Levantamento aponta desafios para para ampliar a oferta de ovos livres de gaiolas no Brasil

Pelo terceiro ano consecutivo, as regiões Norte e Nordeste são apontadas como os principais gargalos para o abastecimento de ovos cage-free; para especialistas, ampliar a produção local é fundamental para fortalecer a cadeia e acelerar a transição

Levantamento aponta desafios para para ampliar a oferta de ovos livres de gaiolas no Brasil

BRASÍLIA - Com mais de 160 empresas comprometidas com a transição para ovos livres de gaiolas e prazos cada vez mais próximos para o cumprimento dessas metas, ampliar a capacidade de abastecimento tornou-se um dos principais desafios da cadeia de produção de ovos no país. E esse cenário se torna ainda mais evidente nas Regiões Norte e Nordeste, apontadas pelo terceiro ano consecutivo como os locais com maior dificuldade para expandir a oferta do sistema cage-free.

É o que revela a terceira edição do Observatório do Ovo, levantamento anual realizado pela Alianima — organização de proteção animal sem fins lucrativos, que atua junto à indústria alimentícia para promover melhorias no bem-estar animal das cadeias produtivas. O estudo acompanha a evolução dos compromissos assumidos por redes supermercadistas brasileiras e identifica os principais entraves para ampliar a adoção de ovos livres de gaiolas.

Segundo as empresas participantes, fatores como menor disponibilidade de produtores, desafios logísticos, baixa escala de produção e menor conhecimento do consumidor sobre ovos livres de gaiolas ajudam a explicar esse cenário. Esses gargalos impactam diretamente a capacidade de expansão da oferta e dificultam o cumprimento dos compromissos públicos assumidos por empresas que atuam nacionalmente.

Na avaliação da Tapuio Agropecuária, produtora de ovos do Rio Grande do Norte que assumiu o compromisso de migrar 100% da produção para sistemas livres de gaiolas até 2028, os compromissos das empresas compradoras são fundamentais para dar previsibilidade e segurança ao produtor. Segundo a empresa, a garantia de demanda reduz os riscos do investimento e permite que os produtores planejem essa mudança no longo prazo.

A discussão ganha ainda mais relevância em um momento de forte expansão da avicultura de postura no país. Nos últimos dez anos, a produção nacional de ovos cresceu 58%, enquanto o consumo aumentou 51%, alcançando o recorde de 62,3 bilhões de unidades produzidas em 2025. Nesse contexto, ampliar a oferta de ovos livres de gaiolas passa a ser um desafio estratégico para toda a cadeia produtiva, especialmente em Regiões onde o abastecimento ainda é limitado.

Para Maria Fernanda Martin, zootecnista e gerente de bem-estar animal da Alianima, o resultado reforça que a transição para sistemas livres de gaiolas depende não apenas do comprometimento das redes varejistas, mas também do fortalecimento da produção nas Regiões onde a oferta ainda é insuficiente.

"À medida que mais empresas avançam em seus compromissos, cresce também a necessidade de fortalecer ainda mais a cadeia produtiva para garantir o abastecimento. Norte e Nordeste têm um papel estratégico nesse processo e representam uma oportunidade para ampliar a produção regional e tornar essa transição mais sustentável", afirma.

Coordenação entre os elos da cadeia será decisiva

Ampliar a produção local não significa apenas facilitar o abastecimento das redes supermercadistas. Também representa uma oportunidade para fortalecer produtores da região, reduzir a dependência de fornecedores de outros estados e preparar a cadeia para atender a uma demanda que tende a continuar crescendo nos próximos anos.
Para que isso aconteça, a especialista destaca que é necessário que haja uma atuação coordenada entre redes supermercadistas, produtores, associações e demais agentes da cadeia. Entre as medidas apontadas estão o fortalecimento do diálogo entre as empresas e fornecedores locais, a ampliação de mecanismos de financiamento e linhas de crédito para apoiar a adaptação dos sistemas produtivos, maior previsibilidade da demanda e iniciativas de informação ao consumidor sobre os diferentes sistemas de produção.

Maria Fernanda explica que o fortalecimento da produção regional beneficia toda a cadeia. Segundo ela, “quando existem fornecedores mais próximos dos consumidores, e produtores com segurança para investir, o abastecimento se torna mais eficiente e a transição acontece de forma mais sustentável".

Essa percepção também é compartilhada por quem conduz essa transição na prática. Para Francisco Veloso Jr., diretor presidente da Tapuio Agropecuária, a colaboração entre produtores e supermercados é um dos pilares para fortalecer a cadeia e tornar essa mudança economicamente viável.

"A colaboração é essencial para o desenvolvimento sustentável da cadeia. O alinhamento entre produtores e supermercados permite ajustar oferta, demanda e precificação, garantindo viabilidade econômica. Esse diálogo também contribui para educar o consumidor e acelerar a evolução do mercado", afirma Francisco Veloso Jr.

A especialista da Alianima comenta que os desafios regionais existem e precisam ser reconhecidos, mas eles também mostram onde estão as maiores oportunidades de desenvolvimento. “Quanto maior o diálogo entre os supermercados e produtores locais, maiores são as condições para ampliar a oferta de ovos livres de gaiolas e gerar benefícios para todos os elos da cadeia.”, conclui.

Clique aqui para acessar a 3ª edição do Observatório do Ovo - http://observatoriodoovo.com.br/

A Alianima é uma organização de proteção animal sem fins lucrativos, que trabalha em estreita colaboração com líderes da indústria alimentícia para identificar e abordar os principais desafios enfrentados pela cadeia de produção animal. A organização oferece parcerias, consultorias e suporte técnico gratuito às empresas comprometidas em melhorar as condições de vida dos animais, auxiliando na implementação de práticas sustentáveis e de bem-estar animal. Com uma equipe especializada, fundamenta todas as suas ações e materiais em dados técnico-científicos, com o objetivo de fomentar uma indústria mais atenta e preocupada com o sofrimento animal e um consumidor mais informado sobre a origem de seus alimentos.

Por Peterson Baestero em 16/07/2026
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