O Ensaio Milei

O Ensaio Milei

Por Lívia Louvel

Há países que atravessam reformas; e há momentos em que essas reformas deixam de ser apenas ajustes e se tornam experimentos. A Argentina, sob Javier Milei, vive esse segundo momento. Desde que assumiu, Milei não prometeu ajustes graduais, mas uma ruptura: desmontar o arcabouço do Estado social construído ao longo de quase um século e substituí-lo por uma lógica de liberalização radical. Não é apenas um plano econômico. É uma tentativa de reordenar a estrutura simbólica, social e política do país — aquilo que, em última instância, sustentou seu pacto social.

Essa tentativa nasce em terreno esgarçado. A inflação segue alta, embora em desaceleração, com projeção anual em torno de 41% em 2025. Nos últimos meses, a variação mensal média caiu para 1,7%, o menor patamar em anos — um sinal de descompressão que convive com renda real ainda pressionada. As reservas cambiais foram exauridas em ciclos anteriores; a confiança nos mecanismos do Estado se rarefez. Nesse clima de fadiga histórica, a promessa de Milei encontrou eco: reduzir o tamanho do Estado, abrir a economia, liberalizar o câmbio, falar de dolarização — devolver ao mercado a centralidade perdida.

Há aqui uma genealogia intelectual. Milei se ancora na tradição austríaca — Mises, Rothbard — e tangencia o debate radical de Hans-Hermann Hoppe, para quem Estados democráticos tendem a tornar-se extrativistas do capital privado, e a resposta seria reduzir ao mínimo a interferência estatal, transferindo funções à iniciativa privada e a arranjos comunitários voluntários. A experiência argentina ecoa parte dessas ideias, sem reproduzi-las literalmente: Milei não rompe com a democracia; tenta, dentro dela, desmontar engrenagens de um Estado social historicamente robusto.

Ao longo do século XX, a Argentina consolidou um bem-estar com educação pública forte, previdência abrangente, sindicatos influentes e expectativa de mobilidade social. Mesmo nos abalos — hiperinflação, moratórias, recessões — havia um fio simbólico: o Estado estava lá. É esse fio que Milei tenta cortar. Privatizações apressadas, compressão de subsídios, desregulação ampla e promessa de liberalização cambial compõem o desenho da ruptura.

O apoio do setor exportador foi peça-chave nesse início — ainda que, desde o começo, pressionado pelo novo câmbio e margens mais estreitas. Por décadas, as retenciones corroeram lucros e alimentaram uma tensão crônica entre campo e Estado. A promessa de menos impostos e desburocratização soou como alívio depois de anos de estrangulamento fiscal. Mas a realidade macroeconômica se impôs com mais força que a retórica: a valorização real do peso — puxada por fluxos financeiros e pela própria estratégia de estabilização — encareceu custos domésticos em dólar e estreitou a competitividade, justamente quando o setor externo representa cerca de 15% do PIB argentino.

Exportar, assim, ficou mais caro, incerto e menos rentável. E o câmbio, que deveria ser coluna vertebral do novo ambiente de negócios, ainda opera com bandas e regras que reduzem previsibilidade — um regime em transição, não a liberalização plena que o discurso sugere. Para um presidente que se apresenta como herdeiro da Escola Austríaca, as bandas cambiais carregam uma ironia silenciosa. Elas não fazem parte do ideário — são um artifício pragmático, uma pausa técnica em um projeto que sonha com livre flutuação. Foram úteis ao Brasil em 1999, como ponte entre o colapso de um modelo e a consolidação de outro. Na Argentina, cumprem papel semelhante: estabilizam o presente, mas desafiam a coerência do discurso no horizonte estendido.

Bandas cambiais, em essência, criam um corredor de flutuação: uma âncora temporária para conter volatilidade e estabilizar expectativas. Funcionam no curto prazo — especialmente em contextos de transição — mas, no longo prazo, são um arranjo híbrido, frágil e ideologicamente incompatível com doutrinas que pregam livre mercado absoluto. Milei, portanto, ainda opera dentro de um regime que tensiona seu próprio discurso.

