Assine nossa newsletter e fique por dentro de tudo que rola na sua região.
Maquiavel observava que homens que chegam ao poder pelas armas e fortuna alheias sobem com facilidade mas permanecem com dificuldade extrema. Faltam-lhes quadros leais e a estrutura de sustentação que só se ergue lentamente. O trono lhes cai no colo. O reino, não.
Foi impossível não pensar nisso ao acompanhar, no sábado, a convenção que oficializou Flávio Bolsonaro candidato à Presidência. O ginásio estava cheio, o presidente argentino Javier Milei subiu ao palco, o governador Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes emprestaram seus palanques paulistas, e um vídeo de Jair Bolsonaro gerado por inteligência artificial encarregou-se de suprir a ausência física do patriarca, inelegível e em prisão domiciliar. Houve som, houve luz, houve emoção genuína de militância. O que não houve, e a lacuna é bem mais grave do que a coreografia sugere, foi governo.
Flávio foi oficializado sem vice, e até 5 de agosto nada será definido. O Progressistas, União Brasil e Republicanos optaram por neutralidade ou apoio seletivo. Tereza Cristina recusou a vice. Daniella Marques discursou em destaque mas enfrenta resistência interna. Michelle, com quem o senador havia se reconciliado dias antes, não compareceu, deixando a expectativa de um vídeo.
O resultado prático dessa aritmética, amigo leitor, não é apenas simbólico. Sem coligação com partidos grandes, a candidatura perde tempo de rádio e televisão, perde capilaridade nos palanques estaduais e perde aquilo que em campanha presidencial vale tanto quanto dinheiro, a saber, gente com mandato disposta a repetir o nome do candidato em praça pública. Comparado a 2022, quando o pai levou o Centrão inteiro na garupa, o contraste é de uma crueldade quase didática.
Desde maio, revelações envolvem Flávio e Daniel Vorcaro, do Banco Master. Diálogos sobre financiamento do filme Dark Horse, visita em prisão domiciliar, ligações financeiras entre seu escritório e consultoria que recebeu repasses do banco. O senador insiste que tudo é legal e privado. A Genial/Quaest mostra Lula com quarenta por cento contra vinte e oito de Flávio no primeiro turno. Margem que permite reação, mas não mais semanas perdidas.
Some-se a inclinação recente de trocar moderação por ruído. O senador que se apresentava como o Bolsonaro que tomou vacina repetiu vê-se numa campanha formulada pela equipe de marketing político de Eduardo Fischer, publicitário que nunca liderou uma campanha eleitoral. Presente de Rogério Marinho, que parece apreciar as dancinhas da campanha.
Flávio não precisa de mais palanques. Precisa de um governo. Precisa apresentar, com nome e sobrenome, quem cuidará de economia, segurança, educação e política externa.
Em 2018, Jair chegou com oito segundos de televisão e repertório econômico rudimentar. Paulo Guedes funcionou como seu posto Ipiranga, o endereço único das respostas técnicas. Funcionou eleitoralmente porque provou que a revolta vinha acompanhada de competência.
Flávio precisa dos seus postos Ipiranga, no plural. Economistas para falar do gasto obrigatório e da dívida. Segurança que enfrente facções que administram territórios. Educação medida por criança que lê aos oito anos. Resposta madura para tarifas americanas. Escudos, gente com autoridade própria.
E um plano de governo de verdade, com metas datadas e responsáveis nomeados. Hoje seria um pequeno escândalo positivo. Sem quadros próprios, o que se elege é uma vitória que passa quatro anos negociando sobrevivência com o aparato que prometeu desmontar.
A vice precisa somar. Tempo de propaganda e palanque estadual não se compram avulso. Uma chapa puro-sangue agrada o núcleo familiar mas significa disputar com um braço amarrado.
Milei no Pacaembu é irônico. O argentino não venceu gritando alto. Venceu carregando uma escola econômica inteira, sabendo explicar em detalhe o que faria no primeiro dia. A direita continental copiou a estética e esqueceu a bibliografia.
Flávio tem até agosto para decidir qual herdeiro quer ser. O eleitor brasileiro já sabe contra o que está. O que não sabe, e ninguém se dispôs a explicar, é quem vai governar quando o ginásio apagar as luzes.
Marcos Paulo Candeloro é historiador, cientista político e especialista em gestão pública inovativa
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!