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Por Lívia Louvel
O Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2025 foi concedido a Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt por seus trabalhos sobre inovação e destruição criativa. A premiação não fala sobre o Brasil — mas fala ao Brasil. Em um momento em que o País ensaia uma nova política industrial com a Nova Indústria Brasil (NIB), o que está em jogo não é apenas um programa de governo, mas a possibilidade de reposicionar o País em um ciclo global de industrialização que já está em curso. A questão central não é se haverá oportunidades — mas se teremos estrutura política, institucional e tecnológica para não chegar atrasados, como em outros ciclos.
Durante boa parte do século XX, a indústria foi o centro de gravidade do projeto nacional. Produzir significava construir infraestrutura, capacidade e autonomia; a fábrica condensava uma visão de País e articulava política econômica, integração territorial e mobilidade social. Foi em torno dela que se desenharam planos, se ergueram instituições e se costurou a ideia de desenvolvimento como projeto de Estado.
Essa base produtiva começou a se formar ainda no final do século XIX, com núcleos industriais têxteis e alimentares, e ganhou velocidade nas décadas seguintes, impulsionada pela urbanização e pelo fechamento do comércio internacional. Estimativas históricas indicam que a participação da indústria no PIB passou de cerca de 20% em 1939 para 26% em meados dos anos 1950. A criação da Companhia Siderúrgica Nacional, em 1941, representou um ponto de inflexão. O aço deixou de ser apenas insumo e tornou-se vetor de projeto: organizou cadeias, atraiu capitais, impulsionou engenharia e consolidou a noção de que a industrialização exige Estado, escala e visão geopolítica. Mais do que uma usina, foi a institucionalização de um projeto de País.
Nos anos 1950, a industrialização tornou-se instrumento deliberado de poder nacional. O Plano de Metas de Juscelino Kubitschek condensou décadas de ambição em um ciclo curto de expansão acelerada. Infraestrutura, energia, setor automotivo e química pesada formaram o núcleo de uma economia que, pela primeira vez, buscava disputar espaço entre as nações industrializadas. O Estado não apenas induzia produção, construía arquitetura produtiva.
A década de 1970 marcou o ponto de maior densidade dessa estratégia. A diversificação do parque industrial, impulsionada pelo II Plano Nacional de Desenvolvimento, consolidou cadeias produtivas complexas e ampliou a capacidade tecnológica do País. Em 1985, a indústria de transformação respondia por cerca de 27% do PIB e concentrava mais de um quarto dos empregos formais. O Brasil havia se tornado a oitava maior economia industrial do mundo, sustentando cadeias produtivas integradas e uma engenharia nacional robusta. A fábrica não era apenas espaço de produção — era eixo de coesão econômica e vetor de soberania.
Quando esse eixo começou a se mover, o País entrou em outra temporalidade. A virada dos anos 1990 coincidiu com duas histórias que corriam em ritmos diferentes — e, por isso mesmo, ampliaram o descompasso brasileiro. Internamente, a abertura comercial ocorreu em um ambiente de inflação crônica e uma democracia recém-nascida, sem instrumentos capazes de proteger ou reorganizar a base produtiva. A indústria saiu de um ecossistema protegido para um mercado aberto e competitivo sem amortecedores institucionais.
O Plano Real estabilizou a moeda, mas ancorou a política anti-inflacionária em um câmbio fortemente valorizado. Entre 1994 e 1998, a taxa nominal variava entre R$ 0,86 e R$ 1,20 por dólar, comprimindo margens de exportação e estimulando a substituição da produção local por bens importados. O resultado foi um esvaziamento gradual da capacidade produtiva: entre 1985 e 1999, a participação da indústria de transformação no PIB despencou de 27% para cerca de 16%, enquanto a importação de manufaturados saltou de 5% para mais de 20% do consumo interno. A engenharia nacional perdeu musculatura e a indústria deixou de operar como eixo de coordenação econômica.
A década de 1990 foi uma virada silenciosa. As cadeias produtivas globais migraram para onde custo e escala se combinavam. China, Vietnã e México tornaram-se epicentros dessa nova geografia industrial. A adesão da China na Organização Mundial do Comércio, no início dos anos 2000, apenas cristalizou um movimento em curso — redefinindo a hierarquia da produção mundial. Enquanto o mundo reorganizava seu mapa produtivo, o Brasil desmontava parte de sua estrutura e se afastava de uma mesa que continuaria posta — só que com outros protagonistas.
