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Há momentos na história de um país que marcam rupturas silenciosas, quase sempre mais relevantes do que proclamações grandiloquentes. O Brasil, durante décadas, viveu sob a tutela explícita do Fundo Monetário Internacional. Um diagnóstico incômodo, mas inegável: éramos devedores crônicos, dependentes de receitas ortodoxas ditadas à distância, incapazes de afirmar uma política própria sem o carimbo de aprovação do FMI.
Nos anos 80 e 90, a vida econômica nacional se resumia a pacotes de ajuste que combinavam austeridade severa, cortes sociais e liberalização apressada. Evitávamos o colapso cambial imediato, mas ao preço da perpetuação de um modelo de desenvolvimento frágil, subordinado e dependente. O FMI não era um parceiro; era, em essência, o tutor de um Estado permanentemente em crise.
Foi neste cenário que, em 2003, Lula assumiu a Presidência sob o olhar desconfiado dos mercados. Contra a caricatura do “radical” que herdara, sua estratégia foi simultaneamente ortodoxa e inovadora: manteve superávits primários robustos, acumulou reservas internacionais em níveis inéditos, expandiu políticas sociais como o Bolsa Família e, sobretudo, construiu confiança negociando com firmeza e inteligência.
O gesto decisivo veio em 2005: o Brasil quitou antecipadamente sua dívida de US$ 15,5 bilhões com o FMI. Mais que um movimento contábil, foi um ato de afirmação política. Pela primeira vez em décadas, não devíamos explicações ao Fundo. A autonomia, até então retórica, passava a ter expressão concreta.
Esse reposicionamento abriu caminho para uma política externa ativa. O Brasil projetou-se no Mercosul, liderou a criação da UNASUL e, sobretudo, tornou-se protagonista nos BRICS. Ao lado de Rússia, Índia, China e África do Sul, ajudou a fundar o Novo Banco de Desenvolvimento, símbolo da construção de alternativas à arquitetura financeira tradicional. De país tutelado, passamos a mediador global.
Hoje, em 2025, é preciso nuance. O Brasil não está imune às recomendações do FMI, tampouco rompeu com o sistema internacional. Ainda lidamos com dívida elevada, pressões fiscais e vulnerabilidade a choques externos. Mas a relação já não é vertical: é crítica, negociada e, em muitos pontos, horizontal. O FMI elogia o crescimento brasileiro, endossa nossa reforma tributária e reconhece o plano de transição ecológica. E, quando discorda, o Brasil também discorda – em público e sem constrangimentos.
A soberania, no século XXI, não é isolamento. É a capacidade de negociar de posição fortalecida, influenciando a agenda global enquanto se constroem alternativas institucionais. Lula foi o líder que conduziu essa travessia: da subordinação à soberania relativa, da tutela do FMI ao protagonismo nos BRICS.
A lição é clara: não se trata de romper com o mundo, mas de disputar espaço nele. O Brasil deixou de ser paciente para ser jogador. E, como tal, precisa seguir ampliando sua autonomia enquanto navega um sistema em que as velhas estruturas ainda coexistem com novas forças emergentes.
Por Prof. Jorge Tardin – Curador da Coalizão Veredicto do Capital - [email protected]
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