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Partido de centro-direita escolhe independência no governo estadual, mas sinaliza pragmatismo na corrida senatorial: Crivella, Waguinho e nomes controversos ganham espaço na busca pela relevância política

O Republicanos, partido que reúne aproximadamente 280 mil filiados no Brasil e apresenta força institucional vinculada à Igreja Universal do Reino de Deus, encontra-se em posição singular nas eleições fluminenses de 2026. Enquanto o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) articula coalizão que incorpora MDB, PT, PSB e PDT — criando bloco de centro-esquerda — e o deputado Douglas Ruas (PL) consolida federação com PP e União Brasil no espectro conservador, o Republicanos permanece como ator não alinhado, cultivando a imagem de força independente capaz de negociar com ambos os lados conforme sua conveniência política. A estratégia, embora aparentemente de "terceira via", revela complexidade maior: o partido não apenas busca espaço próprio, mas pretende expandir sua presença parlamentar em contexto onde o voto evangélico segue sendo moeda de troca de alto valor.
A decisão de lançar candidatos próprios para o Senado — Marcelo Crivella e Waguinho — enquanto se mantém indefinido quanto ao governo estadual (suspendendo posição até decisão do Supremo Tribunal Federal sobre possível eleição suplementar) representa cálculo político sofisticado. Não é abdição de poder. É redistribuição estratégica de recursos políticos em tabuleiro onde as peças ganham ou perdem valor conforme contexto institucional.
Crivella: A Trajetória de Quem Transita Entre Mundos
Marcelo Crivella, hoje deputado federal pelo Republicanos após mandato como prefeito do Rio de Janeiro (2017-2021), enfrenta desafio não desprezível ao buscar o Senado. Sua trajetória política combina elementos que dificultam leitura única: foi ministro da Pesca no governo Dilma Rousseff (PT), carregando portanto credencial junto ao governo federal; mas, nos últimos anos, tem se deslocado significativamente para a direita, defendendo em plenário e redes sociais a anistia aos condenados pela tentativa de golpe de 2022-2023.
Essa oscilação não é inconsistência casual. Revela estratégia de sobrevivência política em contexto onde as fronteiras ideológicas se deslocam rapidamente. Crivella não precisa ser coerente com passado petista porque seu eleitorado potencial — base evangélica do Republicanos — o avalia menos por continuidade ideológica e mais por capacidade de representar valores que essa base julga importantes: tradicionalismo moral, resistência a agendas progressistas, identificação com pautas de segurança pública.
A candidatura de Crivella ao Senado ocorre em cenário onde duas vagas estão em disputa. Benedita da Silva (PT), aliada histórica de movimentos sociais e primeira mulher negra eleita senadora na história do Brasil, é candidatura consolidada no lado de Paes. Pedro Paulo (PSD), deputado federal e braço direito político de Paes, é outra possibilidade que ganha força. Pelo lado de Ruas, Márcio Canella (União Brasil), recém-desincompatibilizado da prefeitura de Belford Roxo, e o ex-governador Cláudio Castro (PL) — este último, contudo, inelegível conforme marcos legais vigentes — aparecem como opções.
Crivella entra nesse jogo não como favorito, mas como candidato viável. Sua força reside em: (1) estrutura institucional do Republicanos em base evangélica; (2) reconhecimento de nome pela população carioca; (3) capacidade de capturar voto que não se sente confortável nem com PT nem com bolsonarismo puro. É voto de "terceira opção", e esses votos, dispersos, frequentemente elegem senadores.
Waguinho: O Aliado de Lula que Fala Linguagem do Pragmatismo
Wagner dos Santos Carneiro, o Waguinho, ex-prefeito de Belford Roxo e assessor no PortosRio, apresenta perfil distinto. Sua aproximação com o governo Lula é factual e recente: sua esposa, Daniela Carneiro, foi nomeada ministra do Turismo em 2022, sinalizando inserção direta em estrutura federal. Waguinho, diferentemente de Crivella, não transita entre mundos ideológicos. Ele escolhe um mundo: o do pragmatismo lulista.
Sua afirmação pública de não ser "petista nem de esquerda" mas apoiar Lula "pelas políticas públicas a favor do povo" é construção discursiva que, embora pareça contraditória, reflete linguagem típica de uma classe política que se identifica menos por ideologia que por acesso a recursos e influência. Waguinho articula discurso em que apoio a Lula não é adesão ideológica, mas reconhecimento de que este governo distribui oportunidades.
