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Em 1954, um jornalista americano chamado Darrell Huff publicou um livrinho de menos de duzentas páginas, How to Lie with Statistics, que envelheceu consideravelmente melhor do que a maioria dos tratados solenes de ciência política escritos desde então. Huff não denunciava fraudes, e sim algo muito mais insidioso, a saber, a honestidade seletiva, porquanto o número correto, exibido na moldura errada, mente com uma elegância que nenhuma falsificação grosseira jamais alcançará. Pois bem, caro leitor. Sete décadas depois, a sexta rodada da pesquisa Nexus/BTG oferece ao Brasil uma demonstração de laboratório dessa velha lição, e o faz, convém sublinhar desde o início, sem cometer um único pecado técnico digno de nota.
Registre-se logo essa peculiaridade, uma vez que ela é o coração do argumento. A Nexus não pertence ao lamentável universo das pesquisas mal executadas que infestam nossos ciclos eleitorais como pragas sazonais. Trata-se de um levantamento sofisticado, conduzido por gente competente segundo as práticas aceitas pelo mercado, o que torna o exercício crítico infinitamente mais interessante do que a caça rotineira aos institutos de fundo de quintal. O problema, com efeito, não reside na aritmética elementar, mas nos limites epistemológicos do próprio instrumento, e sobretudo na teologia que se construiu ao redor dele. O brasileiro médio, formado na escola que não ensina e informado pela imprensa que não apura, recebe o percentual como o fiel medieval recebia a relíquia, isto é, com uma reverência inversamente proporcional à compreensão do objeto.
Boa parte do debate público permanece, por conseguinte, prisioneira da pergunta errada.
Discute-se interminavelmente se
determinada pesquisa acertou ou errou, ao passo que a literatura séria produzida por Robert Groves, Philip Converse, John Zaller, Andrew Gelman e Nate Silver demonstra há décadas que a questão relevante é outra, muito menos confortável. O que exatamente o instrumento conseguiu medir, e quais dimensões da realidade permaneceram invisíveis ao seu alcance? A distinção parece bizantina apenas para quem nunca abriu um manual de metodologia, o que, admito, descreve com precisão desoladora a quase totalidade dos comentaristas que transformam cada rodada de pesquisa em oráculo délfico.
Comecemos, como manda a boa anatomia, pela arquitetura da amostra. A Nexus trabalha com entrevistas telefônicas distribuídas por cotas demográficas e divulga uma margem de erro de dois pontos percentuais com 95% de confiança. A linguagem transmite ao leitor aquela sensação reconfortante de precisão herdada da amostragem probabilística clássica, aquela em que cada cidadão tem chance conhecida de ser sorteado. Ocorre que uma amostra por cotas não possui as mesmas propriedades matemáticas de uma amostra aleatória, de sorte que a margem de erro anunciada funciona menos como medida rigorosa de incerteza e mais como ornamento litúrgico. Gelman observa há anos que essas margens tradicionais não capturam o conjunto das incertezas embutidas no desenho, ao passo que Groves, por meio do seu modelo do Total Survey Error, demonstrou que cobertura deficiente, não resposta e erros de mensuração frequentemente pesam mais do que o erro amostral propriamente dito. São justamente esses componentes, note-se, que desaparecem do release e da manchete, embora possam ser mais decisivos do que os dois pontinhos exibidos em negrito.
A não resposta, aliás, merece um parágrafo à parte, porquanto ela constitui o segredo sujo de toda a indústria demoscópica contemporânea. Em praticamente todas as democracias desenvolvidas, as taxas de resposta das pesquisas telefônicas despencaram para níveis que fariam corar os pioneiros do ofício. Pergunte-se o leitor, com sinceridade, quem é o sujeito que atende uma chamada de número desconhecido, permanece vários minutos ao telefone e ainda aceita responder perguntas sobre política. Em geral, trata-se de gente mais velha, mais politizada e mais interessada no tema, ou seja, um subconjunto peculiaríssimo da população, e Zaller descreveu com exatidão esse fenômeno ao mostrar que indivíduos com maior estoque de informação política oferecem respostas mais consistentes, porém menos representativas do eleitor mediano, aquele cuja decisão amadurece, quando amadurece, apenas nas últimas semanas da campanha.
O próprio questionário fornece a prova do crime, se me permitem a metáfora forense. Nada menos que 96% dos entrevistados juram que comparecerão às urnas, embora o comparecimento efetivo nas eleições brasileiras permaneça historicamente muito abaixo disso. Décadas de estudos sobre o chamado vote overreporting ensinam que declarar intenção de votar é uma resposta socialmente desejável, e não uma previsão de comportamento, haja vista que ninguém confessa a um estranho ao telefone a própria apatia cívica. Os institutos americanos enfrentam o problema construindo modelos de eleitor provável, filtrando quem de fato tende a comparecer. A Nexus prefere trabalhar com o universo dos declarantes, o que não invalida seus resultados, mas altera profundamente, e silenciosamente, a interpretação que se pode extrair deles.
