6 coisas que você precisa saber sobre a COP 2025 em Belém

Katia Maia, especialista em sustentabilidade no setor financeiro e consultora do Banco Mundial Brasil, analisa os principais desafios e curiosidades da próxima Conferência das Partes sobre Mudança do Clima

6 coisas que você precisa saber sobre a COP 2025 em Belém

Desde a primeira Conferência das Partes (COP), realizada no Rio de Janeiro em 1992, o mundo tenta transformar alertas sobre mudanças climáticas em compromissos globais. A COP30, marcada para acontecer em Belém, surge em meio a expectativas e incertezas: a presença de delegações importantes, como a dos Estados Unidos, ainda é incerta, e até abril apenas 30 dos 153 países haviam submetido seus planos de ação climática. No meio disso, Belém, no coração da Amazônia, representa um palco estratégico e simbólico.

 

A conferência é uma oportunidade para discutir justiça climática, preservação florestal e inclusão de povos indígenas, mas também expõe dilemas práticos: obras de infraestrutura, como a polêmica Avenida da Liberdade, e reformas para acomodar delegações levantam debates sobre desenvolvimento versus preservação.

 

“A COP30 é uma oportunidade de mostrar que compromissos globais podem se traduzir em resultados concretos, mas o tempo para transformar metas em ações está se esgotando. Sem planos claros e mecanismos de execução, seguimos apenas com intenções. Se queremos ser um exemplo global, precisamos garantir que a logística da COP não seja um obstáculo e que o país mostre que é possível conciliar crescimento, proteção ambiental e inclusão social”, observa Kátia Maia, especialista em sustentabilidade, consultora do Banco Mundial Brasil e PhD em Ciências Ambientais.

 

A COP30 também surge como um teste da credibilidade do Brasil e da comunidade internacional. “É o momento de traduzir compromissos históricos em ações concretas, reduzindo emissões, preservando ecossistemas e fortalecendo mecanismos de adaptação. Para mim, o desafio é evidente. A crise climática já se faz sentir em enchentes, incêndios e perdas econômicas. A COP não pode ser apenas retórica; precisa ser o momento de colocar políticas em prática, transformar promessas em resultados e gerar impacto real no planeta”, completa.

 

1. Planos de ação nacionais: atraso e desafios

“Apesar de todos os países serem obrigados a apresentar seus planos de descarbonização, até abril apenas 30 das 153 nações cumpriram esse compromisso. A grande maioria ainda não tem metas claras ou mecanismos de execução definidos. Sem isso, a meta de limitar o aquecimento global a 2?°C precisa ser revista. É urgente que setores públicos e privados assumam compromissos ambiciosos e que os planos saiam do papel, com monitoramento e responsabilidade contínua. A COP só terá impacto real se conseguirmos transformar intenções em ações mensuráveis”, comenta Kátia.

 

2. Financiamento climático: promessa vs. realidade

“O Acordo de Paris estabeleceu a meta de mobilizar US$1 trilhão para financiar ações climáticas, mas até agora apenas US$300 bilhões foram efetivamente captados. Fundos como o Verde ou o Tropical Forest Fund são essenciais, mas não são recursos gratuitos: exigem garantias, planejamento rigoroso e capacidade de execução local. O grande desafio é fazer com que o financiamento alcance quem realmente precisa, com eficácia e impacto. Sem isso, projetos ficam apenas no papel, e a urgência da crise climática não é atendida”, complementa.

 

3. Fundo para Perdas e Danos: resposta a emergências

“Criado para responder a desastres climáticos, como os eventos no Rio Grande do Sul, o fundo é gerido diretamente pelos governos e funciona bem em emergências pontuais, mas ainda é limitado diante da escala da crise. Precisamos de sistemas que transformem recursos em respostas rápidas, sem burocracia excessiva, e que aumentem a resiliência das comunidades vulneráveis. A COP deve criar mecanismos concretos para que essas ações saiam do discurso e cheguem à prática”, analisa Katia.

 

4. Desenvolvimento econômico x sustentabilidade

“Países como a China continuam priorizando crescimento econômico e poder geopolítico, enquanto outros ainda questionam a própria existência das mudanças climáticas. A grande tensão da COP está entre crescimento e sustentabilidade. Tecnologias de baixo carbono existem, mas têm custo elevado e exigem investimentos significativos. Sem incentivos claros, sem políticas públicas consistentes e sem compromisso real das nações, os planos continuarão sendo apenas papel”, afirma.

 

5. Polêmicas locais: rodovias e infraestrutura

“O Tropical Forest Fund em Belém pretende mobilizar bilhões para preservação de florestas tropicais, mas obras como a Avenida da Liberdade e a reforma de prédios para delegações levantam questões sobre prioridades. É preciso garantir que o desenvolvimento não ocorra às custas do meio ambiente e que a logística da COP não limite a participação de países menores. A conferência será bem-sucedida se conseguir conciliar ambição ambiental, inclusão e planejamento estratégico”, entende Katia.

 

6. Comprometimento internacional: além da simbologia

“A saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e a ausência de delegações importantes revelam fragilidades no comprometimento global. A COP não pode ser apenas um evento de discursos ou fotos. É hora de transformar declarações em medidas concretas, com responsabilidade de governos, empresas e sociedade civil. Sem acompanhamento rigoroso e ações mensuráveis, continuaremos estagnados diante de uma crise climática que já se manifesta com força e impacto em todos os países”, conclui Katia Maia.

 

Sobre Kátia Maia

Profissional com mais de 20 anos de experiência em sustentabilidade no setor financeiro e corporativo, tendo sido pioneira na construção e implementação de políticas e estratégias ESG que ajudaram a consolidar a sustentabilidade como um pilar essencial de governança. No Banco do Brasil, contribuiu para iniciativas inovadoras, incluindo a Política de Responsabilidade Socioambiental, o Plano de Sustentabilidade Agenda 21, projetos de eficiência energética, gestão ambiental e a precificação de créditos de carbono, aproximando finanças sustentáveis da estratégia corporativa. Além disso, atuou na consolidação de normas e regulamentações ambientais, sociais e de governança no mercado, bem como na adoção dos principais índices e pactos globais de sustentabilidade, como DJSI, ISE, TCFD e Princípios do Equador. Sua atuação foi decisiva para que um dos maiores bancos públicos do Brasil se tornasse referência global em ESG. Atualmente, trabalha como Consultora em ESG e Sustentabilidade, auxiliando empresas na implementação de práticas sustentáveis e na adequação às novas exigências do mercado, como descarbonização, economia circular e gestão de riscos climáticos. Mais informações: https://www.linkedin.com/in/katiasilenemaia/ 

Por Ultima Hora em 05/09/2025
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