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Por Jorge Tardin
Engenharia Jurídica
A multipropriedade reúne centenas de empreendimentos no Brasil, movimenta bilhões de reais por ano e consolidou-se como um dos segmentos mais dinâmicos do turismo nacional. Mais do que um modelo de negócios, tornou-se uma nova forma de ocupar destinos turísticos e distribuir o acesso ao patrimônio imobiliário.
Mas seu maior ativo continua ausente da maioria das planilhas.
O que realmente cria valor em um destino?
Depois de décadas estudando Direito Empresarial, Relações de Consumo, Governança Corporativa e Responsabilidade Civil, aprendi que contratos podem ser aperfeiçoados, ativos podem ser avaliados e empreendimentos podem ser replicados.
Foi vivendo Búzios que compreendi algo que nenhuma universidade havia conseguido me ensinar.
Ali descobri o verdadeiro significado das singularidades.
Compreendi que experiências não são produzidas por empreendimentos.
São construídas por comunidades.
Descobri que pertencimento não se compra, não se transfere por contrato e não pode ser importado.
Pertencimento se conquista.
Foi ali que passei a compreender o verdadeiro sentido do pertencimento buziano: uma inteligência coletiva capaz de transformar hospitalidade em confiança, confiança em reputação e reputação em desenvolvimento.
Talvez seja por isso que alguns destinos permaneçam extraordinários durante décadas, enquanto outros, mesmo sustentados por sofisticadas estruturas financeiras, jamais consigam reproduzir a mesma força.
A diferença raramente está no volume do investimento.
Está na capacidade de reconhecer que o maior ativo de um território foi construído muito antes da chegada de qualquer empreendimento.
Natureza.
Cultura.
Memória.
Relações de confiança.
Identidade.
Esses elementos não são externalidades do negócio.
São o próprio negócio.
O turista compra uma hospedagem.
O investidor compra um ativo.
Mas ambos retornam por aquilo que nenhuma planilha consegue medir.
Compra-se pela propaganda.
Volta-se pela experiência.
Permanece-se pela confiança.
Talvez essa seja a cadeia econômica mais sofisticada do turismo.
Sob essa perspectiva, a multipropriedade somente realiza plenamente sua função social quando também fortalece a função social do território que lhe dá sentido.
O empreendimento depende da comunidade.
Depende da paisagem.
Depende da cultura.
Depende da reputação construída por milhares de pessoas muito antes da chegada de qualquer investidor.
Por isso, o desafio nunca foi a chegada do capital.
Toda comunidade que deseja prosperar precisa de investimento, crédito e capacidade empreendedora.
O verdadeiro risco surge quando o capital passa a enxergar apenas aquilo que consegue contabilizar.
Quando deixa de compreender as singularidades do lugar que pretende valorizar, pode aumentar o valor financeiro de um empreendimento enquanto reduz, silenciosamente, o valor econômico do próprio destino.
Não porque invista.
Mas porque ignora justamente o ativo invisível que pretendia potencializar.
Quem compreende essa lógica investe em uma comunidade.
Quem não a compreende acredita estar adquirindo apenas um ativo imobiliário.
Essa diferença quase nunca aparece na planilha que aprova o investimento.
Mas aparece, inevitavelmente, no valor que o destino consegue preservar ao longo do tempo.
Porque o território deixa de servir ao empreendimento.
É o empreendimento que passa a depender do território.
E território não se fabrica.
Constrói-se.
Ao longo do tempo.
Com confiança.
Com pertencimento.
Com identidade.
Foi também em Búzios que aprendi a reconhecer uma figura quase sempre invisível.
Não ocupa cargos.
Não costuma aparecer nas fotografias oficiais.
Nem recebe homenagens.
Mas consegue reconhecer riqueza antes que ela tenha preço.
Protege aquilo que muitos enxergam apenas como detalhe.
Defende vínculos quando outros enxergam apenas indicadores financeiros.
Toda comunidade extraordinária conhece alguém assim.
Porque reputação não nasce de campanhas publicitárias.
Nasce da coerência entre aquilo que uma comunidade é e aquilo que entrega.
Capital comunitário gera confiança.
Confiança produz pertencimento.
Pertencimento fortalece a reputação.
Reputação atrai investimentos.
E investimentos que compreendem essa lógica produzem desenvolvimento.
Essa talvez seja a verdadeira engenharia do valor.
No fim, permanece a pergunta.
Quem paga a conta quando o capital deixa de compreender as singularidades do lugar que pretende valorizar?
Todos.
Perde o morador, que deixa de reconhecer seu próprio lugar.
Perde o investidor, cujo ativo perde diferenciação e valor no longo prazo.
Perde o turista, que encontra apenas mais um destino igual aos demais.
Perde o próprio destino.
E perde a sociedade, porque desperdiça um patrimônio coletivo que levou décadas — às vezes séculos — para ser construído.
Comunidades extraordinárias não prosperam apenas porque acumulam patrimônio.
Prosperam porque desenvolveram uma tecnologia social capaz de transformar identidade em desenvolvimento, pertencimento em reputação e reputação em prosperidade compartilhada.
O capital pode acelerar esse processo.
Mas somente quando compreende que o ativo mais valioso de um destino nunca esteve registrado na matrícula de um imóvel.
Sempre esteve na inteligência coletiva que tornou aquele lugar impossível de ser reproduzido.
Jorge Tardin
Engenharia Jurídica
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