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Por Walter Felix Cardoso Junior
Se trocarem honra por conveniência, a hierarquia pode até permanecer — mas a alma do exército logo adoece.
Há críticas que nascem da raiva e da mágoa. Esta nasce, sobretudo, da tristeza — e também do esforço de compreender sem falsear. Seria cômodo descarregar sobre os generais toda a culpa pelo rebaixamento moral que tantos percebem hoje na vida nacional e, por reflexo, na vida militar. Mas isso seria simplificar demais. Os homens do topo não são apenas causa; são também consequência. Em larga medida, são frutos de um tempo em que a conveniência ganhou prestígio, a fibra rareou, a política capturou espaços vitais e o custo de resistir cresceu para quase todos.
Isso, porém, não os absolve. Ao contrário: justamente quando os tempos se tornam maus, a estatura moral dos que comandam passa a importar ainda mais. E talvez resida aí a parte mais triste de tudo: não apenas o fato de vivermos numa época de instituições cercadas, valores frouxos e narrativas interessadas, mas o de percebermos que muitos dos chamados a guardar o alto pareceram conformar-se com a corrente, em vez de enfrentá-la.
Há perguntas que não nascem dos livros, nem dos seminários, nem das boas fórmulas sobre Estado, poder e instituições. Nascem da vida vivida. Nascem da caserna, do tempo, da observação demorada de homens e de seus comportamentos. Nascem, sobretudo, quando a memória já não consegue proteger certas ilusões.
Uma delas me acompanha há tempos, como quem bate à porta sem pedir licença: como pode existir um exército em que parte significativa de seu generalato parece ter trocado o dever pela autopreservação? Não faço essa pergunta com gosto. Faço-a com desgosto contido. E talvez com uma infelicidade particular: a de quem acreditou de verdade. A de quem foi moldado para crer que, no topo da instituição, estariam os homens mais obrigados ao dever, à contenção moral, à coragem serena, ao senso de medida e à proteção daquilo que é maior do que eles mesmos.
Foi assim que muitos de nós entendemos a formação recebida na Academia Militar das Agulhas Negras. Não era perfeita, claro. Nunca foi. Mas havia nela uma exigência nobre. Ou, ao menos, assim a tomávamos. O Código de Honra do Cadete não nos era apresentado como peça decorativa. Lealdade, verdade, probidade, responsabilidade, coragem, disciplina, espírito de corpo, dignidade: tudo isso nos era oferecido não como ornamento retórico, mas como eixo de vida.
Aprendíamos, por palavras e por silêncios, que o chefe verdadeiro come por último. Que protege mais do que se protege. Que assume a parte amarga do ônus. Que não usa a instituição como escada para o próprio brilho. Ao contrário: aceita apagar um pouco do brilho pessoal para que a instituição não seja rebaixada à medida de sua ambição.
Foi nisso que muitos de nós acreditamos — e não faz tanto tempo assim. Talvez por isso doa tanto olhar para os anos recentes e perceber que, em certos andares altos da casa militar, alguma coisa se deformou gravemente. Não falo aqui de erro eventual, nem de fragilidade humana, nem de uma ou outra escolha discutível em conjunturas difíceis. Falo de algo mais fundo e mais feio: da instalação de uma lógica de autopreservação onde deveria haver grandeza. Falo do carreirismo tardio, da prudência interessada, do cálculo miúdo escondido sob linguagem elevada, do compadrio. Falo da biografia colocada acima da honra.
Mas talvez o mais justo seja reconhecer que essa deformação não nasceu apenas dentro dos quartéis. Foi sendo alimentada por um ambiente mais largo: por uma cultura política degradada, por mecanismos de cooptação e enquadramento institucional que, antes mesmo de certos governos, já vinham corroendo referências, achatando personalidades e premiando a adaptabilidade em detrimento da fibra. Em tempos assim, homens menores tendem a prosperar. E não seria intelectualmente honesto fingir que o generalato paira acima da época que o produziu.
Ainda assim, o fato de serem também produto do tempo não os inocenta. Antes, agrava o problema. Porque o posto continua sendo posto, a estrela continua sendo estrela e o dever continua sendo dever. Se é verdade que os tempos contribuem para fabricar homens de menor estatura moral, também é verdade que, nos momentos de maior pressão, a função do comando deveria ser precisamente a de resistir ao rebaixamento — e não a de acomodar-se a ele.
Quem viveu o bastante e conservou alguma franqueza interior sabe reconhecer os sinais. Eles não aparecem, em geral, com rosto grotesco. Ao contrário. Vêm bem uniformizados. Falam em equilíbrio, responsabilidade, patriotismo, moderação, estabilidade institucional. Tudo sempre muito sóbrio, muito limpo, muito tecnicamente justificável. Mas, não raro, por trás da compostura há apenas medo de perder espaço, apego ao cargo e ao posto, zelo excessivo pela própria imagem, indisposição para qualquer gesto que custe conforto, aplauso ou futuro.
E então começa a decadência que mais entristece: não a decadência material, mas a moral. Porque um general não é apenas um oficial que chegou ao último degrau. General é referência. Ensina até quando cala. Ensina até quando hesita. Ensina até quando se omite. E, quando seu exemplo passa a dizer que o essencial é proteger-se, blindar-se, atravessar a tormenta sem dano pessoal relevante, ele transmite à força inteira uma lição miserável: a de que o discurso do dever serve para os de baixo, mas o cálculo de conveniência é a regra dos de cima.