Outro detalhe revelador aparece na distância entre a intenção espontânea e a estimulada. Na pergunta aberta, aproximadamente um quinto dos entrevistados não apresenta preferência alguma, e eis que, quando os nomes são exibidos em cartela, essa indecisão evapora como orvalho ao sol. Converse batizou o mecanismo, ainda nos anos 1960, de non-attitudes, uma vez que boa parte dos cidadãos simplesmente não carrega opiniões políticas consolidadas, e as fabrica, com a melhor das intenções, durante a própria entrevista. Zaller aprofundaria depois a conclusão ao demonstrar que a resposta estimulada é apenas a fotografia das considerações cognitivamente disponíveis naquele exato instante, e não a expressão de uma preferência estável. A fragilidade reaparece, com efeito, quando quase um terço dos próprios eleitores admite que ainda pode trocar de candidato, proporção que se aproxima de noventa por cento entre os nomes menos consolidados. Grosso modo, aquele candidato registrado com treze por cento em determinado segmento pode estar medindo muito mais instabilidade do que adesão, o que transforma a precisão milimétrica do percentual numa espécie de piada íntima entre estatísticos.
E chegamos, amigo leitor, ao ponto em que a estatística cede o palco à retórica. O release da pesquisa emprega verbos como recuou, oscilou e manteve-se com aparência puramente descritiva, mas carregados de significado implícito, de sorte que variações minúsculas, integralmente contidas dentro da faixa de incerteza, recebem tratamentos narrativos opostos conforme a conveniência dramática. Robert Entman deu nome ao mecanismo, framing, e advertiu que ele não fabrica fatos inexistentes, apenas seleciona quais fatos ocuparão o centro da cena, o que, convenhamos, é uma forma bem mais econômica de mentir. Algo semelhante ocorre quando o material celebra que certo indicador atingiu o menor patamar de toda a série histórica, série essa que acumula a venerável idade de quatro meses (a longevidade, como se vê, também foi atingida pela inflação). A frase é tecnicamente verdadeira e retoricamente desonesta, induzindo o leitor a enxergar tendência onde talvez exista apenas flutuação.
O experimento mais inovador da rodada, a classificação do eleitorado em sete grupos definidos por graus de antilulismo e antibolsonarismo, dialoga com a literatura recente sobre negative partisanship, segundo a qual as rejeições passaram a organizar o comportamento eleitoral tanto quanto as preferências positivas, diagnóstico que qualquer frequentador de almoço de família domingueiro subscreveria sem precisar de regressão logística. Ainda assim, persistem problemas nada triviais, porquanto as escalas de concordância sofrem de vieses conhecidos, os pontos de corte que geram os sete grupos não são explicitados, e a própria redação das perguntas quebra a simetria entre os polos ao incluir a expressão relativa à família apenas em um dos enunciados. Detalhe pequeno, dirão os apressados. Detalhe suficiente, respondo eu, para inclinar a balança inteira.
A leitura oferecida sobre a chamada terceira via pede cautela análoga. A distância entre o percentual dos que desejam uma alternativa à polarização e o percentual efetivamente disposto a votar nela pode parecer demanda reprimida à espera do seu messias de centro, mas Maurice Duverger ofereceu, há mais de meio século, interpretação bem menos lisonjeira, uma vez que em sistemas altamente polarizados o eleitor distingue com frieza suas preferências ideais de suas escolhas estratégicas. Desejar uma terceira alternativa não implica disposição para desperdiçar um voto percebido como decisivo, e o eleitor brasileiro, ao contrário do que supõe certa comentocracia, sabe fazer essa conta melhor do que muitos analistas.
Resta, por fim, a pergunta que a boa educação manda calar e que a boa análise manda formular. A pesquisa é financiada por um grande banco de investimentos, e não há, registre-se com todas as letras, qualquer evidência de manipulação ou fraude, permanecendo o trabalho técnico irrepreensível. Ainda assim, Nate Silver popularizou um trio de indagações que continua válido para qualquer levantamento, ou seja, quem paga, o que espera obter e como esses incentivos moldam a construção do questionário. Em mercados financeiros, expectativas eleitorais produzem efeitos econômicos concretos, de modo que o instrumento estatístico jamais existe isolado do ambiente institucional que lhe dá origem e destino. Isso não torna a pesquisa menos séria. Torna o leitor que ignora o fato menos sério.
Ao cabo desta dissecação, o veredito talvez surpreenda quem esperava o linchamento de praxe. A sexta rodada da Nexus/BTG oferece informação valiosa, confirma padrões territoriais conhecidos, revela estabilidade relativa no segundo turno e identifica um contingente expressivo de eleitores ainda em movimento. A pesquisa, insisto, não mente. Ela apenas mede, com admirável precisão, algo bastante diferente daquilo que o leitor imagina estar lendo, ao passo que a mentira propriamente dita nasce depois, no release, na manchete, no comentário afobado que converte ruído em tendência e flutuação em acontecimento político. Darrell Huff, se estivesse vivo, reconheceria a cena com um sorriso cansado. No Brasil de 2026, ninguém precisa mais falsificar estatísticas. Basta publicá-las corretamente e deixar que a imprensa faça o resto.
Marcos Paulo Candeloro é jornalista, cientista político e especialista em gestão pública inovativa.
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