NITERÓI: A CIDADE QUE ACORDOU SEM CAPITAL

NITERÓI: A CIDADE QUE ACORDOU SEM CAPITAL

Esta é a primeira de uma série de três crônicas sobre Niterói, cidade onde geografia, política, cultura e autoestima parecem viver numa relação permanente de amor, melancolia e ironia urbana.

Ao longo das próximas semanas, revisitarei três momentos fundamentais da história recente da cidade: o trauma da perda da capital e sua lenta reconstrução política; o surgimento de uma identidade cultural singular, especialmente através da música e da lendária Fluminense FM, a “Maldita”; e, por fim, a transformação econômica trazida pelos royalties do petróleo, que alterou profundamente a relação da cidade com o dinheiro, o urbanismo e consigo mesma.

E talvez seja impossível compreender Niterói sem começar justamente pelo seu grande trauma histórico: o dia em que ela deixou de ser capital.

Poucas cidades brasileiras experimentaram uma decadência tão silenciosa quanto Niterói. A cidade simplesmente acordou, um dia, e descobriu que já não era mais capital de nada.

A fusão entre os antigos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, oficializada em 1975 pela ditadura militar, produziu um daqueles traumas administrativos que Brasília costuma chamar de “reorganização”, mas que, na prática, funcionam como despejo institucional em larga escala. O poder atravessou a Baía antes mesmo da Ponte Rio-Niterói virar rotina consolidada. Secretarias foram embora, repartições perderam função, funcionários migraram, investimentos mudaram de endereço e Niterói passou a viver uma espécie de aposentadoria compulsória antes da velhice.

Até então, a cidade cultivava a elegância discreta das antigas capitais. Não tinha o frenesi do Rio de Janeiro nem sua vocação espetaculosa para o caos, mas possuía vida política própria, atividade econômica relativamente estável e uma autoestima urbana que dispensava apresentações. Havia algo de aristocrático em Niterói. Uma cidade que parecia acreditar sinceramente que o país ainda usava terno de linho branco.

A perda da capitalidade desmontou essa lógica de maneira brutal. O Centro começou lentamente a esvaziar-se. Prédios públicos perderam movimento. O comércio entrou numa espécie de anemia permanente. A cidade, que antes orbitava o poder, passou a orbitar o Rio de Janeiro. E talvez tenha sido esse o golpe mais duro: deixar de ser referência para virar extensão.

Niterói começou então a desenvolver uma característica psicológica curiosa. Tornou-se uma cidade nostalgicamente consciente do próprio passado. Quase todo morador parecia conhecer alguma história sobre o tempo em que “aqui era capital”. O problema é que cidades não sobrevivem apenas de lembranças. Sobrevivem de função econômica, identidade urbana e capacidade de projetar futuro.

Havia também uma melancolia física espalhada pela paisagem. O Centro envelhecia junto com suas repartições esvaziadas. Muitas áreas urbanas davam a impressão de terem parado numa espécie de quarta-feira administrativa permanente. Nem decadência completa, nem vitalidade real. Apenas um cansaço urbano burocraticamente distribuído.

E talvez exista algo simbolicamente perfeito no fato de que a principal ligação da cidade com o novo centro de poder fosse justamente uma barca. Durante décadas, milhares de moradores atravessaram diariamente a Baía de Guanabara numa rotina quase pedagógica: trabalhar, consumir, decidir e produzir riqueza do outro lado. Niterói começava lentamente a assumir o papel ingrato de cidade que dorme bem, mas depende do vizinho para existir economicamente.

Foi nesse cenário que surgiu Jorge Roberto Silveira.

Mais do que um prefeito, Jorge Roberto acabou se tornando uma espécie de personagem histórico da reconstrução emocional da cidade. Sua importância não está apenas nas obras, nos projetos urbanos ou nas reformas administrativas. Está no fato de que sua gestão devolveu a Niterói algo talvez mais importante que recursos: devolveu autoestima.

E isso apareceu de forma muito concreta em dois símbolos completamente diferentes, mas igualmente transformadores.

De um lado, o MAC, aquele disco voador elegante desenhado por Niemeyer à beira da Baía, que recolocou Niterói no imaginário cultural do país e transformou uma cidade frequentemente vista apenas como “o outro lado da ponte” em referência arquitetônica internacional. O museu acabou se tornando mais do que um equipamento cultural. Virou uma espécie de declaração pública de que Niterói ainda pretendia ser relevante.

Do outro, a concessão dos serviços de água e esgoto para a Águas de Niterói, iniciativa que modernizou o saneamento da cidade numa época em que boa parte do Brasil ainda tratava esgoto como um detalhe administrativo secundário. Era quase uma síntese involuntária da própria cidade: entre a poesia futurista do concreto e a eficiência subterrânea dos canos.

Niterói talvez tenha sido uma das poucas cidades brasileiras que conseguiu investir simultaneamente em arte contemporânea e em gente que finalmente podia abrir a torneira sem precisar de um ato de fé.

Claro que nem tudo eram curvas de Niemeyer e tubulações eficientes. O esvaziamento do Centro nunca foi totalmente resolvido. A dependência econômica em relação ao Rio continuou forte. E a cidade preservou essa curiosa sensação de riqueza organizada convivendo lado a lado com certa insegurança existencial.

Ainda assim, algo havia mudado.

A cidade começou lentamente a recuperar autoestima. Houve reorganização urbana, revitalização de espaços públicos, investimentos estruturais e, sobretudo, uma tentativa clara de fazer Niterói parar de olhar exclusivamente para o passado. A cidade voltava a discutir o futuro sem precisar começar toda frase com “na época em que éramos capital”.

Curiosamente, talvez a perda da capitalidade tenha produzido também um efeito involuntariamente positivo. Livre da obrigação de representar o poder estadual, Niterói pôde desenvolver características mais próprias. Tornou-se mais universitária, mais cultural, mais residencial e, em certo sentido, mais humana. Menos capital administrativa. Mais cidade.

Porque Niterói tem disso. É uma cidade capaz de discutir cinema iraniano num café de Icaraí e, cinco minutos depois, interromper a conversa para uma análise profundamente emocional sobre o trânsito na Roberto Silveira, como se fosse um evento geopolítico.

Ao perder a condição de capital, Niterói foi obrigada a fazer algo raro na política brasileira: reinventar-se. E cidades, assim como pessoas, às vezes só descobrem quem realmente são depois que perdem aquilo que imaginavam ser sua principal razão de existir.

No fundo, talvez Niterói tenha finalmente amadurecido no dia em que deixou de ser capital.

Na próxima crônica, falaremos justamente sobre uma das formas mais interessantes que Niterói encontrou para reconstruir sua alma: a cultura. E poucas cidades brasileiras produziram uma identidade musical tão peculiar quanto essa faixa de terra entre o mar, a ponte e uma permanente sensação de nostalgia sofisticada.

Filinto Branco
cronista de ideias

 

Por Ultima Hora em 23/05/2026
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