Piloto expõe voos de esquema do PCC, diz que transportou Toffoli e volta a citar políticos

Mauro Mattosinho transportava regularmente uma dupla que, segundo a PF e o MPSP, liderava um mega-esquema de lavagem de dinheiro que atendia ao PCC

Piloto expõe voos de esquema do PCC, diz que transportou Toffoli e volta a citar políticos

Mauro Caputti Mattosinho, 38 anos, piloto que transportava regularmente uma dupla que, segundo o Ministério Público de São Paulo e a Polícia Federal (PF), liderava um mega-esquema de lavagem de dinheiro que atendia ao PCC, concedeu, nesta quarta-feira (4), uma entrevista exclusiva ao ICL Notícias – 1ª edição.

Mattosinho trabalhava na empresa Táxi Aéreo Piracicaba (TAP) onde atuava como piloto de Roberto Augusto Leme da Silva, Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”, apontados, pelo Ministério Público de São Paulo e a Polícia Federal, como chefes do esquema criminoso do PCC que envolve a gestão de fundos de investimentos na Faria Lima para lavagem de dinheiro do crime organizado e fraudes fiscais bilionárias no setor de combustíveis.

Piloto Mauro Caputti Mattosinho (Foto: Reprodução)

Em 2025, Mauro Mattosinho denunciou ao ICL que o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, está entre os verdadeiros donos de quatro dos dez jatos executivos operados pela empresa de táxi aéreo. Mattosinho denunciou, ainda, ter transportado em voo uma sacola de papelão que aparentava conter dinheiro vivo, na mesma data em que Beto Louco mencionou a outros passageiros que teria um encontro com o senador Ciro Nogueira (PI), presidente nacional do PP.

Em entrevista ao ICL Notícias nesta quarta, Mauro Mattosinho relatou a sua rotina após a PF deflagrar a Operação Carbono Oculto, que teve como alvos Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo. “Quando a operação Carbono Oculto é deflagrada, eu tinha ido, no dia anterior, para Punta Del Leste, no Uruguai, com a família do Roberto (Beto Louco)”, disse o piloto.

“Minha vida mudou completamente. Eu, infelizmente, me mantenho muito longe, preciso me manter dessa forma, vivo em moradia itinerante, vario meu local, cidade, estado e país ao longo do tempo. Inicialmente, não tive nenhum tipo de apoio, nenhum tipo de interesse demonstrado por políticos, até consigo compreender que havia necessidade dessas pessoas entenderem quem sou eu. Agora, passada bastante água por baixa dessa ponte, existem diversos mandatos, de deputados e senadores, que fizeram contato comigo, interessados em me ouvir e saber detalhes do que vivi no meu trabalho”, completou.

Na entrevista, Mauro Mattosinho reafirmou o relato de que Dias Toffoli, ministro do Supremo Tribunal Federal, teria viajado em um jatinho associado a Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco. O ministro do STF viajou duas vezes no mesmo dia no jato de prefixo PR-SMG, de acordo com relato do piloto Mauro Caputti Mattosinho ao ICL Notícias. A aeronave é operada pela TAP (Táxi Aéreo Piracicaba).

“Na minha rotina de voos, o nome do ministro aparece por volta do dia 20 de setembro de 2024, sou acionado para fazer um voo pelo proprietário da empresa, que me pede que, no dia seguinte, eu fizesse um voo para buscar um passageiro em Brasília, levar a Ourinhos e voltar para São Paulo. Quando eu chego em Brasília, quem embarca é o ministro Dias Toffoli e a gente segue até Ourinhos, onde há um helicóptero e a gente fica sabendo que teria sido enviado por um resort chamado Tayaya para levar o ministro até lá”, relatou Mauro.

“Naquele dia, o ministro chega a me convidar para ir até o resort, passar a tarde lá. Eu achei profissionalmente inadequado, fiquei no aeroporto e voltamos, ao final do dia, para a cidade de São Paulo. É nesse contexto que o ministro Dias Toffoli aparece na minha rotina e faz um voo na aeronave que pertencia ao Beto Louco e ao ‘Primo'”, completou.

