QUANDO ROUBARAM O FUTEBOL DO POVO

Por Filinto Branco

QUANDO ROUBARAM O FUTEBOL DO POVO

Confesso aos queridos leitores e leitoras que a eliminação da Seleção Brasileira já não provoca o mesmo sofrimento de antigamente. Não porque amadurecemos. Apenas porque a CBF trabalhou duro para reduzir nossas expectativas. Hoje, a surpresa não é perder. É quando conseguimos jogar bem durante noventa minutos.

Há algum tempo deixei de acreditar que o problema estivesse apenas dentro das quatro linhas. O futebol brasileiro perdeu muito antes do apito final. Perdeu quando deixou de pertencer ao povo.

Durante décadas, o futebol foi a linguagem comum do Brasil. O menino da favela discutia escalação com o empresário, o operário discordava do professor universitário sobre quem deveria vestir a camisa 10, e praticamente todo brasileiro sabia de cor a escalação da Seleção. Pelé, Garrincha, Tostão, Rivelino, Zico, Romário, Bebeto, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho. Eram mais do que jogadores. Eram personagens da nossa memória afetiva.

Hoje, pergunte na rua quem são os onze titulares da Seleção. Boa parte das pessoas hesitam. E não é porque o brasileiro deixou de gostar de futebol. É porque o futebol deixou de gostar do brasileiro.

Os melhores jogadores saem do país ainda adolescentes. Crescem na Europa, jogam para torcedores estrangeiros, tornam-se marcas globais e regressam apenas para vestir uma camisa amarela que já não desperta o mesmo sentimento de pertencimento. São atletas extraordinários, milionários antes dos vinte e cinco anos, donos de carros que eu só conheço por revistas especializadas e contratos que fariam o PIB de alguns municípios parecer vale-refeição. O problema é que boa parte dos brasileiros conhece mais o entregador de aplicativo do bairro do que o lateral-direito da Seleção.

Enquanto isso, o futebol virou um grande negócio. As bets transformaram cada escanteio em oportunidade financeira. Há gente que já não torce pelo gol; torce para sair exatamente três cartões amarelos, dois escanteios e um pênalti no segundo tempo. O futebol descobriu uma modalidade curiosa: hoje é possível assistir ao jogo sem olhar para a bola.

Os empresários transformaram jogadores em ativos financeiros. Os patrocinadores descobriram que a camisa vale mais do que o futebol que ela representa. E a CBF, infelizmente, transformou-se em outro símbolo do problema. Ao longo das últimas décadas, acumulou denúncias, escândalos e presidentes envolvidos em investigações de corrupção, alguns chegaram a ser presos, outros banidos do futebol internacional. Convenhamos, é difícil ensinar espírito esportivo quando a sala da presidência parece alternar entre o gabinete e a delegacia. A entidade que deveria proteger o maior patrimônio esportivo do país passou tempo demais protegendo a si mesma. E continua parecendo viver num universo paralelo, onde trocar de presidente resolve problemas da mesma forma que trocar o técnico resolve o Campeonato Brasileiro: por alguns dias cria esperança; depois volta tudo ao normal. 

O resultado talvez não pudesse ser outro. Antes tínhamos uma Seleção de craques. Hoje, muitas vezes, parece um agrupamento de excelentes jogadores que pouco se conhecem, reunidos às pressas para cumprir um calendário. Há talento de sobra. Falta identidade.

Talvez a derrota mais dolorosa nem tenha acontecido nesta Copa. Ela começou quando o futebol deixou de ser patrimônio cultural para se transformar apenas em produto. Quando o torcedor virou consumidor. Quando o menino sonhou menos em vestir a camisa do clube do coração e mais em assinar o primeiro contrato milionário na Europa.

É claro que o futebol mudou no mundo inteiro. Mas o Brasil mudou mais. Perdemos aquela estranha intimidade que tínhamos com a Seleção. Ela já não parece morar na mesma rua que nós.

A derrota desta Copa é vergonhosa, sem dúvida. Mas talvez seja apenas a consequência de uma derrota muito maior, construída silenciosamente ao longo de muitos anos.

Primeiro roubaram o futebol do povo. Depois venderam o restante para patrocinadores, empresários, plataformas de apostas e dirigentes especializados em transformar paixão em planilha. Agora olham para as arquibancadas e perguntam por que o encanto acabou. Como se fosse um grande mistério.

Talvez o problema da Seleção não seja a falta de craques. Seja o excesso de donos.

Filinto Branco
cronista de ideias

Por Ultima Hora em 07/07/2026
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