A Baixada Fluminense, de onde Waguinho emerge, é território refratário ao petismo. Os números eleitorais dos últimos anos mostram que a região, apesar de historicamente pobre e estruturalmente carente, vota majoritariamente em candidatos de direita e extrema-direita. Waguinho, portanto, realiza ato de relativa coragem política ao se apresentar abertamente como apoiador de Lula em circunscrição que rejeita o presidente. Seu capital político — a esposa ministra, acesso a Brasília, promessas de investimento federal — justifica esse risco.
A candidatura de Waguinho ao Senado representa, também, reconversão de trajetória. Inicialmente apresentado como pré-candidato ao governo estadual (março de 2026), Waguinho estava disposto a "dar palanque a Lula", conforme seus próprios termos. Contudo, a estratégia do Republicanos de manter-se indefinido quanto ao governo criou espaço para que Waguinho se realocasse. A candidatura senatorial oferece visibilidade comparável, com menor risco de derrota — senadoria comporta múltiplos candidatos, enquanto eleição para governador é binária.
A Indefinição Estratégica sobre o Governo Estadual
O Republicanos afirma que decidirá sobre candidato próprio ao governo "após a decisão da Justiça sobre eleição suplementar". Esta afirmação contém verdade tática: o Supremo Tribunal Federal está deliberando se haverá eleição suplementar no Rio (cargo vago pela morte do governador Cláudio Castro em contexto de questões constitucionais) ou se se manterá sistema de indicação. Essa decisão de fato altera o tabuleiro político: eleição suplementar com voto popular muda geometria de coalizões; indicação mantém poder concentrado em estruturas legislativas.
Mas a indefinição também cumpre função política imediata: mantém ambos os pré-candidatos (Paes e Ruas) em cortejo permanente ao partido, oferecendo promessas de secretarias, recursos orçamentários, espaço legislativo. Enquanto o Republicanos não se define, ambos investem em sedução. Esta é forma de exercício de poder — não poder executivo direto, mas poder de negociação.
Os nomes ventilados para possível candidatura ao governo do Republicanos (Anthony Garotinho, Clarissa Garotinho, André Português, Ítalo Marsili) revelam, também, pragmatismo despido de qualquer ideologia consistente. Garotinho é figura espectral da política fluminense — ex-governador com passado controverso e afastamento da vida pública por período considerável. Sua filha, Clarissa, carrega sobrenome familiar mas não posição política claramente definida. André Português é ex-prefeito de município pequeno. Ítalo Marsili é médico e influenciador digital — categoria que ganhou espaço em campanha política brasileira recente, frequentemente como representante de "outsider" ou "novo".
A variedade de nomes — que inclui figura espectral do passado (Garotinho), herdeiro familiar (Clarissa), político local (André Português), e celebridade digital (Ítalo Marsili) — sugere que o Republicanos ainda não tem claro em que base eleitoralmente viável se sustentaria candidato próprio ao governo. Daí a menção a "pesquisas mais para frente" feita por Marcos Pereira, presidente nacional. Pesquisas são, em linguagem política, forma de adiar decisão.
O Poder Evangélico como Moeda de Troca
Subjacente a toda essa estratégia está o fato de que o Republicanos, por sua ligação institucional com a Igreja Universal, controla acesso a base eleitoral significativa. Estimativas sugerem que o voto evangélico representa, em Rio de Janeiro, percentual considerável da população — aproximadamente 30-35% conforme pesquisas recentes. Nem todo evangélico vota igual, mas a Igreja Universal possui estrutura capilar (templos espalhados em periferia urbana) que lhe permite mobilizar eleitores com eficiência rara em outras estruturas políticas.
Essa base evangélica não é monolítica. Há evangélicos que votam em Lula, há que votam em Ruas, há que se importam mais com pautas morais que com posição econômica. Mas a Igreja Universal, como instituição, mantém proximidade com eleitores que valorizam tradicionalismo, desconfiam de pautas identitárias de esquerda, e frequentemente enfrentam condições de pobreza que lhes faz oscilar entre assistencialismo de direita e promessas de distribuição de esquerda.