Piloto expõe voos de esquema do PCC, cita Toffoli, Ciro Nogueira e Rueda e pode depor na CPMI do INSS

Dias Tofolli (Foto: Reprodução)

Mauro Mattosinho foi questionado pelo jornalista Leandro Demori, do ICL Notícias, se havia a possibilidade de fretamento do jato de prefixo PR-SMG, no qual viajou o ministro. Mauro afirmou confirmou a possibilidade, porém relatou que os voos fretados possuíam “uma série de requisitos a serem cumpridos” e um rito próprio, o que não teria ocorrido.

“Esse avião que eu pilotava, principal de uso do Beto e do Primo, pode ser fretado para taxi aéreo, porém quando é fretado, existe uma série de requisitos a serem cumpridos, inclusive um contrato bastante extenso e minucioso do serviço de prestação de voo de fretamento. Acho que é muito fácil e tranquilo a empresa e o próprio ministro apresentar o contrato de fretamento”.

“Pelos padrões de acionamento, de como eu sou chamado, aquele voo ocorre no padrão que somos acostumados para voos solicitados pelo Beto e pelo Primo. Eram voos acionados diretamente pelo Epaminondas, dono da empresa, que entrava em contato comigo e assim aconteceu no voo que levou o ministro Dias Toffolli. Fosse um voo de mercado, geralmente o procedimento acontecia via comercial da empresa, e não através do proprietário que atendia solicitações diretas do Beto e do Primo”, completou.

Nesta terça-feira (3), o deputado federal Rogério Correia (PT-MG) apresentou requerimento à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS solicitando o convite do piloto Mauro Caputti Mattosinho para prestar depoimento ao colegiado. O objetivo é esclarecer informações relacionadas ao esquema de desvios que atingiu aposentados e pensionistas do INSS e colaborar com informações que possam aprofundar as investigações em curso.

A CPI quer detalhes de voos feitos com o empresário Danilo Berndt Trento, investigado pela Polícia Federal no inquérito que apura o desvio de dinheiro de aposentados. Em 2021, Trento foi indiciado pela CPI da Pandemia.

Ao ICL Notícias, Mauro Mattosinho respondeu o que pretende falar à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. “O deputado Rogério se interessa bastante pelo Danilo Trento, que já foi ouvido pela CPMI e em outra envolvendo fraude de vacinas. O Danilo era um passageiro habitual na minha rotina, frequentemente pegava caronas em voos de Brasília para São Paulo na aeronave do Beto. Eventualmente, eu atendia voos ligados aos interesses dele, em que levávamos ele ou convidados. Acho que vai ser muito importante e esclarecedor entrar nos detalhes dessa rotina de voos do Danilo”.

“Há uma parte interessante no convite que o Rogério me faz porque é mencionado que a PF haveria me identificado em um contexto no Aeroporto de Congonhas, onde eu ajudava um dos suspeitos e investigados na fraude do INSS a carregar bagagens. Não sei quando a polícia me viu, mas acho que vai ser muito interessante entender qual conteúdo, se são câmeras ou fotografias, porque se a PF me viu embarcando com esse passageiro, certamente teve acesso a imagens que mostram outros passageiros que poderão ser desvendados para que os brasileiros possam entender do que se trata a rotina nessa aviação executiva”, concluiu.

Durante a entrevista, Mauro Mattosinho reafirmou a denúncia de que o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, seria um dos verdadeiros donos de quatro dos dez jatos executivos operados pela empresa de táxi aéreo.

“Nos meses mais recentes, a empresa inicia uma segunda etapa de um boom de crescimento. Não é comum nessas empresas um crescimento de frota exponencial. A frota da empresa quase dobrou de tamanho. O Epaminondas me apresentou as novidades da empresa e expressou, literalmente, que um grupo formado pelo ‘Ruedinha’, pelo Danilo Trento e pelo Cesar Asfor Rocha estaria completando seu movimento de investimento na empresa com uma nova aeronave e um hangar próprio no Aeroporto de Brasília. Esse foi o último movimento desse grupo dentro da TAP, antes do meu depoimento vir à público”, explicou.

“O Epaminondas, proprietário da TAP, me comunicava abertamente os movimentos conduzidos pelo Rueda, Danilo Trento e pelo Cesar Asfor Rocha. Com bases nessas conversas, foi que eu entendi que se tratavam de aeronaves de propriedade dessas pessoas”, completou.

Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa do Supremo Tribunal Federal afirmou que recebeu a solicitação de posicionamento do ministro Dias Toffoli e que retornará caso haja resposta. O espaço segue aberto para manifestação.

Por Ultima Hora em 04/02/2026
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