O dia em que o samba restaurou a democracia e a dignidade nacional

O dia em que o samba restaurou a democracia e a dignidade nacional

Não foi apenas Carnaval. Foi um enfrentamento. 

O que se viu nos desfiles de São Paulo e do Rio de Janeiro foi uma resposta direta a décadas de apagamento histórico, elitismo cultural e hipocrisia social. As escolas de samba fizeram o que muitos preferem evitar: colocaram o Brasil real no centro da cena. 

A Beija-Flor de Nilópolis, ao levar o axé do povo negro para Copacabana, rompeu a lógica do cartão-postal higienizado. A “princesinha do mar” foi atravessada por uma verdade que parte da elite insiste em ignorar: este país foi construído por mãos negras, por corpos periféricos, por saberes criminalizados e por crenças perseguidas. 

O samba não pediu autorização. Não buscou validação. Ocupou. 

Enquanto setores privilegiados ainda tratam cultura popular como folclore exótico ou entretenimento descartável, a avenida fez pedagogia pública. Deu nome aos invisibilizados. Reabilitou intelectuais silenciados. Reafirmou as matrizes africanas que moldaram a identidade nacional e que, durante séculos, foram alvo de violência institucional e social. 

O que incomoda não é a festa. O que incomoda é o protagonismo. 

Incomoda ver periferias produzindo pensamento. Incomoda ver terreiros sendo reconhecidos como espaços de conhecimento. Incomoda perceber que o país não cabe na fantasia eurocêntrica cultivada nos camarotes. 

A elite brasileira sempre tolerou o samba desde que ele permanecesse no lugar do entretenimento. O que ela não suporta é o samba consciente, o samba que denuncia, o samba que expõe privilégios históricos e desmonta a narrativa confortável de uma democracia racial que nunca existiu. 

Quando a avenida aplaude essas histórias, não está celebrando alegorias. Está fazendo política cultural em estado bruto. Está afirmando que a democracia não pode ser apenas formal, restrita às instituições. Democracia também é reconhecimento simbólico. É memória reparada. É voz devolvida. 

Naquele dia, o samba fez o que parte do poder não faz: reconheceu o Brasil como ele é — negro, plural, popular e insurgente. 

E ao reconhecer, restaurou algo essencial: a dignidade nacional. 

Não foi desfile.  

Foi disputa de poder. E o samba venceu

Barboza Jr - Jornalista Mtb 6783 

Por Ultima Hora em 22/02/2026
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