Denise Cavalcanti, pós-doutora em Salamanca, dedica carreira à defesa de migrantes, refugiados e crianças desacompanhadas

Pesquisadora brasileira que estudou em Salamanca transforma análise sobre migrações em legislação federal

Advogada dedicada ao tráfico de pessoas e migrações constrói arcabouço jurídico para proteger vulneráveis

Denise Abreu Cavalcanti transformou uma trajetória acadêmica e profissional em ferramenta de proteção para as populações mais expostas às violências da migração transnacional. Pós-doutora em direito pela Universidade de Salamanca, doutora pela Faculdade de Direito de São Paulo, mestre em direito das migrações pela Universidade do Vale do Itajaí, advogada com atuação em direitos humanos, ela sintetiza uma vida dedicada ao enfrentamento do tráfico de pessoas e à proteção jurídica de migrantes, refugiados e crianças desacompanhadas. Sua atuação transcende academicismo: transforma pesquisa em legislação, análise jurídica em política pública.

A pesquisa que moldou a visão sobre tráfico transnacional

A trajetória acadêmica de Cavalcanti concentrou-se em três áreas interseccionais que se revelaram intimamente conectadas: tráfico de pessoas, migrações transnacionais e direitos humanos. Como pesquisadora, ela participou de investigações que documentaram como o tráfico de pessoas opera não como crime isolado, mas como fenômeno imbricado nas rotas migratórias internacionais. As crianças desacompanhadas que fogem da Venezuela não apenas buscam refúgio. Muitas caem em redes de exploração que replicam estruturas de tráfico.

Sua dissertação de mestrado abordou especificamente direito das migrações transnacionais, tema que exigiu compreensão dos marcos legais que regulam fluxos de pessoas entre países. Seu doutorado aprofundou a investigação sobre tráfico de pessoas, analisando como o ordenamento jurídico brasileiro tipifica o crime e como lacunas legais perpetuam vulnerabilidades. O pós-doutorado em Salamanca ampliou a perspectiva comparada, analisando como países europeus confrontam fenômeno similar.

Essa consolidação acadêmica não foi exercício teórico. Cada estágio representou oportunidade de converter análise em proposta legislativa.

A Operação Acolhida e o acolhimento de crianças em risco

Em dois mil e dezoito, quando fluxos massivos de crianças venezuelanas desacompanhadas chegaram a Roraima, o Brasil enfrentou dilema: como acolher menores sem documentação, sem representação legal, vulneráveis a todo tipo de exploração. A Operação Acolhida nasceu como resposta coordenada, envolvendo forças armadas, ministérios e organizações da sociedade civil.

Cavalcanti foi além da observação. Tornou-se pesquisadora-participante do processo. Estudou a Operação Acolhida desde sua fase inicial em Roraima, analisando como o Estado brasileiro construiu resposta institucional a fenômeno de deslocamento forçado de crianças. Publicou livro intitulado "Operação Acolhida: a singular resposta brasileira ao fluxo migratório de crianças desacompanhadas", que documentou a singular abordagem brasileira: não apenas reprimir tráfico, mas acolher vítimas com dignidade.

O livro venceu o décimo nono Prêmio Innovare na categoria advocacia em dois mil e vinte e dois. Reconhecimento que validou sua tese central: proteger crianças migrantes demanda arcabouço jurídico que combine elementos de direito administrativo, direito de família, direito penal e direito internacional dos direitos humanos. Não há solução monolítica. Exige integração.

Assessoria parlamentar como transformação de pesquisa em lei

Após consolidar pesquisa sobre tráfico e migrações, Cavalcanti migrou para assessoria parlamentar na Câmara dos Deputados. Nessa função, ela transforma conhecimento acadêmico em subsídios legislativos. Quando comissões discutem projetos de lei sobre tráfico de pessoas, migrações ou proteção de crianças, Cavalcanti fornece parecer jurídico que contextualiza lacunas legais e propõe soluções informadas por evidência.

Sua atuação é crítica em momento em que o Brasil reconhece insuficiência da legislação. Audiência pública realizada na Comissão de Direitos Humanos do Senado em junho de dois mil e vinte e cinco alertou que legislação brasileira sobre tráfico de pessoas carece de tipificações para formas emergentes do crime. O Brasil possui Lei nº treze mil trezentos e quarenta e quatro, que estabelece marcos normativos, porém especialistas indicam que norma é insuficiente para alcançar novas modalidades de tráfico, como tráfico digital ou exploração de migrantes para trabalho forçado.

É nesse vazio que trabalha Cavalcanti. Seus pareceres parlamentares propõem atualizações legislativas que reflitam realidade do crime transnacional do século vinte e um.

Assessoria voluntária junto à Operação Acolhida

Cavalcanti não restringe sua atuação a gabinetes legislativos. É assessora jurídica voluntária para migrantes e refugiados junto à Operação Acolhida. Isso significa que ela disponibiliza expertise jurídica para representar migrantes que enfrentam processos de asilo, documentação irregular, separação familiar ou risco de deportação.

Essa atuação voluntária é expressão de compromisso que transcende profissionalismo. Revela convicção de que direitos humanos não são abstratos. São direitos de pessoas específicas: criança venezuelana que fugiu de violência; mulher boliviana vítima de tráfico; família colombiana que solicita refúgio. Para cada uma dessas pessoas, Cavalcanti oferece análise jurídica competente.

