprodutivas são elementos essenciais para a construção da autonomia feminina.

A quarta frente trabalha arte e cultura através de projetos específicos como "Arte e Cultura na Casa das Mulheres da Maré", que celebra marcos feministas na favela, e o "Festival Comida de Favela". Estas iniciativas fortalecem a identidade cultural das participantes, valorizando suas origens e criando espaços de expressão e reconhecimento. A cultura torna-se ferramenta de resistência e empoderamento, conectando as mulheres com suas raízes enquanto constrói perspectivas de futuro.

Os números impressionam pela consistência e impacto social. Em nove anos de funcionamento, a Casa das Mulheres da Maré já qualificou mais de 2.000 mulheres em suas diversas formações. Este resultado demonstra não apenas a demanda reprimida por oportunidades de qualificação no território, mas também a eficácia da metodologia desenvolvida pela equipe. Cada mulher qualificada representa uma família impactada e uma comunidade fortalecida.

A metodologia desenvolvida pela Casa das Mulheres reconhece que a empregabilidade funciona como forma objetiva de rompimento do ciclo de violência. Quando uma mulher conquista independência econômica, ela adquire poder de escolha sobre sua própria vida, podendo deixar relacionamentos abusivos e construir projetos pessoais. Por isso, as ações de fortalecimento do trabalho e qualificação profissional constituem o ponto de partida estratégico do programa.

Mariana Aleixo destacou durante o seminário na FGV que o projeto atende especificamente mulheres que historicamente não conseguem acessar espaços institucionais que garantem direitos às mulheres da cidade como um todo. "A mulher de favela acaba não acessando esses espaços institucionais que garantem direitos para as mulheres do Rio de Janeiro e do Brasil. Então a gente tem a casa como esse espaço de referência de acolhimento", explicou a coordenadora.

O trabalho desenvolvido pela Rede da Maré vai além da assistência imediata, produzindo pesquisas que revelam dados sobre o território e denunciam como o Estado historicamente criminaliza esses espaços em vez de garantir direitos. Esta dimensão de advocacy é fundamental para que as soluções desenvolvidas localmente possam influenciar políticas públicas mais amplas, beneficiando outras favelas e territórios vulneráveis.

A questão dos direitos trabalhistas emerge como preocupação central no trabalho da Casa das Mulheres. Embora o MEI (Microempreendedor Individual) ofereça uma alternativa imediata de formalização, Aleixo enfatiza que os direitos trabalhistas plenos precisam ser garantidos e acessados por pessoas de espaços de favela. "Regulamentar isso é papel do Estado, e a rede está nesse lugar de criar fomento e pesquisas para garantir isso pro território da Maré e que se reflita para outras favelas", afirmou.

A recente visita do ministro Flávio Dino à Maré trouxe visibilidade nacional ao território e aos projetos desenvolvidos pela Rede da Maré. A repercussão midiática da visita ministerial colocou a Maré nos noticiários de todo o país, evidenciando tanto os desafios quanto as soluções inovadoras que emergem do território. Esta visibilidade é crucial para atrair recursos, parcerias e reconhecimento para o trabalho desenvolvido.

O enfrentamento à violência contra a mulher permeia todas as ações da Casa das Mulheres da Maré. A instituição funciona como espaço de referência onde as mulheres podem dimensionar as diferentes violências que sofrem e acessar uma rede de apoio institucional. Os projetos elaborados criam condições para que as mulheres saiam dos ciclos de violência, oferecendo alternativas concretas e suporte continuado.

A participação de Mariana Aleixo no seminário da FGV representa o reconhecimento acadêmico e institucional da relevância do trabalho desenvolvido na Maré. A presença em um espaço de prestígio como a Fundação Getúlio Vargas legitima as metodologias desenvolvidas no território e cria oportunidades para diálogo com outros atores sociais, acadêmicos e governamentais interessados em replicar experiências exitosas.

O projeto Maré de Sabores e a Casa das Mulheres da Maré demonstram como iniciativas locais podem desenvolver soluções inovadoras para problemas complexos. A combinação entre qualificação profissional, acolhimento psicossocial, valorização cultural e advocacy político cria um modelo replicável de empoderamento feminino que merece atenção de gestores públicos, organizações sociais e investidores sociais interessados em gerar impacto real na vida das mulheres em situação de vulnerabilidade.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ

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Por Robson Talber

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Por Ultima Hora em 08/10/2025
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