A instituição militar suporta muito. Suporta privações, missões ingratas, chefes imperfeitos, rotina dura, incompreensão dos civis, injustiças pontuais e até certas humilhações passageiras. O que ela não suporta sem adoecer é a corrosão persistente do exemplo. Porque, quando os homens do topo perdem altura interior, os de baixo continuam obedecendo, é verdade, mas já não obedecem do mesmo modo. A continência permanece, mas muda de alma. O respeito vira protocolo. A admiração recolhe-se. E a coesão, que antes tinha densidade moral, vai sendo substituída pela simples mecânica da hierarquia.
Quem passou décadas observando a instituição talvez reconheça isso sem dificuldade. De repente, começa a surgir aquele sentimento surdo, quase indizível, mas devastador: “eu não iria com este homem para uma guerra”. E, quando esse pensamento aparece em relação a quem deveria personificar o alto comando, algo de muito sério já se rompeu.
O mais aflitivo é que essa deformação costuma vir acompanhada de belas palavras. Fala-se de honra, desde que ela não cobre preço. Exalta-se coragem, desde que não seja coragem moral. Cobra-se lealdade dos subordinados, mas negocia-se a própria conforme o vento. Invoca-se a pátria, mas pensa-se na agenda. Evoca-se a instituição, mas protege-se antes o círculo, a conveniência, a posição, a narrativa confortável. E assim as estrelas deixam de apontar para o alto e passam a funcionar como espelho: refletem, não um ideal, mas o rosto daqueles que as carregam.
Não se trata de exigir santidade de ninguém. Homens são homens. Generais também têm medo, vaidade, ambição e limites. O ponto não é esse. O ponto é que, no topo, a pequenez deixa de ser apenas defeito pessoal: vira método. E, quando vira método, contamina o ambiente, rebaixa o comando e desorganiza silenciosamente toda a escala moral da instituição.
Talvez o mais doloroso, para muitos de nós, seja a sensação de termos envelhecido vendo coisas que jamais imaginávamos precisar ver. Cerimônias sem alma. Silêncios ensurdecedores. Premiações e condecorações a históricos inimigos das instituições. Prudências que cheiram a capitulação. Discursos corretos demais para serem honestos. Gestos de aparente normalidade em meio a um rebaixamento visível da vida pública e moral do país. E, pairando sobre tudo isso, a impressão amarga de que alguns dos que tinham o dever de elevar o padrão preferiram administrar a própria travessia. Não para proteger a instituição, mas para proteger a si mesmos dentro dela.
E talvez aí resida o ponto central. Não se trata de pedir heroísmo teatral, nem de fantasiar soluções simples para um quadro muito maior do que qualquer homem ou corporação. Tampouco se trata de ignorar que houve, antes e acima de muitos desses oficiais, um trabalho paciente de captura, condicionamento e neutralização de forças, instituições e partidos. Mas justamente por isso pesa mais a decepção: porque, chamados a guardar algum resto de altura, muitos pareceram conformar-se com a paisagem, adaptar-se ao arranjo e gerir a própria sobrevivência, em vez de sustentar, ao menos, a dignidade do posto.
Dói escrever isso. Dói porque não se trata de abstração. Trata-se da memória de uma crença. Trata-se de ver que aquilo que nos foi ensinado como centro de gravidade moral talvez tenha sobrevivido mais em muitos escalões intermediários — ou até em velhos coronéis e capitães já sem poder — do que em certas alturas oficialmente consagradas.
Ainda assim, é preciso dizer: não falo de todos. Seria injusto e intelectualmente preguiçoso fazê-lo. Ainda há homens corretos. Ainda há compostura, vergonha moral, senso de limite, respeito à legalidade e autêntica noção de serviço. Ainda há quem honre o posto sem transformá-lo em palco. Justamente por isso a crítica precisa ser feita. Porque o contraste existe. Porque a presença dos íntegros torna ainda mais visível a pobreza dos outros.
Nenhum exército começa a morrer apenas quando lhe faltam armas. Pode começar a definhar bem antes, quando lhe falta exemplo no topo. Pode conservar quartéis, ritos, regulamentos, desfiles, continências, insígnias e cadeias de comando, e ainda assim ir perdendo sua parte mais nobre. Porque um exército, no sentido alto da palavra, não é apenas uma estrutura armada. É uma contenção moral organizada. É disciplina submetida a um bem superior. É força limitada pela honra. É autoridade sacrificada ao dever.
Quando há generais que passam a pensar, antes de tudo, em si, a instituição não desaba de uma vez. Vai sendo traída aos poucos. Em pequenas omissões. Em cálculos discretos. Em prudências interessadas. Em silêncios bem penteados. Vai perdendo densidade. Vai trocando grandeza por esperteza. Vai ficando menos admirável, menos confiável, menos alta.
E talvez não haja sinal mais triste de decadência do que este: quando homens chamados a guardar o alto já não miram o alto. Miram o próprio espelho. No fim, a pergunta permanece. Já não como provocação. Quase como lamento de quem serviu e não desaprendeu totalmente a esperar grandeza: Como pode existir um exército em que parte significativa de seu generalato parece ter trocado o dever pela autopreservação? Pode ser um exército que ainda marche.?Pode ser um exército que ainda desfile.?Pode ser um exército que ainda ostente seus uniformes, preserve seus ritos e aparências e exiba suas insígnias e cerimônias.
Mas será, cada vez menos, um exército que mereça ser admirado — especialmente pelo povo de seu país.
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