A política como ela é: os bastidores da sucessão no Rio de Janeiro em 2026

Enquanto o eleitor se distrai com o embate dos extremos, os donos do sistema articulam nos bastidores uma eleição que pode estar decidida antes do primeiro turno

A política como ela é: os bastidores da sucessão no Rio de Janeiro em 2026

Política não é para amador. A frase, repetida à exaustão nos corredores do poder, nunca fez tanto sentido quanto agora no estado do Rio de Janeiro.

O que se desenha nos bastidores da sucessão estadual de 2026 ultrapassa os limites de qualquer teoria da conspiração moderna. Maquiavel, o estrategista florentino que escreveu "O Príncipe" no século XVI, assistiria atordoado às camadas de complexidade que envolvem a disputa pelo Palácio Guanabara.

O cenário é de guerra de xadrez, não de campo de batalha. Cada movimento é calculado, cada peça tem função específica, e o eleitor, peão neste tabuleiro, é mantido distraído pelo imbecil dilema dos extremos, enquanto os verdadeiros donos do sistema arquitetam o resultado.

Eduardo Paes: a hegemonia que só uma hecatombe interrompe.

A eleição de Eduardo Paes ao governo do estado, segundo fontes que militam nos bastidores, só não ocorrerá daqui a três meses se uma hecatombe pairar sobre o Rio de Janeiro.

O ex-prefeito da capital, oficializado candidato pelo PSD em convenção realizada em 20 de julho no bairro de Botafogo, lidera todas as pesquisas com vantagem avassaladora.

Levantamento do GERP, divulgado em 21 de julho, mostra Paes com 40% das intenções de voto no cenário estimulado, chegando a 47% em determinados recortes.

A chapa, que tem Jane Reis (MDB) como vice e conta com Benedita da Silva e Pedro Paulo na disputa pelo Senado, reúne um arco de alianças que vai do MDB ao PT, passando pelo Podemos. Pesquisa Genial/Quaest já apontava Paes vencendo no primeiro turno em todos os segmentos analisados.

A vantagem é tão expressiva que o próprio sistema político já opera como se a eleição estivesse decidida. Os movimentos nos bastidores não miram derrotar Paes, mas sim negociar espaços no governo que virá.

A máquina de moer reputações: Douglas Ruas sitiado.

O deputado estadual Douglas Ruas (PL), atual presidente da Alerj e candidato apoiado por Flávio Bolsonaro, enfrenta uma campanha que está sendo minada mais rápido do que ele consegue se tornar conhecido. A máquina de moer reputações opera a todo vapor.

A campanha de Ruas sofreu golpe duro com o afastamento da Federação da União Progressista de sua chapa.

O movimento, que à primeira vista parece instinto de sobrevivência partidário, esconde a pressão do Planalto para inviabilizar o palanque de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro. A estratégia é clara: isolar o bolsonarismo no estado.

Pesquisa GERP coloca Ruas em terceiro lugar, com 11% das intenções de voto atrás até de Anthony Garotinho, que aparece com 15%. O UOL noticiou em 23 de julho que a candidatura de Garotinho "enfraquece ainda mais Ruas, candidato de Flávio" no estado. A fragmentação do campo conservador beneficia diretamente Paes.

O xadrez federal: condenações, prisões e desistências.

O movimento que inviabiliza o palanque bolsonarista no Rio não trata da eleição estadual, trata da nacional. Todos os instrumentos utilizados nesta empreitada são federais.

A condenação de Cláudio Castro, que renunciou ao governo para tentar uma vaga ao Senado, a prisão de Canela, a desistência de Rogério Lisboa, a aproximação de Paes e Dr. Luizinho, cada peça se encaixa em um quebra-cabeça maior. O Republicanos, partido que poderia fortalecer a oposição, vive um racha interno que beneficia o palanque governista.

O Correio do Povo noticiou em 23 de julho que o Republicanos cobra do PL uma aliança com Flávio Bolsonaro em troca de apoio à candidatura presidencial. A indefinição se estende aos dois pré-candidatos do partido ao Senado: o ex-prefeito de Belford Roxo, Waguinho, aliado de Lula, e o ex-prefeito de Miguel Pereira, André Português.

Garotinho: a ameaça que vem do passado.

A nova ameaça a Eduardo Paes vem do passado. Anthony Garotinho, ex-governador do Rio, foi escolhido pelo Republicanos para concorrer ao Palácio Guanabara. Sua candidatura, oficializada em 20 de julho, promete deixar a eleição, no mínimo, animada.

Garotinho ignorou as "pseudo maravilhas de Miguel Pereira" e empurrou para fora do jogo André Português, que era o pré-candidato do partido.

Está agora na marca do pênalti do Republicanos Nacional, aguardando a definição final. Sua entrada no páreo, segundo aliados, pode dividir votos e impedir uma definição antecipada da eleição, levando a disputa para o segundo turno.

O Diário do Rio de Janeiro noticiou que a candidatura de Garotinho "pode ajudar Douglas Ruas a levar disputa pelo governo do Rio ao segundo turno". A ironia é que Garotinho, que já foi um dos maiores adversários do bolsonarismo, pode se tornar o salvador da oposição.

O drama de André Marinho e o retorno de Sérgio Cabral.

A campanha ainda reserva espaço para a participação hilária, travestida de drama, de André Marinho (Novo), ex-bolsonarista como o pai, que se aventura como candidato a governador. Sua performance é comparada aos domadores de crocodilo da TV a cabo, um espetáculo que entretém, mas não convence.

Enquanto isso, nos bastidores, Sérgio Cabral, ex-governador que jamais perdeu a influência política, mesmo após condenações, busca desesperadamente eleger seu pupilo, Marco Antônio. O comentarista de cinema e vinho, como é conhecido nos círculos políticos, ainda opera nos corredores do poder com a habilidade de quem conhece cada engrenagem do sistema.

Onde está o povo neste tabuleiro?

As perguntas que ecoam nos bastidores são facilmente respondidas se unirmos os fatos e prestarmos atenção nos detalhes. O povo? Terá um feriado no dia 4 de outubro domingo, com proibição de consumo de bebidas alcoólicas até as 5 horas da manhã.

O eleitor é convocado a votar em um jogo cujas regras foram escritas muito antes de ele entrar no tabuleiro.

Enquanto uma camada menos pensante se distrai com o embate dos extremos, esquerda versus direita, Lula versus Bolsonaro, os verdadeiros donos do sistema arquitetam o cenário. E todos assistem atordoados.

Perfil Anthony Garotinho

Anthony William Garotinho Matheus de Oliveira é ex-governador do Rio de Janeiro (2003-2007), ex-prefeito de Campos dos Goytacazes e uma das figuras mais influentes e controversas da política fluminense.

Conhecido por sua habilidade de articulação nos bastidores e por previsões políticas que frequentemente se confirmam, Garotinho construiu carreira marcada por alianças pragmáticas que transcendem espectros ideológicos.

Em 2026, foi escolhido pelos Republicanos como candidato ao governo do estado, em movimento que promete reconfigurar a disputa eleitoral.

Sua trajetória inclui passagens por múltiplos partidos e participação em eleições presidenciais, consolidando sua reputação como um dos estrategistas mais experientes da política brasileira.

Ah! E o povo? Terá um feriado no dia quatro de outubro. Só avisando: é domingo e proibido beber até as 5 horas.  

Por Wagner D'Almeida, analista político. 

 

Por Ultima Hora em 25/07/2026
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