Como o ataque à Venezuela afeta as relações entre China, EUA e países sul-americanos

China acusa EUA de 'intimidação hegemônica' após operação militar na Venezuela

Como o ataque à Venezuela afeta as relações entre China, EUA e países sul-americanos

Governo chinês classificou operação militar americana como "intimidação hegemônica" que afeta "gravemente" a ordem institucional. Cobranças devem permanecer no campo diplomático, avaliam especialistas

O governo chinês intensificou críticas à operação militar americana que resultou na captura de Nicolás Maduro, classificando as ações como "intimidação hegemônica" que compromete a ordem internacional. As declarações revelam tensões crescentes entre as duas superpotências, com implicações diretas para países sul-americanos.

Xi Jinping condena "unilateralismo" americano

Em nota oficial divulgada nesta segunda-feira (6), o presidente chinês Xi Jinping afirmou que "práticas de unilateralismo e intimidação hegemônica estão afetando gravemente" a ordem institucional global. Sem mencionar diretamente os Estados Unidos, Xi declarou que "todos os países devem respeitar o direito de outros povos de escolher independentemente seu caminho de desenvolvimento".

"As grandes potências, em particular, devem dar o exemplo", acrescentou o líder chinês, em clara referência à operação americana na Venezuela.

China acusa EUA de "pisotear soberania" na ONU

Na reunião do Conselho de Segurança da ONU desta segunda-feira, o representante chinês Fu Cong intensificou as críticas. "Os Estados Unidos colocaram seus poderes acima do multilateralismo e pisotearam a soberania da Venezuela", declarou.

"A China está profundamente chocada e condena fortemente as ações ilegais e atos de bullying dos EUA que já acontecem há algum tempo", afirmou Cong durante a sessão extraordinária convocada para discutir a situação venezuelana.

Interesses econômicos chineses em risco

A reação veemente de Pequim reflete interesses econômicos substanciais na Venezuela. Aproximadamente 80% do petróleo venezuelano é adquirido por empresas chinesas, tornando o país asiático o principal comprador do produto venezuelano.

Jorio Dauster, embaixador do Brasil na União Europeia entre 1991 e 1999, explica que "as cobranças da China são esperadas, diante das relações comerciais com a Venezuela, sobretudo no setor petrolífero".

Contratos energéticos bilionários e investimentos em infraestrutura venezuelana estão em jogo, criando vulnerabilidade estratégica para os interesses chineses na região.

Especialistas preveem tensão diplomática limitada

Apesar do tom duro das declarações, analistas brasileiros avaliam que a escalada não deve evoluir para confronto direto entre as superpotências.

"Não é esperado que esse debate entre Estados Unidos e China ultrapasse o campo diplomático", avalia Dauster. "Trump afirmou que os chineses continuarão comprando petróleo venezuelano e, com investimentos americanos, o volume exportado tende a aumentar."

Rubens Barbosa, embaixador do Brasil nos EUA entre 1999 e 2004, concorda: "A China tende a concentrar ações no campo diplomático, sem criar maiores conflitos com Trump".

América do Sul no centro da disputa geopolítica

A operação venezuelana sinaliza estratégia mais ampla de Trump para reduzir influência chinesa na América Latina. O presidente americano já expulsou empresas chinesas do Panamá, demonstrando disposição de confrontar presença asiática na região.

"Há clara disposição do governo americano de reduzir a influência chinesa na região", observa Barbosa. "Isso pode criar constrangimentos nas relações dos países sul-americanos com a China."

Impactos na Nova Rota da Seda

A iniciativa chinesa "Nova Rota da Seda" na América Latina enfrenta novo desafio. Pequim oferece parcerias em infraestrutura para ampliar laços regionais, mas a pressão americana pode comprometer esses projetos.

Países como Brasil e Argentina, que mantêm investimentos chineses significativos, podem enfrentar pressões para escolher entre as duas potências.

Cronologia das reações chinesas

Sábado (4): Ministério das Relações Exteriores chinês declarou estar "profundamente chocado" com bombardeios americanos.

Domingo (5): Governo Xi Jinping exigiu libertação imediata de Maduro e sua esposa Cilia Flores.

Segunda (6): Xi Jinping fez declaração oficial através de agência estatal, condenando "intimidação hegemônica".

Cenários futuros para a região

Dauster não prevê mudanças imediatas nas relações comerciais sino-sul-americanas no curto prazo, considerando investimentos já executados. "No médio e longo prazo, precisamos acompanhar como Trump pretende reduzir influência chinesa regional."

Barbosa alerta para possibilidade de novas operações: "Um novo ataque na Venezuela não é descartado e dependerá da postura da presidente interina Delcy Rodríguez".

Dilema sul-americano

Países da região enfrentam dilema estratégico crescente. De um lado, a China oferece investimentos sem condicionalidades políticas. Do outro, os EUA pressionam por alinhamento geopolítico.

A operação venezuelana demonstra que Trump está disposto a usar força militar para garantir hegemonia hemisférica, elevando custos para países que mantêm parcerias chinesas.

Implicações para o multilateralismo

As críticas chinesas na ONU refletem preocupação mais ampla com erosão do multilateralismo. Pequim posiciona-se como defensor da ordem internacional baseada em regras, contrastando com unilateralismo americano.

Essa narrativa busca conquistar apoio de países em desenvolvimento que temem intervenções similares em seus territórios.

A disputa sino-americana pela Venezuela marca novo capítulo na rivalidade entre superpotências, com a América do Sul como principal campo de batalha geopolítica. O resultado determinará não apenas o futuro venezuelano, mas o equilíbrio de poder em todo o hemisfério ocidental.

#ChinaEUA #VenezuelaCrise #GeopoliticaSulAmericana #XiJinping #DonaldTrump #NovaRotaDaSeda #DiplomaciaChina #HegemoniAmericana #NicolasMaduro #RelacoesBilaterais

Por Ultima Hora em 06/01/2026
Aguarde..