Essa dupla atuação—parlamentar e voluntária—cria sinergia. Quando Cavalcanti assessora um migrante em situação de vulnerabilidade, identifica falhas no ordenamento jurídico que impedem proteção adequada. Essas observações informam seus pareceres parlamentares. Quando identifica lacuna legislativa, sua atuação voluntária oferece contexto vivo de como a lacuna prejudica pessoas reais.

Cidadania múltipla e perspectiva transnacional

Cavalcanti possui dupla cidadania, brasileira e portuguesa. Essa condição não é meramente biográfica. Oferece perspectiva que transcende nacionalismo. Permite que ela compreenda como ordenamentos jurídicos diferentes abordam questão similar. Portugal, membro da União Europeia, enfrenta fluxos migratórios de magnitude comparável. Suas normas, suas práticas, suas jurisprudências oferecem comparação valiosa para advogada que busca modernizar marcos legais brasileiros.

Essa perspectiva comparada é rara entre especialistas brasileiros em migração. A maioria trabalha dentro de paradigma nacional. Cavalcanti transcende. Estudou em Salamanca. Trabalha com marcos internacionais. Dialoga com redes globais de especialistas em direito da migração. Essa abertura teórica é refletida em seus pareceres parlamentares, que frequentemente citam experiências de outros países como lições para Brasil.

Política Nacional de Migrações e contextualização

Em outubro de dois mil e vinte e cinco, o Governo Federal instituiu Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia. Documento resultou de processo colaborativo que envolveu múltiplos atores, incluindo especialistas como Cavalcanti. A política reconhece que Brasil tem responsabilidade em garantir que migrantes, refugiados e apátridas possam exercer direitos previstos em legislação, contribuindo com desenvolvimento nacional.

Essa política representou marco. Reconhece insuficiência de abordagens anteriores. Mas política sem legislação específica é apenas intenção. É nesse ponto que trabalho de Cavalcanti ganha relevância máxima. Seus pareceres parlamentares procuram converter política em lei, intenção em norma.

O IV Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico

Decreto nº doze mil cento e vinte e um de dois mil e vinte e quatro estabeleceu IV Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas para período dois mil e vinte e quatro a dois mil e vinte e oito. Plano explicita compromisso federal em prevenir tráfico, reprimir crime e garantir assistência e proteção a vítimas. Cavalcanti participa, em diversos níveis, de sua implementação. Como pesquisadora, fornece análise. Como assessora parlamentar, redige proposições que fortalecem marcos normativos para execução do plano. Como assessora voluntária, documenta realidades que demonstram falhas na execução.

Essa triangulação permite que ela identifique não apenas o que falta legislativamente, mas também o que falta na sua aplicação.

Pesquisa como arma contra invisibilidade

O trabalho de Denise Abreu Cavalcanti responde a invisibilidade que envolve tráfico de pessoas e migrações forçadas. São fenômenos que ocorrem nas sombras. Vítimas frequentemente não se identificam como tais. Redes de tráfico operam em estruturas que fingem legalidade. Crianças desacompanhadas são frequentemente revitimizadas pelos próprios sistemas que deveriam protegê-las.

A pesquisa acadêmica de Cavalcanti tira esses fenômenos da sombra. Documenta-os. Analisa-os. Oferece evidência para que especialistas e legisladores compreendam profundidade do problema. Seu livro sobre Operação Acolhida não é narrativa sentimental. É análise rigorosa de como Estado brasileiro respondeu a crise de deslocamento de crianças. Identifica o que funcionou, o que falhou, o que exige reforma.

Perspectivas futuras e agenda legislativa

O Brasil enfrenta desafio duplo. Primeiro, combater tráfico de pessoas de forma mais eficaz, atualizando legislação para alcançar novas modalidades do crime. Segundo, acolher migrantes e refugiados com dignidade, oferecendo marcos legais que garantam direitos sem comprometer segurança.

Denise Abreu Cavalcanti está posicionada estrategicamente para contribuir com essa dupla agenda. Como assessora parlamentar, ela trabalha na redação de projetos de lei que fortalecem ambos os objetivos. Como pesquisadora, ela documenta o que existe e o que falta. Como assessora voluntária, ela encarna a defesa concreta daqueles que mais precisam.

Sua atuação simboliza mudança no entendimento de direitos humanos. Não como campo isolado de ativismo, mas como integração entre pesquisa, legislação e prática. Cada componente reforça os outros. A pesquisa sem legislação permanece acadêmica. A legislação sem prática permanece letra morta. A prática sem pesquisa e legislação permanece pontual. Cavalcanti trabalha nas três frentes simultaneamente.

Fontes

Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania - Migrantes, Refugiados e Apátridas
Senado Federal - Audiência alerta para avanço do tráfico humano
Agência Brasil - Brasil cria política nacional para migrantes, refugiados e apátridas
Ministério da Justiça e Segurança Pública - Política e Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas
ACNUR - Dados: refugiados no Brasil e no mundo
Instituto Migrações e Direitos Humanos

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Por Ultima Hora em 12/05/2026
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