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Há histórias que nascem de grandes projetos. Outras, de planejamentos estratégicos. Mas algumas começam da forma mais simples e poderosa possível: um abraço.
Foi exatamente assim que a vida do empreendedor Marcos Dornelles mudou. Não por uma campanha, uma eleição ou um projeto político. Mas pelo gesto espontâneo de uma criança autista que, contrariando todas as expectativas, escolheu abraçá-lo durante uma confraternização familiar em Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro.
Até aquele momento, a criança havia permanecido distante, sem qualquer interação com ele. No fim da festa, quando restavam apenas os familiares, Marcos foi surpreendido. O menino estendeu os braços, pediu colo e o abraçou. A emoção tomou conta dos pais da criança, que jamais esperavam aquela reação.
Para Marcos, porém, aquele instante representou muito mais do que um gesto de carinho.
Foi um chamado.
"Naquele abraço eu senti algo que nunca havia vivido. Era como se Deus estivesse me mostrando uma missão. Eu não entendia exatamente o que era, mas sabia que precisava fazer alguma coisa pelas famílias atípicas."
A partir daquele dia, ele decidiu mergulhar em uma realidade que, até então, conhecia apenas superficialmente. Passou a conversar com pais, mães, profissionais, conhecer as dificuldades enfrentadas diariamente pelas pessoas autistas e pelas famílias que convivem com o Transtorno do Espectro Autista (TEA).
O que encontrou foi um cenário marcado por desafios que vão muito além do diagnóstico.
Segundo Marcos, a maior luta dessas famílias começa justamente onde deveria existir acolhimento: no acesso aos serviços essenciais.
A dificuldade para conseguir terapias, atendimento psicológico, psiquiátrico, acompanhamento multidisciplinar e suporte especializado faz parte da rotina de milhares de brasileiros. Em muitos casos, um dos pais precisa abandonar o mercado de trabalho para se dedicar integralmente aos cuidados do filho.
O impacto financeiro acaba sendo inevitável.
Enquanto a renda diminui, as despesas aumentam. Ao mesmo tempo, essas famílias enfrentam uma verdadeira maratona burocrática para garantir direitos básicos na saúde, na educação e na assistência social.
Para ele, essa realidade precisa deixar de ser tratada como um problema isolado.
"As famílias atípicas não pertencem à direita, à esquerda ou ao centro. Elas pertencem à sociedade. Existem em todas as classes sociais, em todas as religiões e em todas as regiões do país. A inclusão não pode ser uma bandeira partidária. Ela precisa ser um compromisso coletivo."
Foi justamente desse compromisso que nasceu Max.
Criado por Marcos, o personagem é um super-herói que se tornou mascote do movimento em defesa da comunidade autista. Mais do que um uniforme colorido, Max representa uma ferramenta de aproximação entre a sociedade e uma causa que ainda enfrenta preconceitos, desinformação e invisibilidade.
O personagem surgiu quando Marcos passou a integrar um grupo voltado à causa autista. Durante as conversas, percebeu que faltava um símbolo capaz de dialogar principalmente com as crianças.
Vieram noites de estudos, desenhos, pesquisas e adaptações até que cada detalhe fosse definido.
A história guarda até mesmo uma curiosa coincidência.
A última peça que faltava para concluir o figurino era uma bermuda amarela. Depois de procurar sem sucesso em diversas lojas, Marcos acabou encontrando exatamente o modelo que imaginava durante uma nova visita a Petrópolis — a mesma cidade onde havia recebido o abraço que transformou sua vida.
Desde então, Max passou a frequentar eventos, encontros, campanhas de conscientização e atividades voltadas às famílias atípicas.
Nas apresentações, o personagem rompe barreiras que muitas vezes os adultos não conseguem ultrapassar. Crianças se aproximam naturalmente, sorriem, interagem e encontram naquele super-herói uma figura acolhedora, capaz de criar conexões sem precisar de palavras.
Muito além de um mascote, Max tornou-se um instrumento de inclusão.
Enquanto o personagem encanta o público infantil, Marcos aproveita cada oportunidade para chamar atenção para questões estruturais que continuam desafiando milhares de famílias brasileiras.
Entre elas está a necessidade de investir não apenas em espaços adaptados, mas principalmente na formação dos profissionais que atendem pessoas neurodivergentes.
"Não adianta construir centros especializados se quem trabalha neles não estiver preparado para receber essas famílias com respeito, conhecimento e sensibilidade."
Ao longo da conversa, Marcos retorna repetidamente a uma palavra que considera indispensável: empatia.
Para ele, informação é fundamental, mas sozinha não transforma realidades.
É a empatia que desperta o desejo genuíno de compreender, acolher e agir.
"Tem gente que tem informação, mas não tem empatia. Tem quem queira ajudar, mas ainda não sabe como. Quando essas duas coisas caminham juntas, a inclusão acontece."
A mensagem também é direcionada às famílias que acabaram de receber o diagnóstico de autismo.
Segundo ele, o primeiro passo é buscar informação de qualidade, construir redes de apoio e aproximar-se de outras famílias que vivem desafios semelhantes.
"Ninguém melhor do que quem vive essa realidade diariamente para compartilhar experiências e mostrar caminhos."
Outro ponto defendido por Marcos é a participação ativa dessas famílias na vida pública.
Na sua visão, quanto maior a presença de pessoas diretamente ligadas à causa nos espaços de decisão, maiores serão as chances de construção de políticas públicas capazes de responder às necessidades reais da comunidade.
Filho de uma costureira cearense e de um militar da Marinha, Marcos cresceu aprendendo o valor do trabalho. Atuou na construção civil, na área automotiva, tornou-se empreendedor e desenvolveu projetos criativos que refletem sua vocação para transformar ideias em soluções.
Mas nenhuma dessas realizações parece ocupar hoje um espaço tão significativo quanto a missão assumida após aquele encontro em Petrópolis.
Quando fala sobre o abraço que recebeu da criança autista, a emoção ainda interrompe sua voz.
Para ele, aquele momento foi o maior ensinamento de sua vida.
Desde então, sua maior motivação passou a ser fazer com que outras pessoas também descubram o poder transformador da empatia.
Porque, para Marcos Dornelles, a inclusão começa quando alguém decide enxergar o outro.
E, através de Max, o super-herói que nasceu de um abraço, ele segue tornando esse encontro possível todos os dias, levando acolhimento, esperança e sorrisos a crianças e famílias que, por muito tempo, aprenderam a enfrentar seus desafios quase sempre em silêncio.
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