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O ódio, na política, é um produto eficiente. Mobiliza rápido, simplifica o mundo, transforma adversários em inimigos e oferece pertencimento imediato. Dispensa reflexão, encurta o raciocínio e entrega recompensa emocional quase instantânea. Por isso, eleitoralmente, é tão sedutor.
Mas a pergunta séria é outra: quanto custa o ódio?
Essa é a pergunta que separa propaganda de realidade. O ódio pode render aplauso, clique e voto. O que ele quase nunca entrega é prosperidade. Quando deixa de ser sentimento difuso e vira método político, converte-se em instabilidade. E instabilidade tem preço.
O ódio pode até ganhar eleição. Mas não governa um país.
Não governa porque não organiza investimento, não melhora escola, não atrai indústria, não reduz o custo de vida. O ódio excita, mas não constrói. Grita, mas não entrega. Produz torcida, não resultado.
O custo aparece primeiro na economia. Nenhum país cresce em beligerância permanente. O investidor adia, o empresário recua, o crédito encarece, o risco sobe. O dinheiro procura abrigo em lugares previsíveis. O efeito chega na vida de quem não participa do espetáculo, mas paga por ele: menos emprego, menos investimento, mais aperto.
O custo aparece também nas instituições. Quando a política depende da fabricação de inimigos, instituições deixam de ser mediação e viram trincheiras. Congresso vira ringue. Tribunal vira alvo. Imprensa vira suspeita. A linguagem pública apodrece. O debate desaparece. A confiança evapora.
E quando a confiança evapora, o país trava.
Há um estágio ainda mais perigoso: quando o ódio político se veste de fé. A fé, em seu lugar, consola e eleva. Mas, capturada pela política e transformada em arma, deixa de ser ponte e vira espada. Não estamos diante de convicção espiritual. Estamos diante de instrumentalização do sagrado.
Quando a política vira religião, o país para de discutir solução e passa a discutir pecado.
Sai o debate sobre emprego, produtividade, infraestrutura, educação e tecnologia. Entra a lógica da salvação. O governante deixa de querer ser administrador e passa a desejar o papel de messias. O adversário vira herege. A divergência perde legitimidade. A democracia, que depende da convivência entre diferentes, começa a ser corroída por dentro.
Esse é um atraso civilizatório antigo. Sempre que poder político e verdade absoluta se misturaram, o resultado foi perseguição, censura e ruína. Uma sociedade madura discute soluções. Uma sociedade adoecida discute quem deve ser excomungado. Uma sociedade forte disputa projetos. Uma sociedade em regressão disputa pureza.
Seita não constrói país. Seita constrói conflito permanente.
A democracia é mais humilde e mais difícil. Exige que ninguém seja dono da verdade. Exige convivência entre contrários, negociação, freio, limite. Pode ser lenta, imperfeita e cansativa. Mas ainda é o único arranjo que permite que pessoas diferentes disputem o poder sem se destruírem.
O ódio vive do contrário. Precisa incendiar a convivência para sobreviver. Precisa dividir o mundo entre eleitos e condenados, patriotas e traidores. É uma tecnologia política primitiva, mas poderosa. Sobretudo quando falta projeto, resultado ou capacidade de construção. Quando não se consegue organizar prosperidade, tenta-se organizar ressentimento.
Construir exige método, paciência e trabalho. Destruir é rápido, barulhento e rentável para quem vive da raiva. É mais simples vender indignação do que entregar obra. É mais fácil fabricar inimigos do que organizar soluções.
Por isso, o ódio é lucrativo para quem disputa poder e devastador para quem precisa viver no país.
Há líderes que não sabem erguer uma ponte, mas são especialistas em cavar abismos. Há quem troque projeto por inimigo porque inimigo dá menos trabalho. Mas abismo não gera emprego. Ressentimento não reduz inflação. Guerra moral não pavimenta estrada, não moderniza hospital, não forma técnico, não produz segurança jurídica.
O atraso de um país começa quando a política decide trocar projeto por inimigo.
O problema do ódio não é apenas moral. É econômico, institucional e civilizatório. O ódio rouba tempo, sequestra energia e corrói a inteligência coletiva. Enquanto o mundo discute inovação, inteligência artificial, transição energética e produtividade, há países desperdiçando força histórica em guerrilhas emocionais domésticas.
O nome disso é atraso.
E atraso não é abstração. Ele aparece no jovem sem horizonte, na empresa que não expande, no investimento que não chega, no talento que vai embora. O ódio cria a ilusão de movimento, mas é uma forma de paralisia. Parece força, produz fraqueza. Parece convicção, produz cegueira. Parece coragem. Muitas vezes é apenas incapacidade convertida em espetáculo.
A vida cotidiana também paga. Pagam as famílias que deixam de conversar. Pagam os amigos que se afastam. Pagam as crianças que aprendem que divergir é odiar. Toda liderança ensina, inclusive quando agride. O país aprende o vocabulário do seu poder. E vocabulário de ódio não produz comunidade. Produz facção.
É claro que política envolve conflito. Mas há diferença decisiva entre conflito de projetos e culto à destruição. O primeiro organiza escolhas. O segundo destrói o ambiente em que as escolhas deveriam ser feitas.
A eleição mais séria não é entre quem fala mais alto. A escolha real é entre dois métodos: o método da construção e o método da combustão. O método da obra e o método da briga. O método de quem aceita a dificuldade de governar a realidade e o método de quem prefere incendiar para depois posar de salvador nos escombros.
O ódio pode ser um ativo eleitoral barato. Mas é um passivo nacional caríssimo.
E como todo passivo alto, ele vence. Vence no supermercado. Vence no emprego que não vem. Vence no investimento que não chega. Vence no empresário que desiste. Vence na instituição desgastada. Vence no país que perde tempo demais brigando e tempo de menos construindo.
Aí volta a pergunta essencial: quem paga a conta?
Não é quem lucra politicamente com a divisão.
Não é quem transforma agressividade em método.
Não é quem precisa da crise para continuar existindo.
Quem paga a conta é o povo.
Paga o trabalhador, que depende de estabilidade. Paga o pequeno empreendedor, que precisa de previsibilidade. Paga o jovem, que precisa de futuro. Paga a família, que precisa de paz social. Paga o país inteiro, porque toda vez que a política troca construção por rancor, a sociedade recebe a fatura.
E fatura de ódio nunca vem em discurso. Vem em atraso.
No fim, destruir é rápido. Reconstruir é caro. E o Brasil já desperdiçou energia demais com messianismos e guerras estéreis para continuar brincando de guerra moral enquanto o mundo constrói riqueza.
Na política, quem vive do ódio precisa de inimigos.
Uma nação precisa de construtores.
E obra nenhuma nasce da raiva.
Prof. Jorge Tardin
Advogado e Professor de Direito
Curador de Engenharia Jurídica da Coalizão Veredicto do Capital
Especialista em Relações de Consumo, Mercado, Governança e Responsabilidade Institucional
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