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Por Jorge Tardin
Engenharia Jurídica
Em 2026, após o esvaziamento da linha sucessória do Poder Executivo, o desembargador Ricardo Couto de Castro assumiu o governo do Estado do Rio de Janeiro. Foi a primeira vez, desde a redemocratização, que um magistrado ocupou a chefia do Executivo fluminense em caráter excepcional.
Esse é o fato.
Mais importante do que a excepcionalidade institucional foi a mudança de foco.
Depois de muitos anos discutindo apenas crise, o Rio voltou a discutir Estado.
Ao assumir o governo, Ricardo Couto recolocou no centro da administração pública conceitos que deveriam ser permanentes: responsabilidade fiscal, eficiência administrativa, planejamento, transparência e controle.
Pode parecer apenas uma agenda técnica.
Não é.
É uma mudança de incentivos.
Quando o Estado passa a premiar previsibilidade em vez de improvisação, o risco diminui, o crédito melhora, o investimento reaparece e a confiança começa a substituir a incerteza.
Responsabilidade fiscal, portanto, não é o destino.
É a infraestrutura institucional do desenvolvimento.
Mas o verdadeiro problema do Rio nunca foi apenas financeiro.
Foi histórico.
A transferência da capital para Brasília retirou do Estado parte de sua centralidade política. A fusão entre Guanabara e Rio de Janeiro, em 1975, resolveu uma divisão administrativa, mas jamais consolidou uma integração econômica, territorial e estratégica.
Cinquenta anos depois, ainda convivemos com regiões extraordinariamente ricas, porém frequentemente desconectadas.
Essa talvez seja a conta mais cara que continuamos pagando.
O desafio agora não é apenas reorganizar as contas públicas.
É impedir que um projeto de Estado seja interrompido a cada mudança de governo.
Essa é a tensão permanente entre o ciclo eleitoral, que pensa em mandatos, e o ciclo institucional, que precisa pensar em décadas.
Por isso, o maior legado da atual gestão poderá ser muito maior do que o equilíbrio das contas públicas.
Poderá ser a construção de uma Lei de Responsabilidade Fluminense.
Não para repetir a legislação nacional.
Mas para transformar planejamento, avaliação permanente, continuidade administrativa e governança em políticas de Estado.
Responsabilidade fiscal organiza o presente.
Arquitetura de Estado organiza as próximas gerações.
É exatamente aí que começa a missão do próximo governador.
Defendo que seu primeiro ato político seja apresentar uma verdadeira Declaração de Futuro do Estado do Rio de Janeiro.
Empresas possuem missão.
Universidades possuem planos estratégicos.
Países possuem símbolos nacionais.
Mas poucos Estados possuem uma declaração institucional capaz de orientar governos sucessivos.
O Rio precisa ter.
Minha proposta é reconhecer oficialmente o Estado do Rio de Janeiro como Capital Cultural, Turística e de Inovação do Brasil.
Não para disputar com Brasília sua condição constitucional de capital da República.
Mas para transformar em política pública aquilo que o mercado, a cultura e a própria sociedade já reconhecem.
O Mercosul possui tratados.
Possui instituições.
Possui órgãos administrativos.
O que ainda não possui é uma capital da experiência, da criatividade, da cultura e da inovação.
O Rio não precisa disputar essa função.
Basta exercê-la.
Poucos lugares concentram, simultaneamente, patrimônio cultural, turismo internacional, economia do mar, petróleo, universidades, centros de pesquisa, indústria audiovisual, biodiversidade, economia criativa e projeção global.
O problema nunca foi falta de ativos.
Foi falta de arquitetura.
A Região Metropolitana continuará como centro financeiro, cultural e internacional.
O Norte Fluminense consolidará energia, petróleo, gás e economia do mar.
O Médio Paraíba fortalecerá sua indústria, logística e tecnologia.
A Costa Verde e a Costa do Sol formarão um corredor internacional de turismo sustentável, hospitalidade, multipropriedade e economia azul.
E a Serra Carioca poderá tornar-se uma das marcas territoriais mais valiosas do Brasil.
O eixo Serra-Mar não é apenas uma rota turística.
É uma cadeia produtiva territorial.
Integrando Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo e os municípios serranos ao litoral, conecta vinicultura de altitude, cervejarias artesanais, cafés especiais, gastronomia regional, turismo rural, parques naturais, universidades, centros de pesquisa, startups, economia criativa e hospitalidade.
Quem ganha?
Ganham os hotéis.
Ganham as pousadas.
Ganham os restaurantes.
Ganham os pequenos produtores.
Ganham as vinícolas.
Ganham as cervejarias.
Ganham as universidades.
Ganham as empresas de tecnologia.
Ganham as companhias aéreas.
Ganham os municípios do interior.
Ganham os trabalhadores.
E ganha o turista, que deixa de consumir destinos isolados para viver uma experiência territorial integrada.
Essa é a fusão que ainda falta concluir.
Não a fusão dos governos.
A fusão das oportunidades.
O Rio perdeu a condição de capital política em 1960.
Nada impede que, no século XXI, se consolide como a capital brasileira da cultura, do turismo, da inovação e da economia da presença e, ao mesmo tempo, como a principal vitrine da integração econômica e cultural do Mercosul.
Ricardo Couto poderá entregar um Estado organizado.
O próximo governador poderá entregar um Estado integrado.
Entre uma tarefa e outra existe uma diferença decisiva.
A primeira reorganiza o governo.
A segunda reorganiza o futuro.
Porque governos executam políticas.
Estados executam destinos.
Quem paga a conta?
Durante cinquenta anos, o contribuinte fluminense pagou a conta de uma fusão administrativa que nunca se transformou em integração econômica.
O empresário pagou com menor competitividade.
O trabalhador pagou com menos oportunidades.
O jovem pagou deixando o Estado em busca de perspectivas.
O interior pagou permanecendo à margem do desenvolvimento.
A responsabilidade fiscal começa a reorganizar as finanças.
A Declaração de Futuro pode reorganizar a direção.
Mas somente uma Arquitetura de Estado será capaz de atravessar governos sem abandonar o desenvolvimento.
Porque governos passam.
Instituições permanecem.
E sociedades prosperam quando conseguem transformar identidade em projeto, projeto em investimento e investimento em confiança.
Se isso acontecer, pela primeira vez desde a fusão de 1975, o Rio deixará de administrar a sua história para começar a escrevê-la.
Caso contrário, quem continuará pagando a conta será quem sempre pagou: o contribuinte, o empreendedor, o trabalhador e o jovem que procura, em outro Estado, o futuro que o seu deixou de planejar.
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