Assine nossa newsletter e fique por dentro de tudo que rola na sua região.
Bukassa Kabengele vive um dos momentos mais celebrados da televisão brasileira. O ator de 53 anos, natural da República Democrática do Congo e radicado no Brasil desde os 10 anos de idade, acumula três trabalhos simultâneos nas maiores plataformas de audiovisual do país.
A fase profissional rara foi tema de entrevista concedida ao Jornal da República durante a festa de comemoração dos 15 anos da Revista Jurema, realizada no Rio de Janeiro.
"Estou numa rotina um pouco enlouquecedora, mas que faz parte do meu ofício", disse o ator, aos risos, ao ser recebido pela repórter Renata Barbosa. O sorriso, no entanto, não esconde a dimensão do feito: são três produções no ar ao mesmo tempo, em emissoras e plataformas distintas, Globo, HBO Max e Netflix.
A nobreza de contar a África sem a sombra da escravidão.
Na novela "A Nobreza do Amor", exibida pela Globo na faixa das 18h, Bukassa interpreta José dos Santos, também conhecido como Zambi. O personagem é um príncipe africano, filho do rei Kayman I, herdeiro do trono do reino de Batanga. A trama, porém, o leva a abdicar da coroa após se apaixonar por Teresa, uma plebeia interpretada por Ana Cecília Costa.
"A sensação que a gente tem é quase que um coro uníssono: era a novela que eu sonhava, era o texto que eu sonhava, era o personagem que eu esperava", declarou o ator, em entrevista ao gshow.
Bukassa define a novela como um "divisor de águas" na televisão brasileira. Para ele, a trama inova ao apresentar a riqueza da negritude sem ter a escravidão como pilar central da narrativa. Queremos devolver a dignidade e reconstruir as imagens negativas narradas por anos.
Estamos tratando Batanga e suas riquezas, começando pela realeza, de forma positiva, afirmou.
A novela tem como pano de fundo a cidade fictícia de Barro Preto, no Nordeste, e conta com um elenco que inclui Lázaro Ramos no papel de Gendal, o antagonista da história. A trama é descrita como uma fábula que resgata a ancestralidade africana com princesas, príncipes e reis.
Dona Beja e o coronel Sampaio na HBO Max.
Simultaneamente, Bukassa pode ser visto em "Dona Beja", produção da HBO Max estrelada por Grazi Massafera. Na trama, que se passa no Brasil imperial do século XIX, ele interpreta o Coronel Paulo Sampaio, pai do personagem vivido por David Junior.
O ator descreve Sampaio como "um homem rico que lutou com garras para manter a sua família forte e unida, mas as circunstâncias de um tempo difícil o levam às últimas consequências".
A série, que já está em exibição, tem sido um dos destaques do catálogo da plataforma de streaming.
Evenildo e a tragédia do Césio-137 na Netflix
Na Netflix, Bukassa integra o elenco de "Emergência Radioativa", minissérie inspirada no acidente radiológico com o césio-137 ocorrido em Goiânia, em 1987. O ator vive Evenildo Quadrado, dono de um ferro-velho que se vê no centro da contaminação.
"Ele faz parte das pessoas que foram contaminadas pelo césio-137 Ele e sua família tiveram perdas irreparáveis. Toda a contaminação começa na casa dele, sem que ele saiba", explicou.
A série, que tem cinco episódios e conta com Johnny Massaro, Leandra Leal e Paulo Gorgulho no elenco, já conquistou boa aceitação do público e da crítica. A produção é assinada pela Gullane Entretenimento, uma das mais respeitadas do país.
Cinema e novos projetos
Para além das plataformas de streaming, Bukassa também se prepara para a estreia do filme "Narciso", dirigido por Jeferson De, um dos nomes mais relevantes do cinema brasileiro contemporâneo. Na trama, o ator interpreta Joaquim, um dos responsáveis por acolher o protagonista em um lar temporário.
"É um lindo filme. Joaquim é um homem simples que vive as dores do mundo com todos os nossos recortes. De forma altiva e positiva. Somos sobreviventes e sempre achamos, no meio do caos, um sorriso. Esse filme vai emocionar muita gente", afirmou.
Em 2024, Bukassa também dublou o personagem Rafiki no filme "Mufasa: O Rei Leão", outro marco em sua trajetória.
Orgulho africano e a construção de uma nova imagem
Filho do renomado antropólogo Kabengele Munanga, professor titular aposentado da USP e uma das maiores referências em relações raciais no Brasil, Bukassa carrega na própria história o peso e a honra de sua ancestralidade. Nascido em Bruxelas, capital da Bélgica, em 3 de fevereiro de 1973, viveu no Congo até os dez anos, quando se mudou com o pai para o Brasil.
"Mudei para o Brasil com 10 anos e foi aqui que conheci o racismo", revelou o ator em entrevista ao UOL Splash, publicada no mesmo dia da festa da Revista Jurema.
Apesar das dificuldades, Bukassa construiu uma carreira sólida de quase 40 anos. Começou como cantor na banda de soul e funk Skowa e a Máfia, lançou o disco solo "Quero Viver" em 2000 e, aos poucos, migrou para a atuação.
Desde então, acumulou dezenas de papéis na televisão, incluindo passagens por "Liberdade, Liberdade", "Mania de Você", "Malhação: Vidas Brasileiras", "Amor Perfeito" e "Falas Negras", onde interpretou Nelson Mandela.
"Eu venho me preparando a vida inteira para isso. É um dos papéis em que estou mais à vontade, muito mais do que outros que nos colocavam num lugar de negativação da imagem", refletiu sobre viver um príncipe africano na televisão aberta.

Por Robson Talber @robsontalber
Repórter Renata Barbosa @beleza.naotemidade
Sigam e compartilhem o nosso Instagram @jornalultimahoraonline
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!