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Há um crime que nenhum código penal tipifica, mas que sustenta todos os outros: a banalização. É o momento em que uma sociedade deixa de se chocar. Quando o assalto vira “boletim de ocorrência de rotina”, o sequestro-relâmpago vira “azar”, o desvio de verba pública vira “assim é que funciona por aqui” — o crime deixou de ser exceção e passou a ser paisagem. E paisagem a gente não combate, só contorna.
O Brasil chegou a esse ponto. Não por acaso, mas por acúmulo: de impunidade, de naturalização do “jeitinho”, de um pacto silencioso entre quem rouba um celular na rua e quem desvia milhões de um fundo público — os dois apostam na mesma coisa, a certeza de que nada vai acontecer.
O que os números dizem
Os dados mais recentes confirmam essa mudança de padrão — não necessariamente de volume, mas de forma. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostra que o Brasil registrou mais de 830 mil celulares roubados ou furtados em 2025 — uma média de 95 aparelhos por hora. Ao mesmo tempo, os roubos com violência caíram em quase todas as categorias (veículos, transeuntes, comércio, residências), enquanto os furtos, que dispensam confronto direto, cresceram. O crime não desapareceu: ele mudou de estratégia, migrando para onde o risco de punição é menor.
O mesmo movimento aparece nos crimes patrimoniais digitais. Entre 2018 e 2024, a taxa de estelionatos registrados pela polícia cresceu mais de 400%, enquanto os roubos caíam pela metade no mesmo período. Uma pesquisa do FBSP em parceria com o Datafolha mostra que praticamente um em cada três brasileiros já sofreu um golpe digital com prejuízo financeiro direto — cerca de 56 milhões de pessoas — e que 83% da população teme ser vítima de fraude pelo celular ou pela internet. Os sequestros-relâmpago também voltaram a assustar: em São Paulo, a alta foi de 40% em 2025, espalhando-se por outras regiões do país.
No topo da cadeia, o quadro não é diferente. No Índice de Percepção da Corrupção 2025, da Transparência Internacional, o Brasil obteve apenas 35 pontos em 100 e ocupa a 107ª posição entre 182 países — repetindo, pelo segundo ano seguido, uma das piores notas da série histórica, iniciada em 2012.
O próprio relatório associa esse estágio à infiltração do crime organizado na política e ao enfraquecimento dos mecanismos de controle. Rua e gabinete, celular furtado e verba desviada, obedecem à mesma lógica: quando o custo de errado é baixo, o errado vira estratégia racional.
A raiz é cultural, não só policial
É tentador tratar isso só como problema de segurança pública — mais policiamento, mais câmeras, penas mais duras. Tudo isso importa, mas não explica por que a sociedade reage cada vez menos. A banalização do crime é, antes de tudo, um fenômeno de valores: naturalizamos o atalho, aplaudimos quem “se deu bem” mesmo sabendo como, confundimos esperteza com virtude. Criamos gerações que aprenderam, na prática, que a regra vale para quem não tem influência.
Essa cultura não nasce no crime organizado, nasce na escola que não forma para a cidadania, na educação financeira e cívica que inexiste, no exemplo público que despreza a transparência, na mídia que celebra o “malandro” antes de cobrar o infrator. Combater isso exige mudar o que ensinamos e o que celebramos — não apenas o que policiamos.
Cinco mudanças possíveis
1. Educação para a integridade desde a infância. Ética, cidadania e educação financeira precisam entrar na formação básica com a mesma seriedade que matemática ou português — não como aula avulsa, mas como parte da cultura escolar, integrando também experiências de economia criativa e vivência comunitária que aproximem o jovem de referências de trabalho e mérito.
2. Transparência radical no uso do dinheiro público. Dados abertos, auditáveis e comparáveis por município e por lei de fomento, com prestação de contas em linguagem acessível ao cidadão comum — não apenas a especialistas. O que não pode ser visto, não pode ser cobrado.
3. Consequência real, não apenas norma no papel. Punição menos sobre a intensidade do discurso e mais sobre a certeza da aplicação: processos mais rápidos, responsabilização de quem desvia recursos públicos com a mesma prioridade dada a crimes de rua.
4. Valorização pública do exemplo correto. Uma cultura muda quando o que é celebrado muda. Reconhecer publicamente gestores, empresas e cidadãos que atuam com integridade tem tanto peso simbólico quanto punir quem não atua.
5. Reconstrução do senso de comunidade. Muito do que sustenta a impunidade é o distanciamento entre vizinhos, entre cidadão e território. Espaços de convivência real — culturais, educativos, comerciais — recriam o vínculo social que torna o crime, de novo, uma exceção visível, e não um pano de fundo aceito.
Uma proposta em debate: “Sai Fuzil, Entra Brasil”
O tema também já entrou na disputa eleitoral do Rio de Janeiro. André Marinho, pré-candidato ao governo do estado pelo Partido Novo, apresentou o plano de segurança pública “Sai Fuzil, Entra Brasil”, elaborado com apoio de um “Super Conselho de Segurança” formado por especialistas em segurança pública, Justiça, estratégia militar e gestão policial — entre eles o jurista Rogério Greco, convidado para coordenar o grupo.
Em síntese, a proposta se apoia em cinco eixos: reforço da fiscalização nas fronteiras estaduais, para dificultar a entrada de armas e drogas; retomada de territórios hoje controlados por facções e milícias; combate às fontes de financiamento do crime organizado, mirando o dinheiro que sustenta essas estruturas; ampliação do sistema prisional; e valorização das forças policiais, como parte de uma reorganização institucional da segurança do estado.
É uma proposta focada, sobretudo, na ponta repressiva e institucional do problema — o enfrentamento direto ao crime organizado e ao esvaziamento de seu poder territorial e financeiro. Ela dialoga com o diagnóstico deste artigo na medida em que reconhece que rua e financiamento do crime são a mesma cadeia, mas também evidencia por que essa frente, sozinha, não basta: sem uma mudança simultânea de cultura e valores — na educação, na transparência do poder público, no que a sociedade escolhe celebrar —, a retomada de território tende a durar o tempo de um mandato, e não o de uma geração. Segurança pública eficiente e transformação cultural precisam caminhar juntas; uma sem a outra tende a produzir alívio temporário, não mudança estrutural.
O país que não aguenta mais
Ninguém deveria se acostumar a andar com o celular escondido, a temer o próprio carro parado no farol, a saber de cor quantos bilhões somem todos os anos sem explicação.
A banalização é confortável para quem se beneficia dela e corrosiva para todo o resto. Mudar essa cultura não é tarefa de um mandato, mas começa por decisões concretas: o que se ensina, o que se pune, o que se aplaude e o que se torna, enfim, imperdoável de novo.
Fontes: 20º Anuário Brasileiro de Segurança
Pública (FBSP, 2026); Pesquisa de Vitimização e Percepção sobre Violência e Segurança Pública (FBSP/Datafolha, 2025); Índice de Percepção da Corrupção 2025 (Transparência Internacional); coletiva de apresentação do plano “Sai Fuzil, Entra Brasil” e do Super Conselho de Segurança, julho de 2026.
Silvia Blumberg é professora, assistente social , pós-graduada em Economia Criativa e Desenvolvimento Sustentável.
Instagram: @silviablumberg2026
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