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Intelectual Negro Defende Democracia e Critica Afastamento da Esquerda das Bases Populares

O professor doutor Ivanir dos Santos, uma das vozes mais respeitadas do movimento negro brasileiro e autor da série "Resistência Negra" da Globoplay, concedeu entrevista exclusiva ao Jornal Última Hora alertando para a necessidade urgente de os setores progressistas retomarem o diálogo com as bases populares. Durante conversa na biblioteca de Duque de Caxias, o babalorixá e doutor em História Comparada pela UFRJ fez críticas contundentes ao afastamento da esquerda das periferias e defendeu políticas culturais mais inclusivas.
Santos destacou que a carência das bases populares tem sido manipulada por correntes conservadoras que, paradoxalmente, são adversárias da própria existência dessas comunidades. "É importante que os setores progressistas da sociedade consigam voltar às suas bases, ouvir as bases, dialogar com essas bases", enfatizou o intelectual, demonstrando preocupação com o cenário político nacional.
O professor criticou duramente a concentração de recursos públicos culturais nas mãos de grandes empreendedores, em detrimento das manifestações periféricas. Segundo ele, grupos como casas de santo, comunidades de umbanda, folias de reis e expressões afrocatólicas populares ficam excluídos dos editais por não conseguirem se organizar formalmente para disputar verbas públicas. "Um dinheiro público não pode ser para uma minoria que produz cultura, mas para uma ampla maioria que consegue produzir cultura", declarou Santos.
Como exemplo dessa riqueza cultural invisibilizada, o babalorixá citou a recuperação do Mineiro Pau na favela do Morro do Mineiro Pau, em Santa Cruz, a partir de uma casa de santo. A manifestação cultural havia sido abandonada quando a comunidade se converteu ao evangelismo, mas foi resgatada através de pesquisa e trabalho de memória afetiva de um sacerdote que dançava a modalidade na adolescência.
Santos também fez uma defesa enfática do espaço democrático, contrastando com o período anterior de radicalização política. "O espaço democrático é fundamental. Foi preso, mas pode falar. Se fosse o contrário, nós não podíamos falar. Eles defendiam que nós não falássemos e nós defendemos que eles têm direito de falar", argumentou, demonstrando maturidade democrática ao defender o direito de expressão mesmo de adversários políticos.
Ao analisar o cenário nacional atual, o intelectual alertou que o aparente recuo de setores conservadores não significa o fim do sentimento antidemocrático. "Não quer dizer que esse sentimento está acabado. Não quer dizer que eles mudaram de posição, tem que prestar atenção nisso", advertiu Santos, pedindo vigilância constante dos setores progressistas.
O professor concluiu fazendo uma crítica ao que considera a principal falha dos partidos de esquerda: o afastamento das bases quando chegam ao poder. "Quando você mira num objeto de disputa eleitoral para ter uma bancada, para ter direito à verba eleitoral, alguma coisa está errada. Isso não é o fim", declarou, defendendo que o foco deve ser sempre um projeto político consistente, não apenas conquistas eleitorais.
Por Leo Mamoni -Jornalista
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