A delegada Tatiana Queiroz, que viu o pior da violência, concluiu: 'Prender não basta, é preciso educar'.

A delegada que trocou a cena do crime pela linha de frente da prevenção: 'O basilar do enfrentamento à violência contra a mulher é a informação, a educação e o trabalho feminino'

Rio de Janeiro — Atlântico Sul, Barra da Tijuca — Ela esteve onde poucas mulheres estiveram. Como a primeira delegada a comandar o Grupo Especial de Local de Crime da Divisão de Homicídios da Capital, Tatiana Queiroz viu de perto o que acontece quando o Estado chega tarde demais. Ao longo de 24 anos de carreira na Polícia Civil do Rio de Janeiro, comandou quatro Delegacias da Mulher e acumulou uma convicção: prender agressor depois do crime não é suficiente.

É preciso mudar a cultura antes que o crime aconteça.

"O basilar do enfrentamento à violência contra a mulher é a informação, a educação e o trabalho feminino", afirmou ao Jornal da República e Última Hora.

A declaração foi dada durante o evento Rede de Liderança e Segurança Feminina, realizado no Atlântico Sul, na Barra da Tijuca. Aos 24 anos de estrada, Tatiana Queiroz sabe que a segurança feminina não se faz apenas com delegacias e inquéritos. Faz-se com transformação estrutural.

O retrato de um país que ainda não aprendeu

O Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, o maior número desde a tipificação do crime, em 2015. O crescimento foi de 4,7% em relação a 2024. Os números são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e confirmam uma tendência que a delegada acompanha há duas décadas: a violência de gênero não diminui na mesma proporção que as políticas públicas são criadas.

No estado do Rio de Janeiro, foram 71.762 novos casos de violência doméstica registrados pelo Tribunal de Justiça entre janeiro e novembro de 2025.

Foram concedidas 30.934 medidas protetivas de urgência em todo o estado no mesmo período. Apesar do volume de ações judiciais, o Rio de Janeiro ocupa a terceira posição no ranking nacional de feminicídios, com 104 casos em 2025.

"Uma mulher segura é uma mulher que se desenvolve, uma mulher que empreende, uma mulher que trabalha, uma mulher que tem a visão mais à frente do seu tempo."

O programa que responsabiliza o agressor

Entre as iniciativas que Tatiana Queiroz defende como estratégicas está o programa SER — Serviço de Educação e Responsabilização do Homem.

O projeto, implementado no estado do Rio de Janeiro em parceria com o Tribunal de Justiça, é direcionado a homens que recebem medidas protetivas e são obrigados pela Justiça a frequentar sessões de reflexão e responsabilização.

"Os homens são a pedra fundamental nesse assunto. Mudando a cultura do machismo, a cultura da masculinidade excessiva, a gente consegue avançar", afirmou.

Pesquisas do Instituto Maria da Penha indicam que programas de responsabilização de agressores reduzem em até 60% a reincidência em violência doméstica. O modelo já é adotado por capitais como São Paulo, Brasília e Porto Alegre.

Dependência econômica como porta da violência.

A delegada destacou um fator frequentemente ignorado nos debates sobre violência de gênero: a dependência econômica. Para Tatiana, romper o ciclo de violência passa necessariamente por garantir que a mulher tenha condições de se sustentar sem o agressor.

"O ideal é tirar a mulher dessa dependência, tirar essa insegurança que existe em muitas mulheres hoje em dia", disse.

Pesquisa DataSenado, divulgada em novembro de 2025, revelou que 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar no ano.

Entre os fatores que dificultam a denúncia, a dependência financeira aparece como um dos principais — a mulher não denuncia porque não tem para onde ir, não tem renda própria e não tem rede de apoio.

Uma trajetória de portas abertas.

Formada em Direito pela PUC-Rio e pós-graduada, Tatiana Queiroz construiu uma carreira que mistura investigação criminal e política de acolhimento. Foi a primeira mulher a comandar o Grupo Especial de Local de Crime da Divisão de Homicídios da Capital, função que a colocou na linha de frente das investigações de crimes violentos no Rio de Janeiro. Mais tarde, dirigiu o Departamento-Geral de Polícia de Atendimento à Mulher (DGPAM) e comandou quatro Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs).

Hoje, como Ouvidora-Geral da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, ela acumula a função com a atuação como palestrante e consultora, levando para o setor corporativo protocolos de prevenção à violência de gênero. É founder da TransformaMente Consultoria e idealizadora do projeto social "Remando pela Vida".

Educação nas escolas e mudança geracional

Para Tatiana, a virada de mesa depende de uma transformação que começa na infância. "A gente precisa mudar essa cultura dos meninos nas escolas. "A conscientização precisa entrar em outros ambientes", afirmou.

A pesquisa Visível e Invisível, do Instituto DataSenado, aponta que 70% das agressões contra mulheres ocorrem dentro de casa. Romper o ciclo, portanto, exige educar as novas gerações para relações mais igualitárias — um desafio que a delegada enfrenta com a experiência de quem já viu o pior que a sociedade pode produzir.

"A mulher não é uma questão de gênero, é uma questão de sobrevivência da pessoa humana."

Bio: Tatiana Queiroz.

Tatiana Queiroz é delegada de Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, com mais de 24 anos de carreira. Formada em Direito pela PUC-Rio e pós-graduada, foi a primeira mulher a comandar o Grupo Especial de Local de Crime da Divisão de Homicídios da Capital.

Comandou quatro Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) e dirigiu o Departamento-Geral de Polícia de Atendimento à Mulher (DGPAM). Atualmente exerce o cargo de Ouvidora-Geral da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ).

É palestrante sobre liderança e violência de gênero, founder da TransformaMente Consultoria e idealizadora do projeto social "Remando pela Vida". Recebeu a Medalha de Petrópolis pelo trabalho humanitário durante a tragédia das chuvas na cidade serrana.

Defende a tríade informação-educação-trabalho feminino como base do enfrentamento à violência doméstica e atua na implementação de protocolos de prevenção em empresas e instituições públicas.

Por Robson Talber @robsontalber 

Repórter Renata Barbosa @beleza.naotemidade

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Por Ultima Hora em 30/06/2026
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