400 capacetes, 32 milhões de reais e um PM morto: Por que Adriano estava de boné e não de capacete entregue por Flavio Bolsonaro?

Bolsonaro e a entrega de capacetes que não salvou a vida de Adriano, com a palavra o Governador?

400 capacetes, 32 milhões de reais e um PM morto: Por que Adriano estava de boné e não de capacete entregue por Flavio Bolsonaro?

Capacetes entregues, PM morto: a promessa que não salvou a vida de Adriano

Na manhã de sexta-feira, 15 de maio de 2026, o senador Flávio Bolsonaro participou de uma cerimônia na sede da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Ao lado de oficiais, ele anunciou a entrega de 400 capacetes balísticos, mais de 900 fuzis e novas viaturas para a corporação. “Desde o início do mandato, já destinei, por meio de emendas parlamentares, mais de R$ 32 milhões para a corporação”, escreveu em suas redes sociais. As imagens mostravam fileiras de capacetes novos, reluzentes, empilhados como troféus políticos.

Menos de três semanas depois, na manhã de 1º de junho, o soldado Adriano Pereira de Sousa, 36 anos, foi baleado na cabeça durante uma operação na comunidade do Faz Quem Quer, no bairro de Rocha Miranda, zona norte do Rio. Ele morreu antes de receber atendimento médico. A operação, segundo nota oficial da PMERJ, tinha como objetivo “restabelecer a ordem por meio da desarticulação e enfraquecimento das atividades criminosas locais”. O que a nota não diz é que Adriano não estava usando capacete balístico.

Se os capacetes já haviam sido entregues, por que Adriano estava desprotegido? A pergunta ecoa nos quarteis e nas redes sociais, mas até agora não há resposta oficial.

A entrega que não chegou às ruas

A cerimônia de 15 de maio foi amplamente divulgada. O senador Flávio Bolsonaro postou fotos ao lado de fuzis e capacetes, destacando o valor total das emendas: R$ 32 milhões. A PMERJ, em comunicado interno, afirmou que os equipamentos seriam distribuídos “gradualmente” entre os batalhões. Mas o que significa “gradualmente” para um policial que entra em comunidade dominada pelo tráfico todos os dias?

De acordo com fontes ouvidas pela reportagem, os 400 capacetes balísticos foram encaminhados para o almoxarifado central da corporação na semana seguinte à cerimônia. Até o dia da morte de Adriano, pelo menos três batalhões da zona norte ainda não haviam recebido nenhum lote. O soldado pertencia ao 9º BPM (Rocha Miranda), que, segundo um subtenente que pediu anonimato, “não viu um capacete novo desde o ano passado”.

A morte anunciada

Adriano Pereira de Sousa era pai de dois filhos e estava na PM há 12 anos. Na manhã de 1º de junho, ele integrava uma equipe que fazia incursão na comunidade do Faz Quem Quer. Por volta das 9h30, um tiro de fuzil atingiu a cabeça do soldado. O projétil perfurou o crânio. Os colegas tentaram reanimá-lo, mas não havia capacete para protegê-lo. A perícia ainda não concluiu o laudo, mas testemunhas afirmam que Adriano usava apenas o colete à prova de balas e o boné padrão da farda.

A Associação de Praças da PMERJ divulgou nota de pesar e, nas entrelinhas, uma crítica: “Lamentamos profundamente a perda de mais um guerreiro. Reiteramos a necessidade urgente de equipamentos individuais de proteção para todos os policiais em serviço.” A nota não cita o nome de Flávio Bolsonaro, mas a cronologia é clara: os capacetes chegaram antes, mas não chegaram a tempo para Adriano.

Enfeite político ou falha logística?

A questão central não é se os capacetes foram comprados – foram. Tampouco se houve desvio de finalidade – não há indícios disso. O que se investiga agora é a cadeia de distribuição e a responsabilidade pelo uso efetivo dos equipamentos. Quem decide qual batalhão recebe primeiro? Existe um cronograma? Os policiais foram treinados para usar capacetes balísticos?

O capacete balístico não é um item trivial. Dependendo do modelo, pesa entre 1,2 kg e 1,5 kg e pode reduzir a mobilidade do pescoço. Sem treinamento adequado, muitos policiais preferem não usá-lo, mesmo quando disponível. Mas, neste caso, a disponibilidade física ainda não alcançou a ponta da linha. A pergunta que fica é: se o senador Bolsonaro destinou R$ 32 milhões para a PMERJ, por que a burocracia interna impediu que um policial em serviço tivesse acesso ao capacete que poderia tê-lo salvo?

A cadeia de comando e a responsabilidade

O comando da PMERJ, por meio de sua assessoria de imprensa, informou que “os equipamentos estão sendo distribuídos conforme planejamento logístico” e que “a prioridade são batalhões com maior índice de confronto armado”. Rocha Miranda está entre as áreas com maior incidência de tiroteio no Rio. Ainda assim, o 9º BPM não constava na lista de prioridades.

Especialistas em segurança pública ouvidos pela reportagem apontam que a lacuna entre a doação política e a entrega operacional é um problema recorrente. “O político ganha o palanque, a corporação ganha o equipamento, mas o soldado na rua continua vulnerável enquanto a máquina pública não gira”, afirma um coronel da reserva que preferiu não se identificar. Para ele, a morte de Adriano expõe uma falha sistêmica: “Não adianta comprar se não distribuir, e não adianta distribuir se não treinar.”

O custo humano de um capacete

Cada capacete balístico custa, em média, R$ 1.200 no mercado institucional. Para equipar todos os 45 mil policiais militares do Rio, seriam necessários cerca de R$ 54 milhões. Flávio Bolsonaro destinou R$ 32 milhões – o que daria para comprar aproximadamente 26 mil capacetes. Mas, até o momento, apenas 400 foram entregues. Onde estão os recursos restantes? A assessoria do senador não respondeu até o fechamento desta edição.

A família de Adriano Pereira de Sousa aguarda o enterro. O soldado será sepultado no Cemitério de Inhaúma, com honras militares. No velório, os colegas fizeram uma corrente de silêncio. Muitos usavam bonés. Nenhum capacete.

Fontes:

  • Nota oficial da PMERJ sobre a operação em Rocha Miranda (01/06/2026)
  • Publicação de Flávio Bolsonaro no X/Twitter (15/05/2026)
  • Depoimento de subtenente do 9º BPM (sob anonimato)
  • Nota da Associação de Praças da PMERJ (01/06/2026)
  • Entrevista com coronel da reserva da PMERJ (sob anonimato)
  • Assessoria de imprensa da PMERJ (resposta por e-mail, 01/06/2026)
  • Assessoria do senador Flávio Bolsonaro (não respondeu até o fechamento)

Por Ultima Hora em 02/06/2026
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