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Gen Marco Aurélio Vieira – julho 2026
[...] Te eonta legein [...] Contar o que foi
Heródoto
Na manhã de 26 de julho de 2012, entrei no restaurante do Hotel Hilton de Londres, buscando tomar um café longe da agitação e da mistura de idiomas que reverberavam no ambiente. Era véspera da cerimônia de abertura das Olimpíadas, e eu havia sido enviado pelo Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos Rio 2016 (COJO) como observador, experiência que serviria de preparação para minha futura função de Diretor Executivo de Operações.
Já na mesa, notei ao lado um senhor que me parecia familiar. Levei alguns minutos para identificá-lo: tratava-se de Henry Kissinger, ex-Secretário de Estado dos Estados Unidos, o homem que moldou a geopolítica do século XX. Coincidentemente, eu havia comprado no aeroporto seu livro Diplomacy para ler durante a viagem. Percebendo que dificilmente teria outra oportunidade, corri ao quarto para buscar o exemplar e pedir um autógrafo.
Kissinger, cordialmente, me fez sentar ao seu lado. Assinou o livro e conversamos por mais de meia hora. Demonstrou enorme simpatia pelo Brasil, pelos brasileiros e, para minha surpresa, também pelo futebol. Foi capaz inclusive de – com forte sotaque americano - recordar do ataque da seleção campeã do mundo de 1958: "Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo". Mas foram suas palavras finais que permaneceram comigo: " Conhecemos o Brasil dos esportes e da música. Olimpíadas são uma grande oportunidade de mostrar ao mundo planejamento e organização de alto nível. Em quatro anos, o Brasil será o palco do mundo."
Em 5 de agosto de 2016, o mundo viu a abertura dos Jogos Olímpicos do Rio: uma apresentação impecável, cujo brilhantismo e originalidade encantaram público e crítica. O êxito da cerimônia superou as expectativas, e marcou o início dos bons resultados de sete anos de intenso trabalho. Mais que tudo, foi também um alívio indescritível, e uma forte injeção de otimismo e autoconfiança: naquele momento o COJO venceu todas as incertezas dos meses anteriores.
Em abril de 2016, poucos dias antes do início do revezamento da Tocha Olímpica, a Câmara dos Deputados aprovara o prosseguimento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Em junho, faltando apenas 49 dias para a abertura dos Jogos, o governo do Estado do Rio de Janeiro decretou estado de calamidade pública em razão da grave crise financeira. As notícias que chegavam ao exterior eram desanimadoras. Multiplicavam-se previsões de fracasso, alimentadas por preocupações com a epidemia de Zika, de gripe H1N1, atrasos em obras, violência urbana, além das dificuldades políticas e financeiras. Houve momentos em que se cogitou até mesmo o adiamento dos Jogos. A pressão sobre organizadores, patrocinadores e fornecedores era enorme.
Contra todas as previsões pessimistas, a equipe do COJO soube manter a convicção na qualidade do trabalho, e jamais desistiu de entregar um evento à altura das capacidades brasileiras. Os números impressionam até hoje. O Rio recebeu aproximadamente 12 mil atletas de mais de 200 países. A segurança mobilizou 85 mil profissionais entre Forças Armadas, polícias e segurança privada. Mais de 190 instalações, incluindo arenas, aeroportos e portos, funcionaram de forma integrada durante o evento. Cerca de 6,6 milhões de pessoas compraram ingressos das competições, enquanto mais de cinco bilhões assistiram aos Jogos pela televisão ou por plataformas digitais. O Revezamento da Tocha Olímpica envolveu mais 12 mil condutores, percorreu 20 mil Km terrestres, 12 mil milhas aéreas, 329 municípios. Mesmo mídias internacionais tradicionalmente críticas reconheceram o êxito da organização.
Ao sucesso operacional dos Jogos somaram-se importantes transformações na cidade. A Barra da Tijuca recebeu melhorias viárias, além do Parque Olímpico e um Velódromo; Deodoro ganhou um moderno complexo desportivo e novos espaços de lazer; o Maracanã e o Engenhão foram revitalizados; a região portuária passou por ampla renovação, com o Porto Maravilha e o VLT; Copacabana consolidou sua imagem como palco dos esportes de praia; e a infraestrutura hoteleira foi significativamente ampliada.
O Brasil teve legados imateriais, também, como conhecimentos inéditos em organização de grandes eventos, logística de alta complexidade, gerenciamento de crises, segurança pública e tecnologias aplicadas às operações. Temas como acessibilidade, inclusão e sustentabilidade ganharam maior espaço nas políticas públicas e no planejamento urbano.
Naturalmente, os Jogos suscitaram críticas. O debate sobre os investimentos, estimados em cerca de R$ 40 bilhões, jamais foi pacificado, mesmo considerado o mais modesto das últimas edições olímpicas (Londres custou 12 bilhões de libras, Sochi 55 bilhões de dólares). Na realidade, o orçamento operacional dos Jogos, propriamente (cerca de R$ 12 bilhões), administrado pelo COJO, era proveniente exclusivamente de recursos privados (direitos de transmissão, patrocínios, ingressos, licenciamentos etc.), sendo o restante dos gastos decorrentes da chamada “Matriz de Responsabilidades”, compromissos firmados pelos governos, por ocasião da eleição do Rio, como sede dos Jogos.
Grande parte das críticas decorreu justamente da não concretização daquelas promessas pelo poder público, especialmente quanto aos chamados legados olímpicos, obras de infraestrutura e projetos ambientais, entre eles a despoluição da Baía de Guanabara. O descumprimento desses contratos acabou obscurecendo parte da percepção pública sobre os resultados alcançados.
Kissinger era um estadista, estava sempre à frente do seu tempo. E o Brasil projetou mundialmente planejamento, organização e operação – com sucesso – do maior evento logístico de "não guerra" do planeta – as Olimpíadas.
Dez anos se passaram. Muito além de uma grandiosa celebração esportiva, e da excelência das entregas inéditas, nossas Olimpíadas concretizaram a superação das adversidades de uma das maiores crises políticas e econômicas da história recente do país. E por dever de justiça, temos de reconhecer que Carlos Arthur Nuzman, Sidiney Levy, Leonardo Gryner, Agberto Guimarães, Rodrigo Tostes, Renato Ciuchini, Agemar Sanctos, Mario Andrada, Beth Lula, Patrícia Hespanha, Abel Gomes, Carla Camurati, juntamente com mais de 4 mil profissionais do COJO, e cerca de 70 mil voluntários, de fato surpreenderam o mundo, com os Jogos Olímpicos mais criativos, sustentáveis e seguros, daqueles últimos tempos.
O Rio de Janeiro não pode se esquecer de se orgulhar do que realizou. E a “roupa suja” das oportunidades perdidas, das obras inacabadas e dos “malfeitos” deve ser totalmente creditada à ganância e à miopia estratégica dos nossos governos e governantes. Não tínhamos estadistas, na ocasião: não temos, até hoje.
Gen Marco Aurélio Vieira
Foi Diretor Executivo de Operações dos Jogos Olímpicos Rio 2016
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