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Flávio Serafini (PSOL) aciona Justiça para obrigar instalação de comissão sobre o Banco Master, enquanto base de Cláudio Castro manobra para travar investigação
A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro vive um dos momentos mais tensos de sua história recente. Enquanto o estado afunda em uma crise econômica sem precedentes, com rombo bilionário nos cofres públicos e ameaça concreta de suspensão de pagamentos a aposentados e pensionistas, a base do ex-governador Cláudio Castro faz de tudo para evitar que uma CPI investigue o maior escândalo financeiro já registrado no Brasil.
De um lado, o deputado Flávio Serafini (PSOL), que reuniu 24 assinaturas — o número regimental exigido — para instalação imediata de uma CPI do Banco Master. De outro, a presidência da Casa, que simplesmente se recusa a publicar o ato e dar andamento à investigação. O resultado é um cabo de guerra institucional que já chegou ao Tribunal de Justiça e expõe a fragilidade das instituições fluminenses.
O rombo que cresce a cada semana
Os números são estarrecedores e só aumentam. O Tribunal de Contas do Estado (TCE) identificou que cerca de R$ 3 bilhões podem ter sido perdidos pelo estado em aplicações no Banco Master. A Polícia Federal, no entanto, já trabalha com um valor possivelmente superior: a nova fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 26 de maio, aponta que o rombo pode chegar a R$ 3,69 bilhões — segundo decisão do próprio STF que trata do caso.
Os recursos são do Rioprevidência, o fundo de aposentadoria e pensões do estado, e da Cedae. Ou seja, dinheiro dos servidores públicos e da população fluminense. O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, após a prisão de seu fundador, Daniel Vorcaro, revelando o que especialistas já descrevem como um esquema de pirâmide financeira, em que aplicações de novos clientes cobriam o déficit dos anteriores.
"Esse rombo de R$ 3 bilhões num estado quebrado como é o Rio de Janeiro faz muita diferença e pode, a qualquer momento, significar a suspensão do pagamento de aposentados e pensionistas", afirma Serafini. "A gente não vai aceitar isso."
A manobra do engavetamento
O deputado protocolou o pedido de CPI no início de maio de 2025, cumprindo todos os requisitos regimentais. Foram semanas de mobilização para reunir as 24 assinaturas. A expectativa era de que, cumprida a exigência, a CPI fosse instalada em 48 horas, como manda o regimento interno da Casa.
Não foi o que aconteceu. A presidência da Alerj simplesmente não publicou o ato de instalação. Depois de sucessivas cobranças formais — três ofícios, além de idas à tribuna —, Serafini acionou o Tribunal de Justiça do Rio para obrigar a instalação da comissão.
A resposta veio com uma manobra política: a Mesa Diretora informou que iria "desengavetar uma série de CPIs" que haviam sido protocoladas e não estavam em funcionamento. Com isso, criou-se uma fila artificial, retardando a instalação da CPI do Banco Master.
O TJ, no entanto, negou a liminar em 25 de maio, decidindo ouvir a Alerj antes de se manifestar. O deputado Anderson Moraes (PL) também protocolou um pedido concorrente de CPI sobre o mesmo tema, acirrando a disputa política.
"Eles estão acuados porque estão vindo vários escândalos de corrupção envolvendo o ex-governador Cláudio Castro", denuncia Serafini.
A perseguição política e a crise institucional
A entrevista revela um segundo front de batalha na Alerj. Parlamentares ligados ao ex-governador Cláudio Castro teriam iniciado um movimento para abrir comissão de ética contra a deputada Renata Souza (PSOL), num episódio que o deputado classifica como perseguição política.
"O que existe aqui hoje é uma tentativa dos deputados ligados ao ex-governador Cláudio Castro de criar um clima de animosidade. Estão querendo impedir a instalação da CPI, querendo rever a composição das comissões no meio da legislatura, o que não tem nenhuma base legal", afirma.
Para Serafini, o movimento é uma reação ao cerco que se fecha sobre o ex-governador. Cláudio Castro é alvo da Polícia Federal na Operação Compliance Zero, que investiga o desvio dos recursos do Rioprevidência para o Banco Master. Ex-governadores presos, deputados investigados, crise econômica — o cenário é de sítio institucional.
"O Rio de Janeiro não precisa disso. O Rio de Janeiro precisa de um debate político para nos tirar dessa crise que a gente tá envolvido. São deputados presos, ex-governadores cassados, investigados, crise econômica. A gente precisa construir uma saída."
A linha sucessória que ninguém respeita
A crise não se limita à CPI. A renúncia de Cláudio Castro em março de 2026 — para fugir da cassação — criou um vácuo de poder que até hoje não foi solucionado. O desembargador Ricardo Couto, presidente do TJRJ, assumiu o governo por decisão do STF, mas a disputa sobre quem deve ocupar o cargo continua.
O deputado Douglas Ruas (PL), recém-eleito presidente da Alerj, tenta na Justiça assumir o governo. O STF, porém, já negou dois pedidos. O ministro Luiz Fux manteve Ricardo Couto no cargo em decisão de 29 de maio, afirmando que há "determinação expressa do colegiado" e que a eleição de Ruas não altera o cenário.
Para Serafini, a situação expõe a degradação institucional do estado. "O normal seria o presidente da Alerj assumir. Mas a renúncia foi para fugir da cassação, a Alerj está desmoralizada, com ex-presidente preso. É isso que a gente precisa superar — o Rio de Janeiro não tem mais sequer uma linha sucessória normal. A linha sucessória é definida nos tribunais, tamanho a lama que a gente está afundado."
Por que a CPI é urgente
O deputado do PSOL defende que a CPI não é um instrumento de oposição, mas de defesa do estado. "A gente precisa entender o tamanho desse rombo até para instrumentalizar o governo do estado a atuar na Justiça junto ao Supremo para recuperar os recursos."
Para ele, a comissão parlamentar de inquérito é a maior contribuição que a Alerj pode dar neste momento. Em meio a trocas de agressões entre parlamentares e tentativas de perseguição política, há pautas estruturais sendo ignoradas — como a definição da linha sucessória, a recuperação dos recursos desviados e a garantia de pagamento dos servidores.
Enquanto o STF mantém Ricardo Couto no governo e o TJ avalia o pedido de instalação da CPI, o relógio corre para um estado que já não sabe mais se terá dinheiro para pagar suas contas no fim do mês.
Flavio Serafini — Niteroiense de 39 anos, casado e pai de dois filhos, Flavio Serafini é formado em Sociologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), onde atuou no Diretório Central dos Estudantes. Professor de Sociologia, foi pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz (EPSJV/Fiocruz). Sua militância começou aos 16 anos, na luta pelo passe livre e acesso à cultura. Foi um dos fundadores do PSOL em Niterói, presidindo o partido no município por duas gestões. Eleito deputado estadual em 2014 com 16.117 votos, foi reeleito em 2022 com 61.754 votos — o deputado mais votado do PSOL no estado. Preside a Comissão de Educação da Alerj e a CPI do RioPrevidência. É também titular das comissões de Meio Ambiente e Servidores Públicos. Recebeu da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) a Medalha José Bonifácio por sua atuação em prol da educação pública. Criou a Comissão Especial da Baía de Guanabara e a Frente Parlamentar em Defesa do Transporte Aquaviário. Preside ainda a Frente Parlamentar em Defesa da Saúde Mental e da Luta Antimanicomial. Em 2012, foi candidato a prefeito de Niterói, conquistando 18,5% dos votos sem financiamento empresarial. Atualmente preside o PSOL no estado do Rio de Janeiro.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
Por Robson Talber @robsontalber
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