O tacanho relatório de Alessandro Vieira e o Umbral Lavajatista: como o senador se tornou o "Alexandre" da República, um obsessor das instituições

O tacanho relatório de Alessandro Vieira e o Umbral Lavajatista: como o senador se tornou o

O relatório final da CPI do Crime Organizado, apresentado pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE), configura um dos mais flagrantes desvirtuamentos da função investigativa do Congresso Nacional nas últimas décadas. Criada com o propósito de apurar a expansão de milícias e facções criminosas que assolam o país, a comissão encerrou seus trabalhos sem indiciar um único criminoso, sem identificar lideranças de organizações ilegais e sem desvendar qualquer rota do tráfico. Em mais de duzentas páginas, o documento abandonou sua missão constitucional para protagonizar uma tentativa grotesca de indiciar três ministros do Supremo Tribunal Federal e o procurador-geral da República – autoridades que, como qualquer operador do direito sabe, sequer podem ser alvo de indiciamento por uma CPI. Longe de cumprir seu dever institucional, o relatório a sabotou deliberadamente, transformando uma investigação sobre o crime que vitima brasileiros diariamente em palanque para ataques às instituições democráticas.

     A ironia histórica é que nem mesmo os jornalistas mais identificados com o auge da Lava Jato aderiram a essa farsa. Diferentemente do que ocorreu nos anos dourados da operação, quando amplos setores da imprensa funcionaram como caixa de ressonância acrítica das medidas da força-tarefa de Curitiba, o documento do parlamentar sergipano foi recebido com constrangimento e distanciamento até por aqueles que outrora aplaudiam qualquer iniciativa dirigida ao STF. A experiência amarga deixada pela Lava Jato – com suas condenações anuladas, provas adulteradas e métodos posteriormente declarados ilegais – produziu anticorpos no jornalismo brasileiro. O espetáculo de um senador eleito na esteira do antipetismo de 2018, que admitiu ter votado em Bolsonaro a despeito das “tentações autoritárias” do então candidato, e que agora tenta reeditar o mesmo manual contra o Judiciário, já não encontra o ecossistema de cumplicidade midiática de outrora. O canto do cisne do lavajatismo soa desafinado e solitário.

     O que explica, então, a insistência do relator nesse teatro de quinta categoria? A resposta reside no uso eleitoreiro das CPIs como trampolim para projetos pessoais de poder. A CPI do Crime Organizado foi instrumentalizada desde o início como plataforma de visibilidade para um senador que, a menos de seis meses das eleições, precisa desesperadamente de holofotes. O cálculo é cínico, mas não é novo: atacar o Supremo tornou-se ativo eleitoral valioso no ecossistema da extrema direita, uma forma de sinalizar à base bolsonarista que se está “enfrentando o sistema”. O autor do relatório não está investigando crime nenhum; está fazendo campanha. Seu documento não foi escrito para o Ministério Público nem para a história; foi concebido para as redes sociais, para os cortes de YouTube, para a militância digital que consome indignação fabricada como combustível político. A seletividade do texto é a prova mais contundente de sua má-fé: enquanto se esmerou em forjar ilações contra ministros da Suprema Corte, o relator convenientemente omitiu qualquer menção ou pedido de indiciamento de seu colega de partido, o governador Ibaneis Rocha (MDB-DF), figura central em inquéritos que apuram contratos suspeitos e relações promíscuas com o Banco Master. Om issão que expõe o caráter de perseguição pessoal e proteção corporativa do documento. O fato de a própria CPI ter rejeitado o relatório por seis votos a quatro apenas confirma que nem mesmo seus pares embarcaram na farsa.

     É impossível dissociar a trajetória do senador das origens que ele hoje tenta maquiar com uma pátina de “técnico isento”. Egresso da Polícia Civil de Sergipe, o parlamentar chegou ao Senado em 2018 como o “delegado do povo”, carregado pela mesma onda que elegeu bolsonaristas e lavajatistas país afora. É verdade que, ao longo do mandato, buscou construir uma persona de independência, chegando a tecer críticas contundentes à gestão de Jair Bolsonaro durante a pandemia da Covid-19 e denunciando a interferência indevida do então presidente na Polícia Federal. Contudo, essa aparente dissidência não resiste à prova do tempo e dos fatos. Assim como seu padrinho político informal, Sergio Moro, trata-se de um exemplar clássico do “morismo”: um liberal nas aparências que, diante da escolha entre defender a institucionalidade ou flertar com o golpismo para atingir adversários políticos, invariavelmente se une ao viés autoritário do bolsonarismo. Moro criticou Bolsonaro apenas quando foi traído em sua ambição pessoal de controlar a PF e ascender ao Supremo, mas sempre marchou ao lado do ex-presidente na erosão do sistema de justiça. O relator da CPI repete o mesmo roteiro: critica o ex-presidente em temas pontuais para preservar uma imagem de isenção, mas quando se trata de usar o poder do cargo para perseguir ministros do STF e desestabilizar a Corte, ajoelha-se no mesmo altar da extrema direita bolsonarista.

     O relatório rejeitado não é apenas uma peça juridicamente natimorta, como bem definiu o ministro Dias Toffoli ao chamá-lo de “excrescência”. É, sobretudo, o sintoma terminal de um projeto político que agoniza, mas se recusa a morrer. Desde 2019, com a famigerada CPI da Lava-Toga, Alessandro Vieira vem atacando as instituições de forma sistemática, aderindo publicamente ao impeachment do ministro Alexandre de Moraes e acumulando gestos de hostilidade ao Judiciário que agora culminam neste relatório da CPI do Crime Organizado – uma linha contínua de obsessão antijudicial que o revela não como um fiscal apartidário da República, mas como um militante da desestabilização. Aqui se impõe a mais precisa das metáforas: tal qual o espírito de Alexandre, na novela “A Viagem”, que vagava pelo Umbral cego à própria morte e obcecado em destruir os vivos, o espírito lavajatista continua perambulando pela sociedade brasileira como um obsessor coletivo – incapaz de perceber que já foi derrotado pelo Direito e pela história, mas ainda tentando, a cada relatório como esse, arrastar as instituições para o mesmo abismo de desordem e vingança de onde nunca conseguiu sair. O lavajatismo, como método de destruição institucional travestido de combate à corrupção, já não engana mais ninguém, ou quase ninguém. Sobrevive nos gabinetes de senadores como o autor dessa farsa, que insiste em reeditar uma fórmula que o Supremo já declarou ilegal e que a história já condenou. O verdadeiro crime organizado continua operando livremente nas fronteiras, nos portos, nas periferias, enquanto o relator da CPI que deveria enfrentá-lo prefere escrever ficções jurídicas contra ministros do STF e, simultaneamente, passar pano para os esquemas do correligionário Ibaneis Rocha com o Banco Master. Não é incompetência; é projeto. E o projeto é velho conhecido dos brasileiros: usar o poder do Estado para destruir instituições e, no vácuo da desordem, avançar sobre a democracia. O canto do cisne lavajatista pode ser o último, mas a melodia da destruição institucional que ele entoa continua perigosamente atual.

Por Futebol e Sociedade se discutem em 19/04/2026
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