O fato de Douglas Ruas (PL) ter "prestigiado no Maracanã um evento da Igreja Universal" conforme relata a notícia, é evidência de que ambas as coalizões (Paes e Ruas) reconhecem o valor dessa base. O Republicanos, portanto, não barganha apenas nomes ou espaço legislativo. Barganha acesso a máquina de mobilização que pode deslocar milhares de votos em determinada direção. Isso confere ao partido peso político que transcende seu tamanho parlamentar formal.
O Senado como Palco de Negociação Viável
A escolha de lançar Crivella e Waguinho para o Senado, mantendo-se indefinido sobre governo, revela inteligência política. O Senado oferece vantagens que a governança estadual não oferece: múltiplas candidaturas viáveis (duas vagas em jogo), menor risco de derrota (basta superar terceiro lugar), autonomia maior (senadores não dependem de máquina administrativa municipal ou estadual para sua imagem pública da mesma forma que governadores), e, crucialmente, visibilidade e poder em esfera federal onde o Republicanos também atua.
Um senador pelo Republicanos teria voz em votações de interesse do partido — pautas sobre liberdade religiosa, conflitos com movimentos sociais, questões morais. Essa capacidade de influir em esfera federal supera, em alguns aspectos, capacidade de governador estadual confinado em gestão de estado-membro.
A indefinição sobre governo, portanto, é racional. Aguardar pesquisa, aguardar decisão do STF, aguardar movimento de Paes e Ruas — tudo isto compra tempo e informação. Quanto mais tarde o Republicanos se define, mais claro fica qual coalização oferece melhor retorno. E se nenhuma oferecer retorno adequado, o partido mantém opção de lançar candidato próprio que, ainda que derrota, confere visibilidade e mantém independência.
Marcelo Crivella e a Questão da Anistia aos Golpistas
Um ponto merece destaque particular. Crivella, defendendo em plenário a anistia aos condenados pela tentativa de golpe de 2022-2023, posiciona-se de forma claramente alinhada com ala mais radicalmente conservadora do espectro político. A defesa da anistia não é simples dissenso sobre política criminal ou política de reconciliação nacional. É posição que implica julgamento sobre tentativa de subversão da ordem democrática.
Essa posição de Crivella sugere que sua candidatura ao Senado não é apenas oportunismo eleitoral, mas também afirmação de posição ideológica específica dentro do conservadorismo. O fato de estar em partido de centro-direita não o impede de ocupar espaço mais radicalmente à direita quando conveniente. Esta é característica do Republicanos: heterogeneidade ideológica contida por vínculo institucional, não por coerência política.
Perspectivas de Viabilidade Eleitoral
A análise de viabilidade das candidaturas revela cenário complexo. Crivella entra como candidato conhecido, com base evangélica, mas sem entusiasmo visível. Sua gestão como prefeito (2017-2021) não deixou legado de admiração generalizada. Waguinho entra como aliado de Lula em circunscrição (Baixada Fluminense) que rejeita Lula, o que constitui risco, mas também oportunidade — em eleições polarizadas, votos minoritários frequentemente elegem senadores.
Ambos enfrentarão competição intensa. Benedita da Silva, ainda que com base reduzida (movimento social historicamente progressista), carrega simbolismo significativo. Pedro Paulo, como braço direito de Paes com máquina municipal, possui recursos de campanha. Márcio Canella, recém-desincompatibilizado de prefeitura bolsonarista, terá acesso a estrutura municipal. Cláudio Castro, inelegível, deve sair da disputa.
Em cenário de fragmentação com múltiplos candidatos, vence frequentemente quem consegue concentrar maior percentual de votos em base social específica. Crivella e Waguinho, ambos com bases identificáveis (evangélica e lulista respectivamente), têm chance real.
O Significado Político Maior
O posicionamento do Republicanos nas eleições fluminenses de 2026 revela dinâmica mais ampla da política brasileira contemporânea: fragmentação de coalizões tradicionais, multiplicação de atores relevantes, e capacidade de partidos médios exercerem poder desproporcional por sua posição em eixo de negociação entre forças maiores.
O Republicanos não vencerá eleição para governador se lançar candidato próprio. Mas também não necessita vencer para ser relevante. Relevância está em ser negociado, cortejado, oferecido espaço. E isso, o partido consegue fazer com eficiência. Sua candidatura ao Senado é forma de manter visibilidade e poder de barganha mesmo que não alcance governadoria — e possivelmente porque não alcançará.
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