Nos anos 2000, a bonança das commodities encontrou um País com arcabouço macroeconômico mais estável. O tripé formado por câmbio flutuante, metas de inflação e responsabilidade fiscal garantiu previsibilidade, e a valorização do real ancorou preços internos. O superciclo das commodities gerou divisas abundantes e superávits comerciais robustos, mas concentrou o dinamismo em setores primários, enfraquecendo a complexidade produtiva. Produtos de alta tecnologia representavam menos de 10% das exportações e mais de 30% das importações. A indústria manteve polos de excelência — como aeronáutica, fármacos e instrumentação —, mas perdeu tração sistêmica. Crescemos com vento externo favorável, mas sem densidade inovadora capaz de sustentar uma inserção competitiva de longo prazo.
Hoje, a NIB surge em um cenário mais favorável do que aquele dos anos 1990. O mundo industrial vive uma reconfiguração silenciosa e profunda. Após três décadas de globalização produtiva, as grandes economias voltam a erguer instrumentos de política industrial. A vulnerabilidade das cadeias durante a pandemia, o avanço tecnológico concentrado e as tensões geopolíticas reacenderam o interesse por produção doméstica ou regionalizada — friendshoring e nearshoring. Nesse ambiente, a inovação e os investimentos em pesquisa e desenvolvimento tornam-se eixos centrais da estratégia competitiva, o famoso capital intangível — que, nesse caso, é essencial para se tornar tangível.
Os Estados Unidos criaram o CHIPS and Science Act para semicondutores; a União Europeia lançou o Green Deal Industrial Plan e o Net-Zero Industry Act; e a China, que foi pivô da integração produtiva global nas últimas décadas, disputa hoje liderança em inteligência artificial, energia limpa e automação avançada. O mundo redesenha cadeias produtivas — desta vez com objetivos estratégicos, não apenas econômicos. Enquanto países da OCDE investem, em média, 2,7% do PIB em P&D, o Brasil investe cerca de 1,2% — menos da metade vinda do setor privado. Apenas 2,4% das empresas inovam continuamente, e 60% das exportações seguem concentradas em commodities.
É nesse ponto que as ideias laureadas em 2025 deixam de ser teoria e passam a iluminar o caso brasileiro. Philippe Aghion e Peter Howitt mostraram que, em ciclos tecnológicos decisivos, estruturas envelhecidas não resistem — são substituídas. A destruição criativa não é um lema otimista, mas uma força concreta que reorganiza posições econômicas e geopolíticas. Joel Mokyr acrescenta a dimensão institucional: ideias só se tornam poder quando encontram sistemas capazes de difundi-las, aplicá-las e sustentá-las ao longo do tempo.
Ao olhar para um País que investe pouco, inova de modo fragmentado e ancora sua inserção externa em produtos primários, eles provavelmente veriam o retrato de uma economia que ainda se move a reboque dos ciclos globais, sem força endógena para conduzir seu próprio ritmo de transformação. Trata-se, no fundo, de um conhecimento que não atravessa as fronteiras das instituições para se tornar poder econômico.
No Brasil, essa fricção conceitual se traduz em desafio político concreto. A ambição da NIB só encontrará tração real se for acompanhada por reformas estruturais que deem lastro institucional à estratégia produtiva. A Reforma Tributária, em regulamentação, é peça central: sem um sistema mais simples e previsível, até o melhor dos planos industriais corre o risco de não atravessar a linha de montagem. Há ainda um obstáculo crônico: a dificuldade de construir consensos legislativos estáveis em um Congresso fragmentado, onde avanços estruturais frequentemente viram moeda de troca política. Quando políticas industriais se submetem à lógica de barganhas de curto prazo, perdem horizonte. E sem horizonte, nenhuma estratégia produtiva prospera.
A força da NIB será medida não pelo volume de crédito nem pelo espetáculo dos anúncios oficiais, mas pela capacidade de alinhar estratégia produtiva, densidade tecnológica e institucionalidade robusta. O que os Nobel de 2025 ajudam a tornar nítido — cada um à sua maneira — é que a industrialização contemporânea não floresce por inércia: exige método, clareza de propósito e poder de execução. Trata-se de uma disputa planejada, estratégica e ferozmente competitiva.
Se o Brasil quiser voltar a fabricar futuro, precisará fazer mais do que retomar fábricas: terá de reconstruir um pacto produtivo. Porque hoje, o mundo não vê a indústria como herança de outras épocas — vê nela um instrumento de poder.
Lívia Louvel é economista e escreve semanalmente. Na coluna Perspectiva, traduz os movimentos da economia em análises que geram valor e orientam decisões.
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