'Acender uma vela é um ato de resistência': a empreendedora Beatriz Pontes, que transformou autocuidado em negócio e inspira mulheres no Rio

Velaria Botânica nasceu da busca por identidade e hoje é referência em bem-estar feminino na zona oeste, em meio a uma crise de violência que matou 1.568 mulheres em 2025

O Jornal da República e Última Hora esteve no Atlântico Sul, na Barra da Tijuca, durante a Rede de Liderança e Segurança Feminina, evento que reuniu empreendedoras, lideranças comunitárias e pré-candidatas para discutir o papel da mulher na política, no mercado e na segurança pública.

Entre as patrocinadoras, um nome chamou a atenção pelo simbolismo do que representa: Beatriz Pontes, proprietária da Velaria Botânica.

Em meio a discussões sobre violência doméstica, sub-representação feminina no Congresso e os desafios de empreender sendo mulher no Brasil, Beatriz trouxe uma perspectiva que conecta o micro ao macro — do ato íntimo de acender uma vela ao movimento coletivo de ocupar espaços de poder.

O negócio que nasceu da solidão e virou propósito.

Beatriz começou a Velaria Botânica em um momento de virada pessoal. Sozinha, buscava dar "DNA" à própria casa — não apenas decorar, mas imprimir identidade em cada canto.

O que começou como um passatempo artesanal rapidamente se transformou em negócio.

"Eu comecei com a velaria porque gosto muito de velas e comecei a empreender quando estava sozinha e queria dar DNA para a minha casa." Não só fazer a parte de decoração, mas queria deixar a minha casa com uma identidade", contou Beatriz.

Hoje, ela produz velas em concreto — peças que unem design, sustentabilidade e funcionalidade — e se consolidou no mercado da zona oeste do Rio.

O perfil de Beatriz reflete um movimento nacional. Segundo o Sebrae, o Brasil atingiu 10,4 milhões de mulheres empreendedoras em 2025 — o maior patamar da série histórica.

O crescimento foi de 27% em dez anos, 16 pontos percentuais acima do verificado entre os homens. Só no estado do Rio de Janeiro, 20,8% das empresas abertas entre janeiro e maio de 2026 foram registradas por mulheres, segundo dados da Junta Comercial.

Autocuidado como resistência em tempos de violência.

Quando questionada sobre a relação entre seu negócio e o tema central do evento, segurança feminina, Beatriz não hesitou:

"Eu acho que tem tudo a ver, porque, quando eu acendo uma vela, a gente traz esse momento de autocuidado, principalmente nós, mulheres, que ficamos o dia todo na rua resolvendo coisas, problemas no dia a dia.

E aí a gente só quer paz quando chega em casa e um momento de relaxar. Então eu acho que tem tudo a ver a gente ter esse momento de autocuidado e recarregar as energias pro dia seguinte a gente estar lutando de novo na rua."

A fala ganha contornos dramáticos quando confrontada com os números da violência no país. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou 1.568 feminicídios em 2025 — uma alta de 4,7% em relação a 2024.

Desde a tipificação da lei, em 2015, 13.703 mulheres foram assassinadas pela condição de ser mulher. Seis em cada dez vítimas eram negras; 80% dos crimes foram cometidos por parceiros ou ex-parceiros. Em 66% dos casos de estupro, o crime ocorreu dentro de casa.

O autocuidado, para a mulher brasileira, não é luxo. É sobrevivência.

O abismo da representação

O evento também colocou em pauta a sub-representação feminina na política. O Brasil ocupa a 133ª posição no ranking global de representação parlamentar feminina da ONU Mulheres e da União Interparlamentar, entre 189 países — atrás de Arábia Saudita, Emirados Árabes e Afeganistão. Na Câmara, as mulheres ocupam apenas 18% das cadeiras. No Senado, 19,8%.

Enquanto isso, as mulheres já são chefes de 52% dos lares brasileiros — mais de 41 milhões de famílias sustentadas por mulheres, segundo a Fundação Getúlio Vargas com base no IBGE.

O contraste entre a responsabilidade que carregam e o espaço que ocupam nas decisões do país é um dos maiores desequilíbrios institucionais brasileiros.

O poder do pequeno negócio feminino

A Velaria Botânica é um exemplo de como o empreendedorismo feminino vem se consolidando como motor da economia.

O Sebrae aponta que 93% das mulheres começam a empreender por conta própria — sem herança, sem investimento externo, movidas por necessidade ou por desejo de autonomia.

O principal desafio apontado por 62% delas é a falta de conhecimento em gestão.

Beatriz driblou essa estatística na prática. Hoje, sua marca é presença em eventos de liderança feminina e referência para quem busca acolhimento por meio do bem-estar.

O Instagram da Velaria Botânica (@velariabotanica) é o canal em que divulga o trabalho e constrói uma comunidade em torno do autocuidado.

 

Bio: Beatriz Pontes.

Beatriz Pontes é proprietária da Velaria Botânica, marca de velas artesanais que nasceu da busca por identidade e propósito.

Especializada em velas de concreto, ela transformou um momento de solitude em um negócio que hoje é referência em bem-estar feminino na zona oeste do Rio de Janeiro.

Participante ativa de eventos de liderança e segurança feminina, Beatriz representa a força do empreendedorismo feminino que cresce sem investimento externo, movido por resiliência e talento.

Seu trabalho conecta autocuidado, decoração e empoderamento — uma vela acesa de cada vez.

Por Robson Talber @robsontalber 

Repórter Renata Barbosa @beleza.naotemidade

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Por Ultima Hora em 26/06/2026
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