Tenho pensado na velhice

Por Lívia Louvel

Tenho pensado na velhice

Há um silêncio que se instala quando os mais velhos partem — não é apenas a ausência de uma voz, mas o sumiço de um repertório inteiro de vida, de memórias e de conselhos que não voltam.

Nos últimos tempos, tenho presenciado histórias que, embora diferentes, convergem em um mesmo ponto: o fim da vida expõe o que foi construído ao longo dela. Alguns envelhecem amparados por uma rede de apoio calorosa; outros sustentam-se graças a uma previdência bem estruturada; há os que têm as finanças em ordem, mas enfrentam a solidão de uma casa vazia; e existem, ainda, os que não contam com nada — nem recursos, nem afeto, nem presença.

Esses retratos nos obrigam a uma pergunta inevitável: que futuro estamos desenhando para nós mesmos? Cada decisão cotidiana — como lidamos com o trabalho, o tempo, a saúde, o consumo e os vínculos — é um tijolo na fundação da velhice que nos aguarda. Seremos amigos do nosso “eu de amanhã” ou apenas cúmplices de uma pressa imediatista que gasta sem pensar, corre sem pausa e adia o inevitável?

Em meio a essas escolhas, temos também a dimensão material, sem a qual a autonomia se fragiliza. Previdência, investimentos, poupança: são instrumentos de proteção, não apenas para garantir renda, mas para preservar a liberdade dos vínculos. Sem independência, o afeto corre o risco de se confundir com dever. Com solidez material, o carinho tende a permanecer escolha — e, por isso mesmo, mais verdadeiro e alegre.

Mas existe uma dimensão que nenhuma previdência assegura: a dos laços. Contas equilibradas trazem conforto, mas não preenchem o vazio de uma casa silenciosa. Relações não se compram nem se decretam: são cultivadas como um jardim, gesto após gesto, ao longo de toda a vida. Envelhecer com dignidade é poder contar com presenças que permanecem, não por obrigação, mas porque desejam ficar. É ter ao redor vozes que quebram o silêncio, mãos que se estendem sem cálculos, companhias que aquecem o tempo lento dos dias. No fim, é essa trama invisível de afetos que sustenta a vida — mais do que qualquer reserva financeira.

 

Por isso, a provocação é dupla: que cultivemos disciplina para as finanças, mas também generosidade para os vínculos. Que aprendamos a preparar a velhice como se fosse uma obra inteira, feita de números, sim, mas também de gestos, palavras e presenças.

 

E não esqueçam: sedimentem amor, pois pior que uma conta vazia é o vazio da solidão — e este não é um conselho de economista.

Lívia Louvel é economista e escreve às quintas-feiras. Na coluna Perspectiva, traduz os movimentos da economia em análises que geram valor e orientam decisões.

 

Por Ultima Hora em 23/08/2025
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