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Por Jorge Tardin
Engenharia Jurídica
A política brasileira ganhou uma nova cena.
Um candidato à Presidência da República sobe ao palanque. Ao seu lado, está o presidente da Argentina. Num telão, surge o primeiro-ministro de Israel. Sobre toda a cerimônia paira a influência política de Donald Trump.
Não se trata de uma conferência internacional.
Trata-se de uma campanha eleitoral brasileira.
Javier Milei compareceu pessoalmente à convenção que lançou Flávio Bolsonaro candidato à Presidência. Benjamin Netanyahu enviou uma mensagem em vídeo. A candidatura procura, ao mesmo tempo, associar-se à força política de Trump e ao movimento conservador internacional que ele lidera.
A cena poderia ser lida apenas como demonstração de prestígio.
Talvez revele algo mais profundo.
Quando um candidato não consegue reunir todas as alianças de que precisa dentro do próprio país, pode tentar importar legitimidade.
Quando o apoio nacional é insuficiente, convoca-se o aplauso estrangeiro.
Trump fornece poder.
Milei fornece mobilização.
Netanyahu fornece simbolismo geopolítico e religioso.
E o candidato brasileiro tenta transformar esse capital internacional em voto doméstico.
O fenômeno não é irrelevante.
Um presidente estrangeiro não é um influenciador comum. Quando se manifesta, leva consigo o peso do Estado que representa, seus interesses econômicos, sua capacidade diplomática, sua estrutura de comunicação e sua posição no tabuleiro mundial.
Milei não veio ao Brasil como simples cidadão argentino.
Veio como presidente da Argentina.
Netanyahu não apareceu no telão como admirador particular de uma família política.
Apareceu como primeiro-ministro de Israel.
Trump não é apenas um ícone eleitoral.
É o presidente da maior potência militar e financeira do mundo.
O governo americano já empregou tarifas, sanções e pressão diplomática em meio aos conflitos com autoridades brasileiras. Integrantes de sua administração também buscaram aproximação com a família Bolsonaro, alimentando receios de interferência no ambiente eleitoral brasileiro.
É legítimo que líderes estrangeiros tenham preferências.
Mas há uma diferença entre preferência, apoio e intervenção.
Essa fronteira torna-se ainda mais delicada quando a influência externa não é apenas oferecida, mas procurada por atores nacionais.
O problema, portanto, não é somente que estrangeiros desejem influenciar o Brasil.
Nações sempre tentaram influenciar umas às outras.
O problema mais profundo é quando brasileiros passam a pedir, celebrar e utilizar essa influência como certificado de legitimidade.
A intervenção externa deixa de ser imposição.
Transforma-se em convite.
E aqui nasce um paradoxo desconfortável.
Os que mais proclamam a pátria procuram Washington para validar sua força.
Os que mais exaltam a soberania buscam Buenos Aires para impulsionar sua campanha.
Os que dizem colocar o Brasil acima de tudo recorrem a Jerusalém para ampliar sua autoridade política.
Pode haver algo menos soberano do que um patriotismo que precisa de fiador estrangeiro?
Nenhum país moderno vive isolado. Relações internacionais são indispensáveis. Cooperação, diplomacia e alianças fazem parte da vida das nações.
Mas uma coisa é estabelecer relações entre Estados.
Outra é transformar chefes de governos estrangeiros em personagens de uma eleição nacional.
Imagine uma assembleia de condomínio.
Os moradores precisam escolher o próximo síndico. Durante a reunião, aparecem, no salão, os síndicos dos prédios vizinhos. Um deles ocupa o microfone. Outro envia um vídeo. Um terceiro ameaça dificultar o acesso à rua caso determinado candidato não seja favorecido.
Mesmo que seus argumentos pareçam convincentes, uma pergunta se torna inevitável:
quem governa esse condomínio?
A política internacional funciona segundo interesses, não segundo gestos de amizade.
Trump apoia aliados porque isso aumenta sua influência.
Milei procura construir uma corrente regional que fortaleça seu próprio projeto.
Netanyahu aproxima-se de lideranças que podem apoiar suas posições diplomáticas e estratégicas.
Nada disso é necessariamente irracional.
Cada um age conforme os interesses que representa.
A questão é saber quem representará o interesse brasileiro.
Existe, aqui, uma assimetria fundamental.
O governante estrangeiro influencia, mas não paga a consequência.
Trump não suportará o desemprego causado por eventual conflito comercial com o Brasil.
Milei não responderá pelo impacto das decisões econômicas brasileiras.
Netanyahu não pagará pelos efeitos diplomáticos das escolhas feitas em Brasília.
Eles podem colher influência, alinhamento e vantagens estratégicas.
O risco fica conosco.
É a fórmula clássica de toda externalidade: alguém participa da decisão, mas transfere o custo para terceiros.
Isso explica por que a questão não deve ser tratada apenas como disputa entre Lula e Flávio, esquerda e direita, progressismo e conservadorismo.
O princípio precisa valer para todos.
Seria incoerente condenar a interferência de Trump, Milei ou Netanyahu e aceitar tranquilamente a atuação eleitoral de presidentes, governos, organizações ou fundações estrangeiras quando favorecessem outro campo político.
Soberania não pode depender da preferência do beneficiário.
Quando a influência externa ajuda nosso lado, costumamos chamá-la de solidariedade internacional.
Quando ajuda o adversário, chamamos de imperialismo.
Mas a engenharia é a mesma.
A democracia brasileira deve ser suficientemente madura para dialogar com o mundo sem terceirizar ao mundo a escolha de seus governantes.
A presença de líderes estrangeiros no lançamento de uma candidatura não é apenas um detalhe de campanha.
É o sinal de uma transformação silenciosa.
As eleições nacionais estão se tornando capítulos de disputas globais.
Candidaturas passam a funcionar como representações locais de movimentos transnacionais.
O palanque brasileiro converte-se em terminal de uma rede política cuja direção estratégica pode estar fora do país.
Hoje, essa influência chega por discursos, vídeos e fotografias.
Amanhã, poderá chegar por tarifas, sanções, plataformas digitais, financiamento indireto, desinformação, ataques cibernéticos ou pressão sobre setores econômicos estratégicos.
Toda interferência começa parecendo uma ajuda.
A dependência só aparece depois.
A história brasileira deveria ter nos ensinado que nenhuma potência estrangeira investe influência sem esperar algum retorno.
A conta pode não chegar durante a campanha.
Pode vir depois, na forma de alinhamento automático, concessões diplomáticas, dependência econômica ou perda gradual de autonomia decisória.
Trump defenderá os interesses dos Estados Unidos.
Milei defenderá os interesses da Argentina.
Netanyahu defenderá os interesses de Israel.
É exatamente isso que se espera deles.
A pergunta que resta é quem defenderá, acima de qualquer aliança ideológica, os interesses do Brasil.
Porque presidentes estrangeiros podem subir ao palanque, enviar vídeos, oferecer prestígio e ajudar a construir uma candidatura.
Mas, quando a influência se transformar em cobrança, a fatura não será enviada a Washington, Buenos Aires ou Jerusalém.
Chegará ao endereço de sempre.
Quem paga a conta é o povo brasileiro.
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