Essa fricção se traduz em economia real. O câmbio semiancorado e a valorização relativa do peso não apenas pressionam discursos, mas apertam margens. Grandes grupos agrícolas amortecem parte do impacto com escala, crédito externo e hedge; pequenos e médios produtores navegam sem amortecedores. Na indústria exportadora, a equação é mais severa: custos internos em alta, mercado doméstico retraído, margens comprimidas. O país conhece esse terreno: nos anos 1990, a euforia inicial da convertibilidade cedeu passo a uma compressão lenta — e implacável — da base produtiva. As rimas com o presente são audíveis.

O apoio desse setor, portanto, não desaparece; recalibra-se. O entusiasmo ideológico do início cede espaço a um cálculo mais frio, guiado por margens, volatilidades e riscos percebidos. Entre a promessa de liberdade econômica e o custo concreto do choque, abre-se uma fissura silenciosa — que pode sustentar o projeto no curto prazo ou, com a mesma força, transformar-se em um fosso de insatisfação e reações civis difíceis de conter.

Por ora, os sinais permanecem ambíguos. A desinflação avança, contida pelo realinhamento de preços administrados; a dinâmica cambial mostra alguma estabilidade, sustentada por mecanismos transitórios; o emprego formal permanece estagnado, enquanto a informalidade absorve parte dos choques e a renda real reage de maneira desigual.

A Argentina tampouco dispõe das condições institucionais, políticas e sociais que tornariam possível um “laboratório integral” da Escola Austríaca. A própria natureza desse ideário colide com a estrutura de qualquer Estado moderno. O que se observa é um ensaio híbrido — uma tentativa de avançar elementos liberais radicais dentro de um arcabouço que, por definição, os limita. Caso alcance alguma estabilidade durável, não será um caso “puro”, mas um episódio singular: o primeiro experimento presidencial contemporâneo que se apresenta declaradamente ancorado nessa tradição teórica.

É só aqui — e não antes — que a política volta à cena com força. Sua coalizão saiu fortalecida nas eleições legislativas de outubro de 2025, ultrapassando 40% dos votos e ampliando margem de manobra institucional. A democracia, longe de ser um obstáculo, mostra-se como instrumento de sustentação e extensão de um experimento que se alimenta dela enquanto a fricciona por dentro.

Há precedentes históricos que fazem essa tensão ecoar. Muitos regimes usaram a democracia não como fim, mas como meio para prolongar o poder, por exemplo. O flerte com Hoppe paira como subtexto: a manutenção do jogo democrático pode não ser antagônica ao projeto, mas parte estratégica dele. A democracia, afinal, pode ser útil demais para ser descartada no início de uma ruptura.

Diante disso, três trilhas se insinuam. Na consolidação, a desinflação se confirma, a confiança interna substitui parte do capital especulativo e o Estado mínimo funcional se impõe como novo regime — com ganhos de eficiência e um pacto social reescrito. No interregno instável, a estabilização parcial convive com custos sociais altos e governabilidade penosamente negociada. No adverso, o choque implode antes de criar bases, o pacto antigo some e o novo não se consolida — terreno fértil para convulsão social e rupturas de longo curso.

Terapias de choque não são neutras; redistribuem poder, riqueza e sentido coletivo. O Chile dos anos 1970, a Rússia dos 1990 e a própria Argentina da convertibilidade deixaram cicatrizes e reordenamentos duradouros. A diferença, agora, é a transparência da narrativa: uma tentativa explícita de transformar doutrina libertária em engenharia política, num país cujo imaginário foi moldado por um Estado protetor.

Entre a utopia libertária e o realismo das ruas, a Argentina caminha sobre solo frágil. Nenhum choque é neutro. Nenhum pacto se desfaz sem deixar marcas. No fim, o país se torna o palco do Ensaio Milei — um experimento que transforma teoria em experiência real e recorre aos mecanismos democráticos para empurrar as fronteiras de intervenção estatal para trás, apoiado por uma maioria ainda significativa.

Lívia Louvel é economista e escreve semanalmente. Na coluna Perspectiva, traduz os movimentos da economia em análises que geram valor e orientam decisões.

 

Por Perspectiva em 31/10/2025
Aguarde..