Do Desenvolvimentismo de Furtado à Economia Criativa: O Desafio da Gestão Técnica frente ao Clientelismo no Brasil

Do Desenvolvimentismo de Furtado à Economia Criativa: O Desafio da Gestão Técnica frente ao Clientelismo no Brasil

Por Silvia Blumberg 

A Economia Criativa é o setor que transforma capital intelectual, talento e herança cultural em valor econômico, gerando emprego e renda através da inovação e tecnologia. No cenário global, países como Coreia do Sul, Reino Unido e Estados Unidos já consolidaram esse setor como pilar estratégico de seus PIBs. No Brasil, entretanto, a trajetória das políticas públicas voltadas ao desenvolvimento regional e cultural oscila entre o idealismo de grandes pensadores e as armadilhas estruturais da corrupção, do aparelhamento político e da falta de profissionalismo técnico.

O Legado de Celso Furtado e a Cicatriz da SUDENE 
Para compreender o presente, é preciso olhar para 1959. O economista paraibano Celso Furtado concebeu a SUDENE não como um órgão assistencialista para "socorrer a seca", mas como uma política de Estado robusta para industrializar o Nordeste e reduzir as desigualdades estruturais. Era o auge do pensamento desenvolvimentista. 

Contudo, a história mostra que o projeto de Furtado foi asfixiado por décadas de práticas clientelistas. O que deveria ser o motor da indústria tornou-se, em muitos casos, um duto para desvios de verbas e fundos de incentivo fiscal. O "Brasil arcaico", que Furtado tentou combater, acabou por cooptar a instituição. A extinção da SUDENE em 2001, pelo governo Fernando Henrique Cardoso, foi o reconhecimento de que o modelo administrativo estava exaurido pela corrupção sistêmica. Embora recriada em 2007, a lição permanece: sem fiscalização e gestão técnica, o planejamento de longo prazo sucumbe à política miúda.

Investimento X Eficiência: O Caso do Rio de Janeiro
Ao observarmos o cenário recente da Economia Criativa, especificamente no estado do Rio de Janeiro a partir de 2020 e no Brasil em 2022  percebemos que os fantasmas do passado ainda assombram   as políticas públicas. O montante investido pelo Ministério da Cultura, somado às leis de incentivo estaduais, é vultoso. No entanto, o retorno social e econômico é frequentemente limitado por gestões comprometidas com a manutenção de cargos e reeleições.
A cultura  e Economia Criativa injeta recursos e a população tem rendas sazonais e instáveis através dos modelos atuais de editais.

A implantação da Economia Criativa no Rio foi duramente impactada por divergências ideológicas e, sobretudo, por lideranças que não possuíam formação adequada para a missão. Para que esse setor floresça, são necessários pré-requisitos fundamentais: inteligência estratégica, domínio tecnológico e uma mentalidade voltada para o mercado global. Quando a cultura é tratada apenas como ferramenta de propaganda ou moeda de troca política, o setor deixa de ser uma indústria de ponta para se tornar um apêndice do assistencialismo.

O Espelho Internacional: Por que eles vencem?
O contraste com o exterior é gritante. Na Coreia do Sul, o sucesso de filmes que alcançam bilheterias até oito vezes superiores às brasileiras não é fruto do acaso. É o resultado de décadas de uma política de Estado que integrou educação, tecnologia e arte, sob uma gestão técnica e meritocrática. No Reino Unido, a Economia Criativa é mapeada e gerida como um setor de infraestrutura, com métricas de desempenho claras e baixa interferência partidária.

Nesses países, entende-se que a cultura é o conteúdo, mas a tecnologia e a gestão são os veículos que permitem a monetização e a escala. Eles não discutem apenas "arte pela arte", mas a cadeia produtiva que vai do desenvolvedor de games ao designer de moda, do cineasta ao engenheiro de software.

Conclusão: A Necessidade de Políticas de Estado
Como acreditar no êxito de políticas que nomeiam para cargos estratégicos indivíduos sem formação específica, guiados por critérios eleitorais? A trajetória que vai de Celso Furtado à atual gestão da Economia Criativa revela que o maior entrave ao desenvolvimento brasileiro não é a falta de recursos ou de talento, mas o excesso de ideologia e o déficit de gestão profissional.

Para que o Brasil conquiste o lugar que merece e amplie as oportunidades de renda para sua população, é urgente repensar as políticas públicas. Precisamos de critérios técnicos avançados, estruturas de ação descentralizadas e, acima de tudo, um compromisso com o Estado — e não com o próximo pleito eleitoral. A Economia Criativa só será, de fato, economia quando for gerida com a seriedade que o futuro do país exige.

Silvia Blumberg é professora, assistente social, MBA de Gestão e Moda,   pós graduada em Economia Criativa, Designer Sustentável e Desenvolvimento Sustentável 
Instagram: @silviablumberg2026
www.silviablumberg.com.br

Por Ultima Hora em 07/07/2026
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