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O PARADOXO DO PATRIMÔNIO: RIO DESAPROPRIA IMÓVEIS PRIVADOS ENQUANTO PROMOVE LEILÃO BILIONÁRIO DE BENS PÚBLICOS
Gestão municipal enfrenta críticas por avançar sobre a propriedade privada para garagens de ônibus ao mesmo tempo em que tenta arrecadar R$ 2,5 bilhões com a venda de sedes e terrenos históricos
O avanço sobre a propriedade privada
A cidade do Rio de Janeiro vive um momento de profunda tensão jurídica e social com a implementação do Decreto 57.828, assinado em 6 de abril de 2026.

A medida autoriza a desapropriação de diversos imóveis privados para a construção de garagens destinadas ao sistema de ônibus municipal. Proprietários e especialistas criticam o que chamam de "preço vil" oferecido pela prefeitura, alegando que as indenizações estão muito abaixo do valor de mercado praticado nas regiões afetadas.
O movimento da prefeitura é visto como uma intervenção estatal agressiva, que ignora o direito constitucional à propriedade em nome de uma utilidade pública questionável. Críticos apontam que a pressa em assumir esses terrenos atropela o diálogo com a sociedade civil e gera insegurança jurídica para investidores e moradores. O impacto é sentido especialmente em áreas onde o comércio local e residências históricas dão lugar a pátios de manobra e estruturas de concreto.


O leilão bilionário do patrimônio público
Em uma direção diametralmente oposta, a Câmara Municipal avança com o Projeto de Lei Complementar 93/2025, que autoriza a venda de 324 bens públicos. A lista inclui sedes administrativas, terrenos valorizados e até imóveis de relevância histórica, com uma estimativa de arrecadação que gira entre R$ 2 bilhões e R$ 2,5 bilhões. O objetivo declarado é reforçar o caixa municipal, mas a estratégia é classificada por movimentos sociais como um "saldão" irresponsável do patrimônio carioca.
A proposta de alienação em massa levanta dúvidas sobre a preservação da memória da cidade e a função social desses espaços. Ao se desfazer de ativos imobiliários estratégicos, o governo abre mão de reservas de valor que poderiam ser utilizadas para equipamentos públicos no futuro. A venda de sedes próprias pode, inclusive, gerar novos custos com aluguéis para a administração pública, criando um ciclo de despesa que compromete as próximas gestões municipais.


A transição política e a pressa arrecadatória
O cenário político agrava a percepção de urgência nas medidas. Eduardo Paes deixou o cargo em 20 de março de 2026, passando o bastão para Eduardo Cavaliere, que assumiu a prefeitura com o desafio de manter a estabilidade financeira em um ano eleitoral. A necessidade de liquidez imediata parece ditar o ritmo tanto das desapropriações quanto das vendas, em uma tentativa de entregar obras e equilibrar contas antes do pleito de outubro.
Essa transição de comando trouxe consigo uma aceleração nos processos administrativos que antes tramitavam com maior cautela. Observadores políticos notam que a gestão Cavaliere herdou compromissos vultosos e vê no leilão de imóveis a saída mais rápida para financiar o plano de metas estabelecido. No entanto, a velocidade com que o PLC 93/2025 tramita na Câmara Municipal levanta alertas sobre a falta de transparência e debate público adequado.
A contradição ideológica sob os holofotes
A grande questão que ecoa nos corredores do poder e nas ruas é a flagrante contradição ideológica da atual administração. Por um lado, o governo age com um rigor que críticos classificam como "comunista", ao desapropriar bens particulares de forma impositiva e com valores reduzidos.
Por outro, adota uma postura "capitalista" agressiva ao colocar o patrimônio público à venda para quem pagar mais, priorizando a arrecadação financeira sobre o interesse social.
Especialistas em direito administrativo questionam como o governo justifica a necessidade de tomar terras privadas para o serviço público enquanto, simultaneamente, se desfaz de terras públicas que poderiam servir ao mesmo propósito.
Essa ambiguidade política gera um desgaste na imagem da prefeitura, que parece flutuar entre o estatismo e o liberalismo conforme a conveniência do caixa, sem uma diretriz clara de planejamento urbano a longo prazo.
Blindagem na Barra e desapropriação no subúrbio: A face política do novo plano imobiliário do Rio
A articulação política na Câmara Municipal, liderada pelo presidente Carlo Caiado (PSD), resultou em mudanças significativas no texto original do leilão. Sob forte pressão de setores influentes, 52 terrenos localizados na Barra da Tijuca e no Recreio dos Bandeirantes foram retirados da lista de venda. A manobra é vista como uma proteção a áreas de alta valorização imobiliária, onde o impacto político da venda de terrenos públicos seria mais custoso para os parlamentares.
Enquanto a Barra e o Recreio garantem sua blindagem, imóveis em áreas menos favorecidas ou de menor peso político permanecem no alvo do leilão. Essa seletividade reforça a crítica de que a gestão do patrimônio não segue critérios técnicos, mas sim conveniências eleitorais. O contraste entre a proteção de certas áreas e a desapropriação implacável em outras evidencia uma desigualdade no tratamento dado aos cidadãos e ao território carioca.

Bio: Carlo Caiado Carlo Caiado é um político brasileiro filiado ao PSD, atualmente exercendo a presidência da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Com uma trajetória marcada pela forte atuação na Zona Oeste da cidade, Caiado consolidou-se como uma das principais lideranças legislativas do Rio, sendo conhecido por sua capacidade de articulação entre diferentes blocos partidários. Em sua gestão à frente do parlamento carioca, tem focado em pautas de modernização administrativa e desenvolvimento urbano, embora frequentemente se veja no centro de debates sobre a destinação de terrenos públicos e a regulação do uso do solo na capital fluminense.


O impacto social e a resistência civil
As empresas privadas prejudicadas, resistem a desapropriações e o COMUNISMO de um lado, e do outro lado os Movimentos sociais e associações de moradores têm intensificado os protestos contra o que chamam de desmonte da cidade e o CAPITALISMO SELVAGEM. Manifestações em frente à sede da prefeitura e audiências públicas esvaziadas marcam a resistência popular ao PLC 93/2025 e ao Decreto 57.828. O argumento central é que a cidade está sendo "fatiada" para atender a interesses imediatistas, sacrificando o bem comum em prol de uma contabilidade de curto prazo.
O desfecho dessa queda de braço definirá o modelo de gestão urbana do Rio de Janeiro para as próximas décadas. Se prevalecer a lógica atual, a prefeitura consolidará um precedente perigoso de avanço sobre a propriedade privada e liquidação de ativos públicos. O desafio para a sociedade civil e para os órgãos de controle, como o Ministério Público, será garantir que o interesse público não seja apenas um rótulo usado para justificar decisões puramente financeiras.
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Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
Antonio Lemos @djportugues
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Fontes: Diário Oficial do Município do Rio de Janeiro (Decreto 57.828/2026); Câmara Municipal do Rio de Janeiro (PLC 93/2025); Portal da Transparência da Prefeitura do Rio; Relatórios de Gestão Fiscal 2025-2026; Dados do IBGE sobre valorização imobiliária urbana.
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