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Você é o pirão… ou só o tempero?
Coluna do Prof. Jorge Tardin
Engenharia Jurídica
Jornal Última Hora
Selo Tar-Ehyeh — Engenharia Jurídica Aplicada
Em 29 de abril de 2026, o Senado rejeitou, por 42 votos contrários a 34 favoráveis, a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. A aprovação exigia 41 votos. Foi a primeira rejeição de um indicado ao STF em 132 anos.
O fato é maior que Messias. Maior que Lula. Maior que uma vaga no Supremo.
Ele mostra que senador não é figurante da República. Senador aprova ministro do STF, sabatina autoridades, controla parte decisiva da engrenagem institucional e permanece oito anos no cargo. Quem vota mal para senador entrega a chave da República por quase uma década.
A rejeição revelou o mecanismo: o Brasil não é governado apenas por quem vence a eleição presidencial. É governado também por quem controla o Senado, o orçamento, as emendas, os bastidores, os financiadores e as bolhas que manipulam a opinião pública.
É aqui que entra a cozinha real do poder.
Enquanto o pirão dos “Masteres da vida” patrocinar políticos e representantes do poder público, sua opinião será apenas tempero: dá sabor ao discurso, faz barulho na panela, mas não decide quem se senta à mesa.
O cidadão pensa que está opinando livremente. Muitas vezes, está sendo conduzido. Posta, replica, briga, acusa, defende, cancela, vibra — e trabalha de graça para grupos que jamais o chamariam para dividir o lucro.
As bolhas não querem consciência. Querem comportamento.
Primeiro fabricam medo. Depois escolhem um inimigo. Em seguida simplificam a realidade. Por fim entregam ao eleitor uma ilusão de protagonismo. Ele acha que está salvando o Brasil. Às vezes, está apenas servindo à mesa de quem já controla o cardápio.
Esse é o entrelaçamento político das eleições brasileiras: redes, dinheiro, religião, mídia, orçamento, Senado e Supremo operando como partículas aparentemente separadas, mas submetidas ao mesmo campo de força.
O eleitor recebe, na tela do celular, a mensagem envenenada disfarçada de tempero: parece opinião espontânea, mas muitas vezes já vem calibrada por algoritmo, financiador e operador político.
O financiador calcula o retorno. O operador mede a temperatura social. O parlamentar negocia a fidelidade. O algoritmo amplifica a raiva. A bolha organiza o voto.
E, no fim, o país descobre que a indignação popular foi transformada em ativo eleitoral.
Mudam os discursos. Permanece o padrão.
No Império, Dom Pedro II enfrentou elites que resistiam à abolição, à educação, à ciência, à modernização do Estado e à construção de um Brasil menos dependente do atraso. A monarquia caiu, mas não caiu por falta de projeto. Caiu porque muitos interesses não aceitaram perder privilégios.
Dom Pedro II caiu. Mas a República, sem admitir, herdou dele a obrigação que ainda não cumpriu: transformar o Brasil em nação educada, soberana e civilizada.
O problema é que, sempre que esse projeto ameaça sair do papel, reaparece a velha política do pirão: farinha pouca, meu interesse primeiro.
Ontem, eram o latifúndio, os coronéis, os quartéis, os salões e o Parlamento.
Hoje, são emendas, fundos, bancos, plataformas, mídia de conveniência, algoritmos, operadores políticos e grupos econômicos da Faria Lima — todos capazes de converter desinformação em vantagem eleitoral e interesse privado em agenda pública, mesmo quando isso enfraquece a soberania do Brasil.
Muitos não defendem o país; defendem dependência geopolítica automática, mercado sem projeto nacional e submissão travestida de modernidade. Quando o Brasil tenta sentar à mesa grande da política internacional, ainda há quem prefira pedir licença aos antigos centros de poder.
O Centrão é a forma mais visível dessa engrenagem. Não é exatamente ideologia. É método. É tecnologia de permanência. Seu compromisso não é com esquerda, direita ou centro. É com o ponto exato onde o dinheiro público encontra o interesse privado.
Quando o Executivo é forte, o balcão negocia. Quando enfraquece, cobra. Quando a eleição se aproxima, escolhe o lado mais lucrativo.
E o povo?
O povo entra com o voto, a emoção, a raiva e a esperança. Mas raramente entra na divisão do resultado.
Por isso a escolha de um senador é decisiva. Um deputado pode fazer barulho. Um influenciador pode incendiar a rede. Um comentarista pode moldar percepção. Mas um senador vota ministro do Supremo, trava governo, aprova autoridades e define a temperatura institucional do país.
Quem não entende o Senado, não entende a República.
A rejeição de Messias deve ser lida como aula pública. Não apenas sobre uma indicação derrotada, mas sobre o custo de eleger representantes sem perguntar quem eles realmente servem.
A pergunta central nunca é apenas: em quem você votou?
A pergunta verdadeira é: quem financiou, quem orientou, quem pautou, quem cobrou e quem se beneficia depois da posse?
Quando o cidadão não segue o dinheiro, segue a narrativa.
E quando segue apenas a narrativa, vira massa de manobra.
O Brasil não fracassa por falta de opinião pública. Fracassa porque a opinião pública é frequentemente capturada antes de virar decisão pública. O cidadão é chamado para brigar, mas não para decidir. É chamado para defender a pátria, mas não para fiscalizar o contrato. É usado para derrubar reputações, mas não para abrir planilhas.
No fim, muita guerra moral é disputa por orçamento vestida de patriotismo.
Quem ganha? O patrocinador da bolha.
Quem transfere o risco? O operador político.
Quem socializa o custo? O Estado.
Quem paga a conta? O cidadão.
O consumidor paga no preço. O contribuinte paga no imposto. O trabalhador paga na falta de futuro. O empresário sério paga no custo Brasil. A juventude paga na perda de horizonte. E o país paga permanecendo potência adiada.
A Constituição promete soberania, desenvolvimento nacional e redução das desigualdades. Mas promessa constitucional não se realiza sozinha. Precisa de povo consciente, voto qualificado e instituições menos capturadas pelo balcão.
No fim, a pergunta não é sobre o Senado, nem sobre o governo, nem sobre quem venceu ou perdeu.
Quando a política vira balcão e a verdade vira moeda, o resultado é um só: o Brasil perde.
A pergunta é sobre você:
Ao postar ou replicar nas redes informações não verificadas — inclusive fake news — você está ajudando a decidir o destino do país ou apenas servindo de tempero para o pirão do Centrão?
Você é o pirão… ou só o tempero?
P.S. E o seu “pastor” — religioso, político, midiático, financeiro ou digital — está ajudando você a enxergar a engrenagem ou apenas conduzindo sua indignação para temperar o pirão de quem já controla o cardápio?
Coluna do Prof. Jorge Tardin
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