O Brasil vai deslanchar ou está só aquecendo o motor?

Por Filinto Branco

O Brasil vai deslanchar ou está só aquecendo o motor?

Confesso aos queridos leitores e leitoras que, desta vez, a motivação desta crônica vem de um fenômeno raro por estas bandas: boas notícias. O dólar em queda, o Brasil subindo posições no ranking das maiores economias do mundo, a recente viagem de Lula à Europa tratada como sucesso diplomático.

Até a guerra, essa velha especialista em produzir tragédias, resolveu colaborar indiretamente com o Brasil, seja pela valorização das commodities, seja pela reorganização das cadeias globais, que, em momentos de tensão, passam a buscar fornecedores mais estáveis e previsíveis. E, por uma dessas ironias geopolíticas, o Brasil, com todos os seus problemas domésticos, ainda consegue parecer um porto relativamente seguro para quem precisa garantir energia, alimentos e insumos básicos. Não é exatamente o tipo de ajuda que se agradece em público, mas, no silêncio das planilhas, ela aparece. Diante desse conjunto improvável de ventos favoráveis, a pergunta surge quase naturalmente: será que, desta vez, o Brasil deslancha? Ou estamos apenas diante de mais um daqueles momentos em que o país parece prestes a decolar, mas decide permanecer elegantemente taxiando na pista, com o motor roncando e o piloto pedindo “só mais alguns instantes” há décadas?

Os sinais, à primeira vista, são animadores. O Brasil figura entre as maiores economias do mundo. No subsolo, há petróleo em escala relevante, especialmente no pré-sal. No mesmo território subterrâneo, embora menos celebradas, estão as terras raras, esses elementos discretos que deixaram de ser curiosidade científica para se tornarem ativos estratégicos. Na superfície, o agronegócio segue eficiente, produtivo, competitivo e, diga-se de passagem, com uma previsibilidade que faria inveja a qualquer plano de governo. É, no papel, uma combinação respeitável. Energia, minerais estratégicos, capacidade produtiva e um imenso mercado interno. Em qualquer manual de economia, isso se aproxima perigosamente de uma história de sucesso. No manual brasileiro, aproxima-se perigosamente de um bom discurso.

O problema é que o Brasil raramente falha por falta de recursos. Falha por falta de base e por uma certa confiança exagerada de que o improviso resolve o que a estrutura não sustenta. E essa base tem nome: educação. Enquanto o mundo disputa cérebros, o Brasil ainda luta para garantir o básico, às vezes o muito básico. No último PISA, seguimos abaixo da média em leitura, matemática e ciências, desempenho que já não surpreende, apenas confirma a tradição. A escola pública permanece desigual, fragmentada, incapaz de oferecer o mesmo ponto de partida para todos. Formamos ilhas de excelência cercadas por um oceano de precariedade. Falamos em inteligência artificial, mas ainda brigamos com a alfabetização. É como tentar discutir computação quântica com um giz que mal escreve. Sem educação de qualidade, não há salto tecnológico nem inovação consistente. E sem isso, o país segue condenado a ocupar o mesmo lugar confortável e limitado de sempre: fornecedor de recursos para quem realmente transforma conhecimento em poder, uma espécie de sócio minoritário de si mesmo.

A situação se agrava quando olhamos para ciência e tecnologia. O investimento brasileiro gira em torno de 1% do PIB, número que já seria modesto se fosse estável, mas consegue a proeza de oscilar conforme o humor fiscal, o calendário eleitoral e, às vezes, o alinhamento dos astros. Pesquisa, por aqui, ainda é tratada como um luxo dispensável, o que ajuda a explicar por que seguimos dispensáveis em áreas estratégicas. A China, por sua vez, não teve dúvidas existenciais nem crises de identidade. Tratou educação, ciência e tecnologia como política de Estado, investiu de forma contínua, planejou no longo prazo e executou com disciplina. Hoje forma engenheiros em escala quase industrial, lidera cadeias produtivas estratégicas e transforma matéria-prima em tecnologia com uma eficiência que constrange quem ainda está discutindo por onde começar. A comparação é inevitável e ligeiramente constrangedora. Enquanto a China pega o minério e entrega o chip, o Brasil comemora quando o minério chega ao porto sem greve no meio do caminho. Eles exportam tecnologia. Nós exportamos potencial, que é uma forma elegante de dizer que ainda não aconteceu.

Não por acaso, cresce o fenômeno da fuga de cérebros. Jovens altamente qualificados, formados muitas vezes com recursos públicos, buscam no exterior aquilo que não encontram no país: financiamento, estrutura e previsibilidade. Exportamos talentos com a mesma naturalidade com que exportamos minério. A diferença é que o talento, quando vai, raramente manda notícia. É um modelo curioso. Vendemos matéria-prima e inteligência em estado bruto e depois compramos, a preços elevados, tecnologia pronta, inovação embutida e soluções que poderíamos, em tese, desenvolver. É como vender o café verde e comprar de volta o cappuccino gourmet.

E, como se não bastasse, há a questão que atravessa todas as outras: a desigualdade. O Brasil não é apenas um país rico com problemas. É um país profundamente desigual que ainda tenta decidir o que fazer com sua própria riqueza. Uma minoria da população vive integrada ao século XXI, enquanto a imensa maioria espera o convite chegar pelo correio, que, como sabemos, não está em seu melhor momento. Nesse cenário, falar em “deslanchar” exige certo cuidado. Porque um país não decola de verdade quando apenas uma parte embarca e a outra fica segurando a escada.

Há, sem dúvida, uma janela de oportunidade. O mundo precisa de energia, alimentos e minerais estratégicos. O Brasil tem tudo isso. Talvez mais do que a maioria. Mas o século XXI não será decidido apenas por quem possui recursos naturais. Será definido por quem consegue transformar esses recursos em conhecimento, inovação e valor. Ou, em português claro, por quem transforma conhecimento antes de vender matéria-prima. E é exatamente aí que reside o nosso velho impasse. Temos o que o mundo quer, mas ainda não decidimos se queremos fazer algo melhor com isso.

Talvez o Brasil esteja, mais uma vez, diante da chance de fazer diferente. Mas isso exigirá algo que historicamente evitamos: investir de forma consistente no longo prazo, priorizar educação de verdade, tratar ciência como política de Estado e enfrentar a desigualdade não como discurso, mas como problema estrutural. Nada muito revolucionário. Apenas o básico — que, por aqui, ainda depende de vontade política, alguma sorte e um certo alinhamento cósmico.

Caso contrário, o risco é conhecido. Continuaremos com o motor ligado, o tanque cheio, a pista liberada e uma dificuldade quase artística de sair do lugar.

Há décadas repetimos, com uma mistura de esperança e resignação, que o Brasil é o país do futuro.

O futuro chegou. O Brasil pediu prorrogação.

Filinto Branco
cronista de ideias

Por Ultima Hora em 25/04/2026
Aguarde..