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E se a Terceira Guerra Mundial não começar por ideologia, religião ou território, mas por algo muito mais banal e perigoso: a tabela periódica?
A obsessão de Trump pela Groenlândia não é de forma alguma orientada pelo turismo ou pelo mercado imobiliário. Não se trata de iglus, renas ou selfies heroicas sobre o gelo. O interesse é mais frio, mais discreto e infinitamente mais poderoso. É uma questão química. Mais precisamente, trata-se das chamadas terras raras, minerais associados à série dos lantanídeos, aquela faixa específica da tabela periódica que decoramos para a prova e depois esquecemos, certos de que jamais seriam úteis novamente.
Faço aqui uma confissão que beira o pecado acadêmico. Sou físico de formação, o que explica a arrogância juvenil que me levou, por anos, a tratar a química como uma ciência menor. Útil, necessária, quase doméstica, boa para explicar ferrugem, fermentação e talvez algum perfume francês, mas distante da elegância da física, ocupada com o cosmos e as leis fundamentais do universo. A tabela periódica, para mim, nunca foi um mapa do mundo, mas um álbum de figurinhas coloridas pendurado na parede da sala de aula, um objeto decorativo, não estratégico. Ledo engano. Ali, naquela estrutura aparentemente inofensiva, estavam os lantanídeos, ignorados por mim e por quase todo mundo, até o dia em que deixaram de ser curiosidade acadêmica e passaram a pesar mais do que discursos, alianças e tratados internacionais.
É justamente naquela faixa deslocada da tabela periódica, a série dos lantanídeos, que repousa boa parte do futuro. Elementos de nomes pouco carismáticos, difíceis de pronunciar e quase impossíveis de explicar num almoço de família sem soar pedante. Neodímio, disprósio, cério. Soam como personagens secundários de uma distopia de ficção científica, mas são eles que sustentam praticamente tudo o que define a vida contemporânea: smartphones, carros elétricos, turbinas eólicas, satélites, sistemas militares, drones, sensores, radares e, claro, o astro da vez, a inteligência artificial. Até os deuses digitais precisam de corpo. E esse corpo é feito de minerais como neodímio (Nd), disprósio (Dy) e outros. Sem eles, não há ímãs potentes, baterias eficientes ou chips confiáveis. O algoritmo mais sofisticado do planeta não flutua no éter. Ele precisa de matéria.
Aqui cabe um lembrete incômodo aos entusiastas do Vale do Silício. Hardware e software têm exatamente a mesma importância. Um não vive sem o outro. Não adianta um código brilhante se não houver material físico capaz de sustentá-lo. A inteligência artificial pode escrever poemas, prever comportamentos e simular consciências, mas sem lantanídeos ela não passa de uma apresentação elegante em PowerPoint.
É nesse ponto que a Groenlândia deixa de parecer uma piada e passa a fazer todo sentido. Sob o gelo, repousam reservas estratégicas desses elementos. Trump talvez não saiba localizar os lantanídeos na tabela periódica, mas reconhece instintivamente o cheiro do poder. Os Estados Unidos dominam o software, as big techs, os modelos de IA, mas dependem perigosamente de cadeias externas para o hardware. Sem acesso seguro a esses materiais críticos, o domínio tecnológico americano corre o risco de virar hegemonia temporária, dessas que acabam antes do discurso terminar.
Não por acaso, no aniversário de um ano de Donald Trump de volta à Casa Branca, o próprio presidente divulgou uma imagem, gerada por inteligência artificial, em que aparece fincando a bandeira dos Estados Unidos em solo groenlandês, como um explorador tardio que confundiu geopolítica com Banco Imobiliário. A placa cravada no gelo anuncia, com serenidade burocrática: “Greenland, US Territory, Est. 2026”. Não há povo local, não há tratado, não há negociação. Apenas a data. Quando o próprio autor publica a montagem, a ironia deixa de ser sátira e passa a ser método. A realidade vem depois do post.
Enquanto Trump governa por imagens, agora inclusive geradas por inteligência artificial, há quem prefira governar pelo tédio. Sem épicos visuais, sem bandeiras fincadas no gelo e sem necessidade de plateia. A China joga outro jogo: silencioso, paciente e pouco performático. Controla grande parte da produção e, sobretudo, do refino das terras raras, investiu pesado em infraestrutura, tecnologia e formação técnica e entendeu algo fundamental. No capitalismo digital, não manda apenas quem tem ideias brilhantes, mas quem controla os insumos que tornam essas ideias possíveis. Nenhuma revolução tecnológica acontece sem matéria-prima, nem mesmo as virtuais.
O Brasil surge nessa história como personagem paradoxal. O país possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China. Ainda assim, age como quem ganha na loteria e resolve gastar o prêmio em bilhetes de raspadinha, orgulhoso da escolha e disposto a repetir a aposta. Em vez de transformar lantanídeos em tecnologia, valor agregado e poder estratégico, insiste em exportar soja e milho, commodities respeitáveis, é verdade, mas incapazes de mover satélites, alimentar algoritmos ou impressionar inteligências artificiais. Vendemos grãos a granel e depois compramos chips a preço de joia. O futuro passa pelo subsolo, mas seguimos olhando para a lavoura, certos de que ela, sozinha, nos salvará mais uma vez.
No fundo, a disputa contemporânea não é ideológica. É periódica. Não se resolve em manifestos, mas em minas, refinarias e cadeias industriais. A velha divisão política perdeu utilidade diante de uma clivagem mais concreta, a que separa quem domina os átomos certos de quem apenas escreve discursos sobre eles. A tabela periódica, antes um enfeite escolar, tornou-se um mapa estratégico do poder global.
Talvez por isso eu insista tanto nos lantanídeos, e peço desculpas pelo vício vocabular. Eles simbolizam uma contradição deliciosa. São essenciais para a transição energética, para tecnologias “verdes” e para um futuro supostamente sustentável, mas sua mineração está longe de ser limpa ou romântica. Salvam o planeta no PowerPoint, enquanto o contaminam no chão da mina. Até a ecologia, ao que parece, precisa negociar com a tabela periódica.
Trump pode continuar tratando a Groenlândia como um tabuleiro improvisado. Eu, por minha vez, faço as pazes com a evidência dos fatos: no século XXI, a química não é coadjuvante da física, é sua cúmplice indispensável. Sem ela, não há ímãs, não há chips, não há inteligência artificial — apenas discursos bem articulados sobre um futuro que nunca chega.
Filinto Branco - cronista de ideias
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